20 de junho de 2016

Do we trust?

A frase In god we trust impressa nas notas de dólares nada tem a ver com aquele Deus Sublime pertencente à esfera do sagrado. É só um lembrete subliminar ao portador daquele insignificante pedaço de papel de quem é o deus supremo nesse corrompido sistema de valores atual: o dinheiro. Quem, consciente ou inconscientemente, cair nesse conto do vigário, talvez receba até alguns agradinhos. Afinal, esse deus permite tantos prazeres - desde um brigadeiro a uma mansão numa ilha paradisíaca. O signatário desse perverso contrato que se prepare, no entanto, para dar sua contrapartida - a preciosa luz que habita seu coração. Assim constrói-se um exército de zumbis de corações gelados. Nesse deus eu não acredito. E você?

29 de fevereiro de 2016

Fragária

Já havia perdido a esperança de vê-la. Mas, após pedalar cerca de cinquenta quilômetros, depois de subidas intermináveis e extenuantes, descidas íngremes e pedregosas, lá estava ela. Linda, exuberante, selvagem, um quê de inexplorada. Parecia até um pouco desdenhosa, consciente dos seus irresistíveis encantos. Olhei todas as estradinhas de terra no entorno que atravessavam horizontes - ninguém. Somente eu desfrutava daquela edênica visão. Como poderia alcançá-la? Qual o caminho secreto para mergulhar em suas águas revigorantes? Essas e diversas outras perguntas eram em vão. Não havia mais tempo. A noite não tardaria e eu não estava disposto a enfrentar o breu daquelas paragens desconhecidas. Uma última espiada. Parti com indescritível vazio no peito, enquanto ouvia sua música silenciando. Segui resoluto. Diferentemente de Orfeu, sem olhar para trás.

Os últimos trinta quilômetros da jornada foram de reflexão, absorvendo aquela lição. Na vida é preciso desapego. É preciso convencer o menino acostumado com a pertença de carrinhos e piões de que a beleza genuína se dissolve quando pertencida. A beleza da cachoeira vem da água que se joga e despenca livremente. Talvez os homens verdadeiramente felizes sejam aqueles a quem a memória de um momento vivido em sua plenitude lhes basta. Talvez a felicidade seja contentar-se com o que foi e abandonar a imaginação do que poderia ter sido.

9 de novembro de 2015

Abismo do norte

Todos os dias o passarinho acordava, olhava os estragos que a chuva ou o vento do dia anterior havia causado no ninho. Enquanto a família ainda dormia, alçava voo. Era um voo curto, cauteloso, comedido. Não ousava distanciar-se demais. Buscava sempre a melhor palha para reparar o ninho. Quando voltava, era reconfortante ouvir o canto de júbilo dos seus. Ter um lar habitado por quem te ama e aguarda o teu retorno - eis uma provável definição de felicidade. Seu coraçãozinho de pássaro deveria estar pleno. Mas não estava.
Ao norte do seu caminho rotineiro estava o misterioso e temido Abismo. Pássaro algum jamais ousara mergulhar em suas profundezas. O que haveria lá? O paraíso? Um inferno repleto de terríveis predadores? O Vazio? Tudo isso passava pelo seu miolinho quando, a cada voo, desviava-se um pouco mais para o norte. Um dia, jogou-se na vasta escuridão do mistério. Sabia que poderia não voltar. Sabia que, se voltasse, poderia jamais encontrar outro ninho como aquele que habitara e que tanto o amara. Mas, acima de tudo, sabia que, para Conhecer, é preciso aventurar-se.

30 de agosto de 2012

Ampulheta

Chega uma hora na vida do homem - hora assombrosa e tensa como o átimo que divide o inspirar e o expirar - em que o pobre diabo se dá conta de que pouco ou nada realizou nos míseros instantes entre o seu aparecimento e o agora.
O arquiteto vasculha na memória todas as casas por ele já projetadas. Nada digno de lembrança.
O músico percebe que a sua maior realização foi o silêncio entre as tantas notas tortas.
O faraó agonizante imagina quão bela e imponente teria sido uma pirâmide maior que aquela que lhe oferece a sombra para um jazer menos penoso.
A revolta ingênua advém da absoluta impossibilidade de se extrair suco de uva espremendo-se uma laranja. Não se obtém o perpétuo a partir do transitório. Cada segundo gasto nessa horrenda e alucinada empreitada é mais um fio de areia que escorreu pela ampulheta.
Na vida, embora não se saiba o quanto de areia resta do lado de cima, sabe-se que indubitavelmente a areia já escorrida jamais retornará subindo. Na vida, não há desviver.

