18 de abril de 2005

Desentranhado

Depois de enfrentar a multidão que se acotovelava dentro do metrô, Carlos finalmente chegou à ruela de sobradinhos tortos onde morava. Apertou o passo. Não queria perder o Big Brother.
Maquinalmente, abriu o portãozinho enferrujado, que cortou o silêncio com um grunhido agudíssimo, lamuriante, dolorido. Pensou o mesmo pensamento de dias, semanas, meses, anos antes:
- Preciso arrumar o portão.
Entrou. Cruzou a saleta de paredes encardidas e emboloradas e chegou à cozinha. Abriu a geladeira. Vazia. Pegou um pacote de miojo, pôs água no fogo e encostou-se no armário, aguardando a fervura. Sobre a pia, um pedaço de papel alumínio abandonado, que usara em sua última marmita. Recolheu-o.
O papel levemente amassado refletia sua cara, distorcendo-a. Olhos desnivelados, nariz todo picotado, boca talhada ao meio. Olheiras ainda mais escuras e sombrias. Restos de macarrão seco com molho de tomate e carne moída misturavam-se à imagem bizarra. Jogou seu reflexo no lixo e terminou de preparar o macarrão. Embora estivesse muito acostumado ao sabor fabricado, dissimulou certa surpresa:
- Delicioso!
Devorou o jantar e esparramou-se no sofá. Ao ligar a TV, comoveu-se, possuído por uma felicidade abrupta:
- Que bom! Ainda não começou.
Olhou para seus pés descalços. Uma pequena ferida furunculosa no calcanhar prendeu sua atenção. Espremeu-a. Escorreu-lhe pela pele uma água espessa e amareliça.
- Estranho! Não doeu!
Espremeu um pouco mais. Surpreendeu-se ao notar que da ferida pendia um fiapo úmido. Puxou-o. Mais um. Outro. Novos fios foram se aglomerando e formando o que se assemelhava a um volumoso chumaço de algodão. A sensação era estranhíssima. À medida que Carlos desentranhava o chumaço, sentia de onde saía, como uma cócega por dentro. Começara pelo pé, depois perna, escalando o ventre, o tórax. Puxava com violência e fúria a matéria estranha que saía do seu âmago e que, agora, cobria os tacos do chão da sala como um tapete.
Quando a cócega terminou de percorrer o pescoço, Carlos sentiu uma forte fisgada na cabeça. Era o fim do chumaço. Havia algo na ponta, algo que não era de algodão. Qualquer coisa dura, rígida. O que antes era uma suave cócega tornou-se dor lancinante. A ponta dura foi descendo, qual lâmina afiada rasgando suas vísceras, e causando uivos de desespero. Quando chegou ao peito, Carlos parou. Pensou em desistir. Porém, àquela altura, sua curiosidade superaria até a força titânica dos gigantes. Continuou, contorcendo-se todo.
Respirou profundamente. Encheu o peito de coragem e, com força descomunal, puxou o corpúsculo num movimento brusco e preciso, evitando assim prolongar por muito mais tempo tamanho sofrimento. O objeto chegou ao calcanhar, porém não passava pelo estreito orifício da ferida. Teve de rasgar a pele. Estava suado, exausto. Sentia-se como uma mãe no pós-parto. Quando finalmente apanhou o objeto, não pôde conter um terrível grito, misto de espanto e alívio:
- Uma chapinha!
A chapinha metálica trazia impressos o número 84.689.563, um código de barras e três palavras que Carlos esforçava-se para ler, sem sucesso.
- Será inglês?
Pronunciava as sílabas como em português, com dificuldade:
- Ma... de... in... bra... zil...
Irritado com tudo aquilo, juntou suas entranhas e amontoou-as no lixo junto com o papel alumínio. Sentou-se no sofá e pensou:
- Agora deixa eu ver meu Big Brother.

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