14 de abril de 2005

Relâmpago e Trovoada

Há muito tempo não havia relâmpago nem trovoada. Havia apenas uma índia e seu indiozinho sapeca. Quando andavam pela selva, ele sempre corria na frente para pregar um susto na mãe, que nunca o alcançava. Certo dia ele correu muito rápido, mais rápido do que podiam suas próprias pernas. Perderam-se. Quanto mais se procuravam, mais se afastavam. O menino morreu abandonado, sem comida. A mãe, de tristeza. As almas subiram aos céus e, até hoje, se procuram. O menino é o relâmpago, que sempre vemos primeiro. A mãe é a trovoada, que ouvimos passar muito tempo depois. As chuvas são as lágrimas abandonadas pelo caminho. Lágrimas de dor que, irrigando nosso solo, transformam-se em farta colheita.

3 de março de 2005

Borboletas e mariposas

Houve um ano em que um cientista ganhou o prêmio Nobel de matemática por ter descoberto a fórmula que descrevia o vôo das borboletas. Ficou mundialmente conhecido. Certo dia, sentado no banco da praça de sua cidade, notou que um menino, em êxtase, olhava fixamente para uma borboleta que por ali voava.
- Por que você observava aquele inseto tão atentamente?
- Eu observava as cores. Havia um espectro, como um arco-íris. Isso significa que suas asas, embora muito pequenas, comportam todas as cores que existem em todo o universo. Eu agradeci a ela, por ter trazido aos meus olhos o universo inteiro, por um instante efêmero.
O cientista saiu triste, cabisbaixo. Não havia notado quaisquer cores. Pensara que se tratava de uma mariposa. E lá se foi um universo voando.