23 de agosto de 2012

Esculpir-se

Na taverna, enquanto bebia seu chá, o ancião observava uma discussão infértil entre um lenhador e um entalhador.
- Eu, lenhador, que forneço tua matéria-prima. Sem minha força, tua arte mergulha no vazio abissal, deixa de existir.
Ao que respondeu o entalhador:
- Prescindo de lenha. Sem o lenhador, esculpo miríades de seres maravilhosos nas próprias árvores. Minha matéria-prima é a madeira e quem a fornece-me é a natureza.
Terminaram de beber seu vinho e decidiram procurar o ancião para superar o impasse. Disse o lenhador:
- Ei, velho! Pelos teus trajes e pela tua longa barba nota-se que és um daqueles sábios que vivem nas montanhas. Diga-nos qual é o mais nobre ofício: lenhar ou entalhar?
- O lenhador nos traz a lenha, que espanta o frio dos rigorosos invernos. A ele devemos nossa existência e nossa permanência nestas terras gélidas. O lenhador é um destruidor. Porém, ao destruir, também cria as condições das quais dependemos para sobreviver. Assim, o destruir do lenhador encerra um princípio criador.
Bebeu mais um gole do chá e prosseguiu:
- Mas alguma coisa impele o ser humano a transcender o mero existir. É imperioso que essa existência seja plena de sentido. Eis então que surge a arte para fertilizar o solo do existir. O entalhador, com sua habilidade e precisão, nos brinda com belas esculturas. O entalhador é um criador. Porém, ao criar, sua nobre arte ressoa tão profundamente na consciência daquele que a aprecia que provoca uma transformação. Essa transformação nada mais é do que a destruição do velho para ceder espaço ao novo. Portanto, o criar do entalhador encerra um princípio destruidor.
O ancião fez uma pausa para terminar o chá. Todos os presentes já se aglomeravam em silêncio ao seu redor, para ouvir o ensinamento. Então ele concluiu:
- Percebam então, jovens, que não há superioridade entre vocês dois. Há apenas complementação. O lenhador cria destruindo e o entalhador destrói criando. O que um de vocês faz encerra a semente do princípio predominante da ação do outro.
O entalhador então perguntou:
- O que fazes o tempo todo no topo da montanha?
- Nada além do que você e o lenhador fazem aqui embaixo. Porém, aqui embaixo vocês estão todos separados. Lá em cima eu sou, ao mesmo tempo, lenhador e entalhador. Aqui, o lenhador e o machado são entes distintos. Lá, sou lenhador e machado. Aqui, o entalhador e a madeira não se confundem. Lá, sou entalhador e madeira. Assim, dia após dia, com a força e a disciplina do lenhador, obtenho de mim mesmo minha matéria-prima, ofereço-a a mim mesmo e, com a destreza do entalhador, esculpo-me.

21 de julho de 2012

Inescrutável

I
O pescador trespassou o corpinho da minhoca com o anzol pontiagudo. Ela se contorceu por alguns instantes, mas, por fim, acabou superando a dor. Depois arremessou-a na água. Um mundo fabuloso se descortinava perante seus olhos. Na escuridão dos túneis subterrâneos, ela sempre sonhara com universos paralelos. Porém, em sua imaginaçãozinha de minhoca, eram universos de terra. E os habitantes desses universos eram, em essência, minhocas. Modificadas, evoluídas, mais inteligentes; mas minhocas. O mundo aquático era estarrecedor. Nem mesmo o Julio Verne dos anelídeos teria obtido êxito em descrevê-lo. As milhares de cores inebriavam-na. Os seres, repletos de escamas prateadas, encantavam-na. Até que um deles se aproximou. Escancarou ferozmente a bocarra repleta de dentes. Ela berrou:
- Ei! O que estás fazendo?
- Ora bolas! Estou preparando a mordida para te devorar.
- Não faças isso, nobre ser aquático. Não percebes a silhueta horrenda do monstro a te espreitar? Assim que me abocanhares, ele te puxa pra fora da água com seu fio mágico.
A pobre minhoquinha indicava com os olhos assustados a direção do pescador.
- Fio mágico? Não enxergo nada! Pra fora da água? Não existe fora da água! O mundo todo é água. Água é tudo o que há. Estás tentando me ludibriar.
Dito isso, deu a mordida fatal.

II
Sentiu um puxão tão violento que nem mesmo na mais forte das correntes marítimas suas singelas nadadeiras teriam ficado tão doloridas. Na boca, a dor lancinante, além de sangue, muito sangue. Contorceu-se por alguns instantes, mas, por fim, conseguiu superar a dor. Um mundo fabuloso se descortinava perante seus pequeninos olhos esbugalhados. Estava mergulhado em um mundo incrivelmente diáfano. Seria aquilo tudo água? Mas que tipo de água menos espessa seria aquela? Reverenciava com temor subserviente o ígneo e luminoso círculo suspenso. Não ousava encará-lo diretamente. Deliciava-se com o azul etéreo de pinceladas brancas. Enxergava muito além do que estava habituado. Aproximou-se dele um ser gigantesco que empunhava um ameaçador e pontiagudo objeto brilhante. Quando estava prestes a ter sua barriga aberta, gritou:
- Ei! O que estás fazendo?
- Ora! Estou preparando o facão para te destripar. 
- Não faças isso, nobre gigante! Assim que provares da minha carne, cairás enfermo. O meu veneno impregnará teu sangue de tal forma que, em poucas horas, sucumbirás moribundo. Enquanto teu corpo se desfizer em ruína, tua consciência será içada a um inescrutável e assombroso reino de mistério. 
- Reino de mistério? Estás tentando me ludibriar. Irei mostrar-te o reino do meu estômago!
Dito isso, efetuou o corte, expondo as vísceras do desgraçado peixinho.

III
A febre o atormentava. Suava. Tremia. Alucinava. A zelosa esposa transmudara-se num enorme peixe. Tudo escurecia. De repente, viu-se com a minhoca e o peixe. Os três entreolharam-se. A minhoca fitou o peixe sem rancor:
- Não disse?
O peixe desviou o olhar. Depois encarou o pescador amistosamente:
- Não disse?
Sorriram. Quando se deram conta, um mundo fabuloso se descortinava perante seus olhos. Era mais fascinante que o universo de terra, de água, de ar. E se fundiram no inescrutável reino de mistério.

4 de abril de 2012

Eia!

Aconteceu numa metrópole. Manifestantes se aglomeravam pelas ruas, vindos de todos os lados. Carregavam placas, faixas e cartazes. Comparada a outras passeatas, de longe aquela era a de maior vulto. Jovens, idosos, negros, brancos, heterossexuais, homossexuais, homens, mulheres, pobres, ricos. Todos marchavam vigorosamente, repletos de vontade.
Na praça central da cidade, onde se encontravam todas as avenidas por onde descia a turba, uma jornalista aguardava. Tentava distinguir alguma frase ou palavra nas placas distantes. Qual seria, afinal, a reivindicação? Redução de impostos? Incentivo à saúde, à educação?
Quando a multidão estava suficientemente próxima, a jornalista notou, estupefata: não havia nada escrito! Placas, faixas, cartazes: tudo em branco.
- Mas afinal, contra o que vocês estão protestando?
Todos responderam em uníssono:
- Estamos simples e intransitivamente protestando. Sem objetos, sem complementos. Por que sempre se espera que a forma venha acompanhada de um conteúdo? Somos a sobrepujança da forma! Eia!
Eia era uma espécie de grito de guerra que todos pronunciavam com grandiloquência, após o que davam um soco ritmado no próprio peito.
A jornalista retrucou:
- Meus caros, a forma sem conteúdo é estéril.
Foi o tempo de terminar a frase para todo o país acompanhar ao vivo o seu linchamento em praça pública. Por fim, todas as famílias desligaram os televisores e gritaram:
- Eia!

