12 de maio de 2005

Amar sob tendas

Toda vez que Parangolé, o famigerado ventríloquo do circo, tentava sair à francesa, já vinha atrás o palhaço Jeca, atravessando o picadeiro e gritando:
- Espera aí que também vou!
- Está bem! Vá se trocar, dizia Parangolé.
Apressado, Jeca ajeitava as calças semi-arreadas rebolando um pouco, pra entrar melhor. Sujeito abobado o Jeca. Ruivo de botar fogo invejoso, tanto era a vermelhidão da cabeleira. Saía feliz da vida. Bem sabia que Parangolé andava aprontando suas reinações pela rua, traquinagens de rir sem-fim.
Naquele dia sucedeu que Parangolé precisava de ir ao banco. A fila estava que parecia cobra-de-veado depois de banquete. Jibóia comprida, esparramada, paradinha de tudo. Parangolé inquietando, enervando. Coça nariz daqui, bate pé de lá. E nada! Jeca logo percebeu que era coisa de minutos pro amigo começar a talentagem de falar de boca fechada. E foi mesmo. Ventri-berrou:
- Todo mundo de mão pra cima! Assalto!
Fuzuê dos diabos! Um tal de gente correndo de um lado pro outro, com braços erguidos. O guarda puto de raiva. Arma em punho e cara de violência, tudo pra pegar o bandido. Procurava o gatuno que nem cão farejador. Mas bandido mesmo que é bom, neneca! Depois do pandemônio, no caminho de volta pro circo, a gargalhada dos dois era tanta que mais um bocadinho de nada e Jeca me saía um belo de um borraceiro.
Mas taí uma palavrinha danada que a gente cá de baixo se habituou chamar destino, só que lá em cima o nome é outro: Providência. E foi bem isso que pegou Parangolé de jeito.
Naquela agitada noite de espetáculo, já tudo estava armado pro matreiro Parangolé entrar bem. Lua mais cheia que mar de peixe. Céu todo de brilhantura. Cheirinho de pipoca doce no ar. Burburinho de criançada feliz ao longe. E o circo inteiro cravejado de lampadinhas coloridas, piscantes. Que perigo, tanta pólvora de coração junta! Uma faísca – uma faisquinha apenas – e pronto! O pobre Parangolé estaria apaixonado, abestado por demais.
E eis que chega a dita faísca. Bem no número de Parangolé, enquanto o boneco Xiquito recitava um poema. Linda, de vestido branco rendado e olhos negros de flecha venenosa. Xiquito terminou a recitação, mas cadê que Parangolé continuava? Só ficava olhando pra moça, atracado na bobagem de amor. Com fins de ajudar o amigo, entra Jeca, já semi-fantasiado, tropeçando em Deus e o mundo e caindo de quatro no meio do picadeiro. Recomposto, cochichou no ouvido de Parangolé:
- A fala! Você tem que falar “Xiquito, deixe de manias de poetar sobre amor. Amar é coisa de gente desocupada!”... Vai, homem de Deus! Fala!
Parangolé, pintado todo de vermelho, fazia o coisa-ruim, cético, vilipendiando o amar. Xiquito era o poeta apaixonado, tentando convencer o diabo do contrário. Mas Parangolé, com olhar fixo na donzela, saiu pior que a encomenda. Disse tudo ao invés:
- Virgem Santa! Como é que pode tanta boniteza pra um alguém só? Amar, Xiquito! Eis aí a única certeza da alma! Amar sem rumo! Amar sem prumo! Simplesmente, amar!
Xiquito, fulo da vida, retrucou:
- Ei! Devagar com o andor, seu moço! O poeta aqui sou eu!
Enquanto o mundo à sua volta gargalhava, a mocinha recatada sorria um sorrisinho meigo de meia-boca, disfarçando, olhando pra baixo, coradinha nas bochechas. Findo o espetáculo, lá foram Xiquito e Parangolé, este tão todo rubor que sabe lá se era de avergonhado ou resto de tinta. De pernas trêmulas, afoitíssimo, Parangolé abordou a moça:
- Sabe que aquela trapalhada lá dentro foi culpa da senhorita? Digo, da belezura da senhorita...
Ao que Xiquito imediatamente interrompeu e disse com veemência:
- Vê lá, Parangolé, se isso é jeito de tratar uma donzela tão da formosa? Deixa isso comigo.
Xiquito tinha razão. Parangolé era homem galhofeiro, dado a patuscadas. Não conhecia os sutis melindres e labirintos da alma feminina. Mas Xiquito... Aquele, se não fosse boneco, já tinha botado de joelhos metade das donzelas da cidade.
- A senhorita me desculpe pela descompostura desse meu amigo tosco. Sou Xiquito. Não pude deixar de notar quão lindos são teus olhos. Ó donzela, trouxeste conforto e alívio a este coração de boneco, que, solitário e calado, sofre sem par neste mundo.