11 de novembro de 2008

Apenas uma fábula ingênua

Dois irmãos macaquinhos conversavam na floresta:
- Fred, você sabe o que é canibal?
- Claro que sei, Ted! Canibal é quem come gente.
- Hahahaha! Você não sabe! Canibal é quem come macaco!
- Gente!
- Macaco!
Depois de se estapearem e rolarem pela relva, Ted disse:
- Vamos perguntar ao mestre Coruja.
Caminharam e encontraram o meditativo mestre. Perguntaram em uníssono:
- Mestre, canibal é quem come gente ou macaco?
- Nada disso, seus burros! Canibal é quem come coruja!

31 de janeiro de 2008

Roda da Existência

Fui um menino feliz. Não apenas pelo privilégio de ter tido bons brinquedos, bons amigos, bons irmãos. Lembro-me folheando revistas científicas – como gostava de observar fotos de planetas, estrelas, galáxias. Hoje penso ter sido este outro grande privilégio: viver num tempo em que, a despeito da fome, da miséria, das armas nucleares, o homem usou sua inteligência para enviar ao espaço sondas e telescópios. Assim, como um menino que observa a bela silhueta de uma mulher pela fechadura, podemos espreitar um ínfimo pedaço de nosso vasto universo. Tudo bem, quisera pudéssemos abrir a porta, declarar o amor platônico – não sem antes contemplar atentamente cada detalhe daquele perfeito corpo fêmeo – e, quem sabe, até receber um sorriso a Mona Lisa, de cantos de lábios. Porém, a fechadura é o máximo a que nosso nível atual de consciência permite-nos chegar em termos de compreensão do Universo. Excelente! Antes pouco que nada!
E se em alguns anos, numa demonstração de implacável fúria, a Natureza varresse quase completamente o gênero humano da face da Terra? Não por vingança pelos maus tratos que Lhe impuseram aqueles que, supostamente, são seus filhos mais inteligentes, mas apenas cumprindo seu ciclo na roda da existência. Há tempos de criar; há tempos de destruir. Terremotos, maremotos, erupções vulcânicas, todos tão intensos, que pouco restaria de nossa aparentemente inabalável e sólida cultura, forjada ao longo de tantos séculos. Aviões, arranha-céus, estradas: tudo engolido pela Natureza.
Mas e se, alheios a calamidades de tais proporções, sobrevivessem três vilarejos remotos em locais de grande altitude, digamos, da América, Europa e Ásia? A geração sobrevivente narraria aos seus filhos, em volta de fogueiras, os grandes feitos dos homens de seu tempo: as viagens espaciais, as grandes curas da medicina, as extraordinárias construções da engenharia. As crianças, num misto de perplexidade e desolação por nunca terem viajado de avião, ouviriam atentamente, acreditando. Mas esses homens contadores de histórias – nobres de coração, porém ignaros – não perpetuariam a tradição técnico-científica que hoje conhecemos. Assim, junto com nossos arranha-céus, ruiriam também, por exemplo, o teorema de Pitágoras, a penicilina, a fórmula de Einstein etc. Aí reside a maior de todas as calamidades – não os prédios que vieram abaixo ou as vacinas que ficaram soterradas – mas a impossibilidade de as gerações vindouras construírem prédios iguais ou desenvolverem as mesmas vacinas por inúmeros séculos.
Os netos dos sobreviventes ouviriam de seus pais as histórias com a mesma perplexidade, porém dando menos crédito. Talvez até comentassem entre eles:
- Acredito que os homens tivessem grandes telescópios, mas duvido que o tal do Neil Armstrong realmente tenha pisado na lua.
Assim seguiriam os netos, bisnetos, tatarenetos, de tal forma que a história cederia espaço cada vez mais à lenda. Dois ou três séculos após o grande cataclisma, quando os três vilarejos já tivessem gerado pequenos povoados num mundo repleto de densas florestas, os homens desenhariam em suas cavernas os principais momentos de suas “lendas” sobre homens-deuses voadores. Alguns séculos mais tarde, os povoados do oeste da Ásia e leste europeu encontrar-se-iam, travando sangrentas batalhas. Depois, tendo sido compreendida a língua de seus rivais, os vitoriosos ficariam surpresos ao constatar a nítida semelhança entre suas lendas.
O tempo flui, “novas” descobertas são feitas, novas guerras declaradas, um homem é pregado na cruz, pessoas são queimadas na fogueira, a arquitetura floresce, a ciência nasce, um novo continente e um novo povoado são descobertos. Mais alguns séculos e, no novo continente, um homem admira as fotos de uma linda e remota galáxia. Raciocina:
- Que momento único estou vivendo! Quantos homens do passado puderam ver uma galáxia com tamanha perfeição? E quantos no futuro ainda poderão?
Então, o homem digita em seu computador uma história que assim começa:
“Fui um menino feliz.”

10 de agosto de 2006

Joaninha fazedora de jarros

A vizinhada do bairro Olaria conhecia a senhora grisalha por Dona Joaninha. Até aí, nada demais: sua graça era Joana mesmo. O que mais encasquetava era a semelhança dela com o insetinho coleóptero: muito dócil, terna. Caminhava curvadinha e ostentava uma ampla coleção de casacos de bolinha.
Um tanto monossilábica, é verdade. Não era lá muito afeita às palavras. Joaninha acreditava em suas mãos, apenas. Por isso era das mais respeitadas oleiras das redondezas: seus jarros e moringas encantavam legiões de turistas que vinham de longe, não apenas pelas formas suaves e abauladas de encher os olhos, mas também pelos desenhos de valor artístico inestimável. Quando os filhos questionavam-na porque era tão calada, ela respondia:
- Boca mente o tempo todo. Mão não. Quando acarinha, é que ama; se bate tá com raiva.
Jamais dizia "eu te amo". Só chegava com a mão gordinha de dedos grossos, que se embrenhava pela cabeleira desalinhada das cinco crianças, e começava um feitiço de cafuné. Tão feitiçoso que logo a meninada toda se punha a dormir.
Bem de manhãzinha, quando o céu era só clarão mas o sol ainda se encorujava pra baixo da terra, Joaninha, já de pé, passava o café. Mais preto que noite. Fortíssimo. Pra agüentar o mais um dia de trabalho no torno. Sobre a mesa de toalha desbotada de muitos quadradinhos, Joaninha colocava, além das cinco xícaras das crianças, uma outra, que lá ficava até o anoitecer.
- Pro pai?
Perguntava a terceira menina, que já amocinhava e se metia a entender das coisas, empinando os peitinhos mal nascidos.
Era pra Jeremias, marido ido. Já havia quase quatro anos. O homem, logo depois de emprenhar Joaninha pela quinta vez, fugira com Analice, a filha da vizinha.
No dia da fuga, depois de girar o torno o dia inteiro, Joaninha chegara em casa exausta. Procurava Jeremias para lhe mostrar o dinheiro do dia, com a venda dos jarros. Chamava. Chamava. Nada do homem. Quando pegara o pote da economia de dez anos de trabalho, o susto! Susto brusco de boi preto que enfia a cara brava pra dentro da janela. O pote vazio que era só ar. Na manhã seguinte chegara a notícia: Jeremias havia comprado um jegue na cidade, colocara Licinha no lombo e saíra galopando pela estradica de terra que cruzava horizontes, sem destino.
Passados quatro anos, estava Joaninha fincada firme na cozinha. Café feitinho. Dia diferente dos outros: decidiu deixar as crianças dormindo mais um bocadinho, antes de despertá-las pra labuta. De repente, uma pontada violenta no peito. Como das outras vezes, pensou “hoje não”. Mas dessa vez a dor vinha metida a besta. Teimosa. Fisgou de novo, ainda mais forte, no coraçãozinho cansado. E ela, insistente:
- Já disse! Hoje não!
Apressou-se. Tinha de entregar uma encomenda de quinze jarros para uns turistas alemães. Era dinheiro que chegava pro pão da prole por uns dias. Saiu de casa com a bacia e começou a descer o barranco que dava no ribeirão. Precisaria de muito barro. Novas fisgadas e Joaninha caiu de joelhos, prostrada no lamaçal. Enfiou os dedos gordinhos na lama. Ah! Era deliciosa a sensação do barro fresquinho e cheiroso penetrando atrás das unhas.
As vistas embaçavam. Na outra margem do ribeirão, avistou um homem esguio. Por um instante, uma certeza esfumaçada invadiu Joaninha. Jeremias! Tinha de ser Jeremias! Logo, a miragem já sorria o sorriso protetor de Jeremias. Ah, Jeremias! E sumiu, feito corisco! Outra pontada. E outra. Joaninha subia o barranco com a bacia cheinha de barro, resfolegando. Resistia, repetindo com heróica insistência - "hoje não", "hoje não".
Já no terreiro dos tornos, sentou o corpo cansado no primeiro torno. Um punhado de barro começava a girar. Aos poucos a massa amorfa ganhava personalidade, mais e mais imponente. As mãozinhas hábeis forjavam o mais belo de todos os jarros. Uma última fisgada. Fulminante. O torno parando, parando. O vaso se entortando lento, molenga. O pescoço já não suportava o peso. A cara redondinha de lua despencando no barro. O barro invadindo a boca entreaberta. Ainda procurou força pra cuspir. Inútil.
Joaninha virou ligeiramente a cabeça. O mais novinho, garnisezinho, miudinho de dar dó, encarava com olhos secos, agrestes. Peladinho, ranhento, barrigão d’água. Deformado pelo calor que subia da terra, era mais fantasma que gente. E, assim, Joaninha fechou os olhos.

10 de julho de 2006

Amar sob tendas

Toda vez que Parangolé, o famigerado ventríloquo do circo, tentava sair à francesa, já vinha atrás o palhaço Jeca, atravessando o picadeiro e gritando:
- Espera aí que também vou!
- Está bem! Vá se trocar, dizia Parangolé.
Apressado, Jeca ajeitava as calças semi-arreadas rebolando um pouco, pra entrar melhor. Sujeito abobado o Jeca. Ruivo de botar fogo invejoso, tanto era a vermelhidão da cabeleira. Saía feliz da vida. Bem sabia que Parangolé andava aprontando suas reinações pela rua, traquinagens de rir sem-fim.
Naquele dia sucedeu que Parangolé precisava de ir ao banco. A fila estava que parecia cobra-de-veado depois de banquete. Jibóia comprida, esparramada, paradinha de tudo. Parangolé inquietando, enervando. Coça nariz daqui, bate pé de lá. E nada! Jeca logo percebeu que era coisa de minutos pro amigo começar a talentagem de falar de boca fechada. E foi mesmo. Ventri-berrou:
- Todo mundo de mão pra cima! Assalto!
Fuzuê dos diabos! Um tal de gente correndo de um lado pro outro, com braços erguidos. O guarda puto de raiva. Arma em punho e cara de violência, tudo pra pegar o bandido. Procurava o gatuno que nem cão farejador. Mas bandido mesmo que é bom, neneca! Depois do pandemônio, no caminho de volta pro circo, a gargalhada dos dois era tanta que mais um bocadinho de nada e Jeca me saía um belo de um borraceiro.
Mas taí uma palavrinha danada que a gente cá de baixo se habituou chamar destino, só que lá em cima o nome é outro: Providência. E foi bem isso que pegou Parangolé de jeito.
Naquela agitada noite de espetáculo, já tudo estava armado pro matreiro Parangolé entrar bem. Lua mais cheia que mar de peixe. Céu todo de brilhantura. Cheirinho de pipoca doce no ar. Burburinho de criançada feliz ao longe. E o circo inteiro cravejado de lampadinhas coloridas, piscantes. Que perigo, tanta pólvora de coração junta! Uma faísca – uma faisquinha apenas – e pronto! O pobre Parangolé estaria apaixonado, abestado por demais.
E eis que chega a dita faísca. Bem no número de Parangolé, enquanto o boneco Xiquito recitava um poema. Linda, de vestido branco rendado e olhos negros de flecha venenosa. Xiquito terminou a recitação, mas cadê que Parangolé continuava? Só ficava olhando pra moça, atracado na bobagem de amor. Com fins de ajudar o amigo, entra Jeca, já semi-fantasiado, tropeçando em Deus e o mundo e caindo de quatro no meio do picadeiro. Recomposto, cochichou no ouvido de Parangolé:
- A fala! Você tem que falar “Xiquito, deixe de manias de poetar sobre amor. Amar é coisa de gente desocupada!”... Vai, homem de Deus! Fala!
Parangolé, pintado todo de vermelho, fazia o coisa-ruim, cético, vilipendiando o amar. Xiquito era o poeta apaixonado, tentando convencer o diabo do contrário. Mas Parangolé, com olhar fixo na donzela, saiu pior que a encomenda. Disse tudo ao invés:
- Virgem Santa! Como é que pode tanta boniteza pra um alguém só? Amar, Xiquito! Eis aí a única certeza da alma! Amar sem rumo! Amar sem prumo! Simplesmente, amar!
Xiquito, fulo da vida, retrucou:
- Ei! Devagar com o andor, seu moço! O poeta aqui sou eu!
Enquanto o mundo à sua volta gargalhava, a mocinha recatada sorria um sorrisinho meigo de meia-boca, disfarçando, olhando pra baixo, coradinha nas bochechas. Findo o espetáculo, lá foram Xiquito e Parangolé, este tão todo rubor que sabe lá se era de avergonhado ou resto de tinta. De pernas trêmulas, afoitíssimo, Parangolé abordou a moça:
- Sabe que aquela trapalhada lá dentro foi culpa da senhorita? Digo, da belezura da senhorita...
Ao que Xiquito imediatamente interrompeu e disse com veemência:
- Vê lá, Parangolé, se isso é jeito de tratar uma donzela tão da formosa? Deixa isso comigo.
Xiquito tinha razão. Parangolé era homem galhofeiro, dado a patuscadas. Não conhecia os sutis melindres e labirintos da alma feminina. Mas Xiquito... Aquele, se não fosse boneco, já tinha botado de joelhos metade das donzelas da cidade.
- A senhorita me desculpe pela descompostura desse meu amigo tosco. Sou Xiquito. Não pude deixar de notar quão lindos são teus olhos. Ó donzela, trouxeste conforto e alívio a este coração de boneco, que, solitário e calado, sofre sem par neste mundo.
Estranha a reação da moça. Parecia que ia falar qualquer coisa. Mas o lindo rosto foi se enchendo de aflição. Olhou pra um, olhou pra outro. Virou as costas e foi sumindo junto com o apagar das luzes. Nem xingar xingou. De pé, fincado no chão que nem galho morto sem folha e banhado de luar, Parangolé olhava pro nada, com Xiquito na mão. Os dois queimando de febre da alma.
Dormiram sono ruim dos diachos, desejando não houvesse amanhã. Mas havia. Muitos amanhãs. Um pior que outro. A moça aparecia no circo cada vez mais encantadora. Só olhava. Parangolé e Xiquito chegavam de manso, puxando assunto. Nada. Ela tripudiava, quieta de tudo. Nunca dizia se gostava ou desgostava. Castigava forte com olhares de ternura. No dia de sofredura máxima, Parangolé agarrou-a pelo braço e descarregou o palavrório:
- Não faz mais isso, Dona! Fala qualquer coisa. Que não quer a gente. Ou até que odeia! Estou a ponto de fazer besteira da brava. Vem aqui no circo jantar amanhã, às oito? Vem? Só eu, você e Xiquito?
A moça se libertou com um safanão e correu atordoada. Naquela noite os amigos de Parangolé, liderados por Jeca, se juntaram e prometeram ajudar no jantar. Estavam preocupadíssimos. Por aqueles dias Parangolé era só casca. Mesma cara, mesmo corpo. Mas por dentro, a alegria fora minguando, minguando, até sumir de tudo. E Xiquito? Não se ouvia mais a poesia linda do boneco.
E todo mundo dormiu. Sumiu a lua, veio o sol, todo mundo acordou de novo. Horas imóveis aquelas, mais pra correnteza de riacho congelado. Parangolé olhava o relógio de minuto em minuto. À tardinha começou a arrumação do circo. Sete horas. Parangolé, já de banho tomado, cheiroso que só cheirando, penteava Xiquito. Separou pro boneco a roupa mais elegante de todas: um terninho cheio de finesses.
- E se ela não vier, Parango?
- Daí, Xiquito, a coisa vai desandar. A gente vai subir até a tábua dos trapezistas e se jogar. Dar cabo dessa vida ingrata.
- Pode parar! Você suba lá sozinho e me deixe cá embaixo. Posso até fazer torcida, mas pular junto? De jeito maneira!
- Vamos ver só se você não vem comigo...
O riacho do tempo descongelando preguiçoso. Goteira lenta de minutos. No relógio, oito horas. No picadeiro, Parangolé e Xiquito de um lado pro outro. Oito e dez. Oito e vinte. Oito e meia, e Parangolé começou a escalada da escadinha dos trapezistas. Degrau por degrau, indo ao encontro da indesejada das gentes. O chão amiudando. Xiquito, coitado, gritava:
- Me põe no chão, filho de uma égua manca! Tenho vertigem!
Pobre Parangolé. Mal imaginava quem vinha chegando do lado de fora. A moça era o deslumbre em pessoa. Um malabarista, vestido de listas azuis e fazendo diabruras com bolinhas, abriu o portão. De vestido florido discretamente decotado e perfume de primavera, ela caminhava em direção à tenda. Diversos homens de pernas-de-pau e tochas na mão dispostos em corredor. Cuspidores de fogo. Conforme ela passava, um mágico túnel de luz ia se formando sobre sua cabeça.
Do lado de dentro, Parangolé respirava fundo o resto de coragem necessária. Xiquito só tapava os olhos. Quando a donzela chegou à porta da tenda, Jeca, caracterizado de palhaço e vestido com estirpe, recebeu-a cheio de cavalheirismos e outros ismos. A moça tirou um bilhete da bolsa e entregou a Jeca. Este, muito surpreso e quase sem palavras, abriu a porta. Mas surpresa ainda maior foi ver Parangolé na pontinha, de joelhos flexionados, dando impulso ao pulo mortal. Jeca berrou:
- Não faz isso! A danadinha é muda! Por isso não falava com você! Está aqui o bilhete que não me deixa mentir. E a graça dela é Maria.
Muito tarde. Parecia que o joelho de Parangolé tinha mais pensamento que a cabeça. Os dois foram despencando numa velocidade sedenta de chão. Naquela altura, quem perguntasse a Jeca se o coração agüentava mais uma, ele diria que não. Mas tinha outra. Das boas. Um trapezista, escondidinho na escuridão da tábua de pulo oposta e muito do ciente das caraminholas que andavam pela cabeça de Parangolé, pulou ao mesmo tempo no trapézio. Capturou Parangolé pelo pé, a um tiquinho do chão. O homem voava e ria bobo, fitando Maria florida lá embaixo.
Passado o susto e já pousado no chão, Parangolé ajeitou a gola do paletó, caminhou até Maria e disse:
- Vamos jantar?
Conduziu-a até seu lugar na mesinha. Quando sentou, olhou bem aqueles olhos negros e falou:
- Então a senhorita é muda? Por que não disse antes?
Xiquito logo repreendeu o amigo:
- Larga a mão de burrice, homem! Como é que ela ia dizer alguma coisa?
Maria sorria, apaixonada que estava pelos dois.
Depois chegou Pierre, o mágico de tratos afrancesados, montado num elefante. Vestia fraque e gravatinha borboleta. Apeou, aprochegou-se e, num passe, puxou das mangas três cardápios.
- Monsieurs, Mademoiselle, le menu.
Ao fundo, trapezistas imersos na luz azul dos holofotes, cheios de estripulias, brincavam de arranhar o céu.
Meses depois, no matrimônio, o padre questionou Maria se queria esposar Parangolé. Este deu uma cutucada na moça. Ela abriu a boca, mas quem falou foi o noivo, ventriloquando:
- Sim.

10 de junho de 2006

O manto sagrado

Em tempos remotos, nas longínquas montanhas de uma terra desconhecida, havia dois reinos: os acroftalmos, de visão perfeita e apurada, e os disoftalmos, todos afetados por uma espécie de síndrome de Dalton que lhes distorcia a percepção das cores. Ambos os povos descendiam de um único patriarca: o rei Arqueus, que tinha o olho direito perfeito e o olho esquerdo afetado pela disfunção.
Os dois reinos viviam em guerra, pois seus reis eram incapazes de chegar a um consenso quanto a uma antiga discórdia: qual a cor do manto sagrado do rei Arqueus? Para os acroftalmos, era roxa; para os disoftalmos, azul. Metade da população dos dois lados já havia sido dizimada na infindável guerra. Certo dia, naquela que seria a última batalha, os reis irascíveis digladiavam-se com furor, numa sucessão de urros – roxo, azul, roxo, azul -, quando pela estrada já tingida do rubro e espesso sangue, passou um velho viajante cego. Os reis interromperam o confronto e resolveram consultar o velho:
- Ei, velho! Segure este manto e diga-nos: é roxo ou azul?
O velho pegou o tecido, tateou-o por instantes, cheirou-o, na vã esperança de que isto pudesse lhe trazer alguma resposta. Depois de meditar, respondeu serenamente:
- Roxo, azul... pouco importa. É macio! Muito macio...
Os reis entreolharam-se envergonhados com suas brutalidades e simultaneamente exclamaram:
- É macio!
Estava selada a paz entre os dois reinos. O velho fora nomeado conselheiro e, durante anos, toda a região prosperou.
O menino de boa visão, por exemplo, trapaceava seu amigo daltônico:
- Aquela menina de vestido rosa quer seu beijo.
Lá ia o daltônico, feliz da vida, esticando os beiços para a moça de laranja e recebendo, em troca, uma medonha careta. Depois o amigo matreiro dizia:
- A de rosa, não a de laranja!
E o casal jovem se enamorava quando o rapaz dizia para a moça:
- Como são lindos os seus olhos verdes!
Tímida, a moça cochichava em seu ouvido:
- São azuis...
- Azuis, verdes... pouco importa. São lindos!
Mas eis que num dia escuro e nublado, o velho conselheiro faleceu. Todos formaram um longo cortejo acompanhando os reis, que carregavam o esquife. Quando chegaram à cova, o rei acroftalmo sugeriu ao outro:
- Cubramos nosso bom velho com o manto roxo de nosso antepassado!
- Sim, cubramos! Mas com o manto azul.
Reacendeu-se assim a discórdia. A guerra fora novamente declarada. Após alguns meses de duras batalhas, os dois povos chegaram ao completo extermínio. Nem as mulheres e crianças foram poupadas. Absortos em seu injustificável ódio recíproco, os reis e seus súditos estavam alheios a quão macio era o manto sagrado.

10 de maio de 2006

Cadeira de balanço

Sempre quis ter uma cadeira de balanço para relaxar nas tardes excessivamente quentes de verão e ficar na varanda vendo a moça de vestido decotado passando sorridente pela rua de terra batida e cheiro de mato novo que cresce desregradamente como deveriam ter sido meus setenta e três anos de vida vividos parcial e mediocremente no antigo emprego de contador no escritório empoeirado e escuro da Rua Carlos Sampaio onde havia um belo cinema que freqüentei com minha falecida esposa que me amava dedicadamente e fazia um delicioso feijão com toicinho todos os dias levando minhas veias a se entupirem da nociva gordura que ocasionou o derrame cerebral que me paralisou o lado direito do corpo franzino e frágil que tantas preocupações rendeu à minha mãe nos tempos da infância quando eu andava de carrinho de rolimã e sentia o vento de primavera com cheiro floral acariciando meu rosto enquanto a mocinha da rua de cima me observava atrás das janelas com olhos de jabuticaba e meio sorriso no rosto tão pálido que me lembrava a estátua de Virgem Maria que eu idolatrava quando ia à igreja de mãos dadas com meu pai a fim de que não me perdesse no meio das pessoas estranhas e enormes que em mim esbarravam sem que eu sequer pudesse enxergar suas faces misteriosas e desconhecidas como daquelas mulheres mulçumanas que vestem a burca que lhes esconde os olhos mas não a tristeza incrustada na alma reprimida pela sociedade temente a um Deus castrador e patriarcal como os mafiosos daqueles filmes que sempre passam na televisão e eu nunca consigo terminar de ver devido ao sono que sinto depois das dez por conta de acordar muito cedo para ver o nascer do sol iluminando o orvalho do mato novo na rua de terra batida por onde passa a moça de vestido decotado que eu poderia observar muito mais prazerosamente se tivesse uma cadeira de balanço.

O velho sempre a me espiar. Espia despindo-me com os olhos. Olhos, talvez o resto vivo em seu corpo que ainda não tenha sucumbido ao cansaço. Cansaço igual ao meu, percebendo-o de pé todos os dias, na varanda. Varanda nua que, sem uma cadeira de balanço, assemelha-se ao vácuo no qual se infundem os planetas. Planetas chorosos, condenados ao eterno aproximar-se e distanciar-se, privados do toque, imersos em assombrosa distância. Distância que me separa do velho. Velho que, supostamente, já montou rolimãs quando menino. Menino que ainda se assoma em seus senis olhos azuis vendo-me de vestido. Vestido florido, ou liso, de tecido fino, para os dias excessivamente quentes de verão. Verão que faz ventoso o ar, que suspende ligeiramente o vestido, roçando em meu sexo descoberto, assoprando em minha pele, arrepiando minhas reluzentes e desejosas coxas. Coxas brancas que se expõem ao seu crivo de homem em pérfido julgamento. Julgamento em que lhe pergunto com o olhar: são belas? Belas assim, você as deseja? Deseja-as mais que uma cadeira de balanço? Cadeira de balanço que lhe propiciaria, nos dias últimos, algum aguado prazer. Prazer muito maior eu poderia conceder-lhe entregando-me ao seu desejo murcho. Murcho como seu olhar sôfrego nos dias em que não apareço na rua. Rua com cheiro nostálgico de mato novo. Novo e vívido como ele já foi um dia. Dia diferente do hoje, em que ele é apenas o velho. Velho, sem cadeira de balanço, sem nome, sempre a me espiar.

10 de abril de 2006

Midrash de meia-tigela

1. e depois que eva, mulher de adão
e depois que adão, homem de eva
saíram expulsos do paraíso,
disse deus à serpente:
- bom trabalho, mocinha...

2. e ela serpenteou...
e ela saiu com vagar.

3. e repetiu deus:
- eu disse bom trabalho, mocinha!

4. daí sim...
borraram-se de tanto rir
até o fim do dia sétimo.

10 de março de 2006

Lógica do mundo

Na TV,
um King Kong
joga ping pong
numa ONG
de Hong Kong

A massa aplaude
sorrindo
desdentadamente

Des ent d m nte

10 de fevereiro de 2006

Desentranhado

Depois de enfrentar a multidão que se acotovelava dentro do metrô, Carlos finalmente chegou à ruela de sobradinhos tortos onde morava. Apertou o passo. Não queria perder o Big Brother.
Maquinalmente, abriu o portãozinho enferrujado, que cortou o silêncio com um grunhido agudíssimo, lamuriante, dolorido. Pensou o mesmo pensamento de dias, semanas, meses, anos antes:
- Preciso arrumar o portão.
Entrou. Cruzou a saleta de paredes encardidas e emboloradas e chegou à cozinha. Abriu a geladeira. Vazia. Pegou um pacote de miojo, pôs água no fogo e encostou-se no armário, aguardando a fervura. Sobre a pia, um pedaço de papel alumínio abandonado, que usara em sua última marmita. Recolheu-o.
O papel levemente amassado refletia sua cara, distorcendo-a. Olhos desnivelados, nariz todo picotado, boca talhada ao meio. Olheiras ainda mais escuras e sombrias. Restos de macarrão seco com molho de tomate e carne moída misturavam-se à imagem bizarra. Jogou seu reflexo no lixo e terminou de preparar o macarrão. Embora estivesse muito acostumado ao sabor fabricado, dissimulou certa surpresa:
- Delicioso!
Devorou o jantar e esparramou-se no sofá. Ao ligar a TV, comoveu-se, possuído por uma felicidade abrupta:
- Que bom! Ainda não começou.
Olhou para seus pés descalços. Uma pequena ferida furunculosa no calcanhar prendeu sua atenção. Espremeu-a. Escorreu-lhe pela pele uma água espessa e amareliça.
- Estranho! Não doeu!
Espremeu um pouco mais. Surpreendeu-se ao notar que da ferida pendia um fiapo úmido. Puxou-o. Mais um. Outro. Novos fios foram se aglomerando e formando o que se assemelhava a um volumoso chumaço de algodão. A sensação era estranhíssima. À medida que Carlos desentranhava o chumaço, sentia de onde saía, como uma cócega por dentro. Começara pelo pé, depois perna, escalando o ventre, o tórax. Puxava com violência e fúria a matéria estranha que saía do seu âmago e que, agora, cobria os tacos do chão da sala como um tapete.
Quando a cócega terminou de percorrer o pescoço, Carlos sentiu uma forte fisgada na cabeça. Era o fim do chumaço. Havia algo na ponta, algo que não era de algodão. Qualquer coisa dura, rígida. O que antes era uma suave cócega tornou-se dor lancinante. A ponta dura foi descendo, qual lâmina afiada rasgando suas vísceras, e causando uivos de desespero. Quando chegou ao peito, Carlos parou. Pensou em desistir. Porém, àquela altura, sua curiosidade superaria até a força titânica dos gigantes. Continuou, contorcendo-se todo.
Respirou profundamente. Encheu o peito de coragem e, com força descomunal, puxou o corpúsculo num movimento brusco e preciso, evitando assim prolongar por muito mais tempo tamanho sofrimento. O objeto chegou ao calcanhar, porém não passava pelo estreito orifício da ferida. Teve de rasgar a pele. Estava suado, exausto. Sentia-se como uma mãe no pós-parto. Quando finalmente apanhou o objeto, não pôde conter um terrível grito, misto de espanto e alívio:
- Uma chapinha!
A chapinha metálica trazia impressos o número 84.689.563, um código de barras e três palavras que Carlos esforçava-se para ler, sem sucesso.
- Será inglês?
Pronunciava as sílabas como em português, com dificuldade:
- Ma... de... in... bra... zil...
Irritado com tudo aquilo, juntou suas entranhas e amontoou-as no lixo junto com o papel alumínio. Sentou-se no sofá e pensou:
- Agora deixa eu ver meu Big Brother.

10 de janeiro de 2006

Sessão de cinema

Houve um dia em que o Diabo ouviu rumores de que Deus havia deixado o Céu por alguns instantes. Resolveu subir para conferir com seus próprios olhos.
- É hoje! Se ele realmente estiver fora, vou aproveitar para tomar conta da sala de controle e governar o universo – pensou.
Quando ele abriu a porta, encontrou Deus sentado, aos prantos.
- O que foi, seu Deus? Posso fazer alguma coisa?
- Infelizmente não. O pior já aconteceu. Essas criaturas daninhas que criei não se corrigem! Devia ter deixado o planeta só para os bichos!
O Diabo, como pai de toda a maldade existente, retrucou:
- Eles não são tão ruins assim. Tenho certeza de que em alguns milênios os homens estarão melhores.
Para convencer o Diabo, Deus começou a narrar todas a maldades cometidas pelos homens. Quando terminou, o Diabo disse:
- Ainda acho que o senhor está exagerando um pouco.
- Então você não acredita? Vou te mostrar uma coisa...
Levou o Diabo para a sala de projeção, onde estavam arquivados os acontecimentos do planeta Terra. Começou o filme.
Mostrou as guerras púnicas, de secessão, das Malvinas, do Paraguai, do Oriente Médio, dos sete anos, dos treze anos, dos trinta anos, dos cem anos.
Mostrou a história de Átila. Drácula. As fogueiras da Idade Média. Os romanos soltando as feras sobre os homens. Napoleão. Hitler. A bomba atômica.
Quando terminou o filme, o Diabo, horrorizado, voltou para o inferno. Hoje em dia, antes de dormir, religiosamente o Diabo junta suas enormes mãos vermelhas e reza:
- Por favor, Deus. Proteja-me de todas as maldades dos homens.

14 de abril de 2005

Relâmpago e Trovoada

Há muito tempo não havia relâmpago nem trovoada. Havia apenas uma índia e seu indiozinho sapeca. Quando andavam pela selva, ele sempre corria na frente para pregar um susto na mãe, que nunca o alcançava. Certo dia ele correu muito rápido, mais rápido do que podiam suas próprias pernas. Perderam-se. Quanto mais se procuravam, mais se afastavam. O menino morreu abandonado, sem comida. A mãe, de tristeza. As almas subiram aos céus e, até hoje, se procuram. O menino é o relâmpago, que sempre vemos primeiro. A mãe é a trovoada, que ouvimos passar muito tempo depois. As chuvas são as lágrimas abandonadas pelo caminho. Lágrimas de dor que, irrigando nosso solo, transformam-se em farta colheita.

3 de março de 2005

Borboletas e mariposas

Houve um ano em que um cientista ganhou o prêmio Nobel de matemática por ter descoberto a fórmula que descrevia o vôo das borboletas. Ficou mundialmente conhecido. Certo dia, sentado no banco da praça de sua cidade, notou que um menino, em êxtase, olhava fixamente para uma borboleta que por ali voava.
- Por que você observava aquele inseto tão atentamente?
- Eu observava as cores. Havia um espectro, como um arco-íris. Isso significa que suas asas, embora muito pequenas, comportam todas as cores que existem em todo o universo. Eu agradeci a ela, por ter trazido aos meus olhos o universo inteiro, por um instante efêmero.
O cientista saiu triste, cabisbaixo. Não havia notado quaisquer cores. Pensara que se tratava de uma mariposa. E lá se foi um universo voando.