Estranha a reação da moça. Parecia que ia falar qualquer coisa. Mas o lindo rosto foi se enchendo de aflição. Olhou pra um, olhou pra outro. Virou as costas e foi sumindo junto com o apagar das luzes. Nem xingar xingou. De pé, fincado no chão que nem galho morto sem folha e banhado de luar, Parangolé olhava pro nada, com Xiquito na mão. Os dois queimando de febre da alma.
Dormiram sono ruim dos diachos, desejando não houvesse amanhã. Mas havia. Muitos amanhãs. Um pior que outro. A moça aparecia no circo cada vez mais encantadora. Só olhava. Parangolé e Xiquito chegavam de manso, puxando assunto. Nada. Ela tripudiava, quieta de tudo. Nunca dizia se gostava ou desgostava. Castigava forte com olhares de ternura. No dia de sofredura máxima, Parangolé agarrou-a pelo braço e descarregou o palavrório:
- Não faz mais isso, Dona! Fala qualquer coisa. Que não quer a gente. Ou até que odeia! Estou a ponto de fazer besteira da brava. Vem aqui no circo jantar amanhã, às oito? Vem? Só eu, você e Xiquito?
A moça se libertou com um safanão e correu atordoada. Naquela noite os amigos de Parangolé, liderados por Jeca, se juntaram e prometeram ajudar no jantar. Estavam preocupadíssimos. Por aqueles dias Parangolé era só casca. Mesma cara, mesmo corpo. Mas por dentro, a alegria fora minguando, minguando, até sumir de tudo. E Xiquito? Não se ouvia mais a poesia linda do boneco.
E todo mundo dormiu. Sumiu a lua, veio o sol, todo mundo acordou de novo. Horas imóveis aquelas, mais pra correnteza de riacho congelado. Parangolé olhava o relógio de minuto em minuto. À tardinha começou a arrumação do circo. Sete horas. Parangolé, já de banho tomado, cheiroso que só cheirando, penteava Xiquito. Separou pro boneco a roupa mais elegante de todas: um terninho cheio de finesses.
- E se ela não vier, Parango?
- Daí, Xiquito, a coisa vai desandar. A gente vai subir até a tábua dos trapezistas e se jogar. Dar cabo dessa vida ingrata.
- Pode parar! Você suba lá sozinho e me deixe cá embaixo. Posso até fazer torcida, mas pular junto? De jeito maneira!
- Vamos ver só se você não vem comigo...
O riacho do tempo descongelando preguiçoso. Goteira lenta de minutos. No relógio, oito horas. No picadeiro, Parangolé e Xiquito de um lado pro outro. Oito e dez. Oito e vinte. Oito e meia, e Parangolé começou a escalada da escadinha dos trapezistas. Degrau por degrau, indo ao encontro da indesejada das gentes. O chão amiudando. Xiquito, coitado, gritava:
- Me põe no chão, filho de uma égua manca! Tenho vertigem!
Pobre Parangolé. Mal imaginava quem vinha chegando do lado de fora. A moça era o deslumbre em pessoa. Um malabarista, vestido de listas azuis e fazendo diabruras com bolinhas, abriu o portão. De vestido florido discretamente decotado e perfume de primavera, ela caminhava em direção à tenda. Diversos homens de pernas-de-pau e tochas na mão dispostos em corredor. Cuspidores de fogo. Conforme ela passava, um mágico túnel de luz ia se formando sobre sua cabeça.
Do lado de dentro, Parangolé respirava fundo o resto de coragem necessária. Xiquito só tapava os olhos. Quando a donzela chegou à porta da tenda, Jeca, caracterizado de palhaço e vestido com estirpe, recebeu-a cheio de cavalheirismos e outros ismos. A moça tirou um bilhete da bolsa e entregou a Jeca. Este, muito surpreso e quase sem palavras, abriu a porta. Mas surpresa ainda maior foi ver Parangolé na pontinha, de joelhos flexionados, dando impulso ao pulo mortal. Jeca berrou:
- Não faz isso! A danadinha é muda! Por isso não falava com você! Está aqui o bilhete que não me deixa mentir. E a graça dela é Maria.
Muito tarde. Parecia que o joelho de Parangolé tinha mais pensamento que a cabeça. Os dois foram despencando numa velocidade sedenta de chão. Naquela altura, quem perguntasse a Jeca se o coração agüentava mais uma, ele diria que não. Mas tinha outra. Das boas. Um trapezista, escondidinho na escuridão da tábua de pulo oposta e muito do ciente das caraminholas que andavam pela cabeça de Parangolé, pulou ao mesmo tempo no trapézio. Capturou Parangolé pelo pé, a um tiquinho do chão. O homem voava e ria bobo, fitando Maria florida lá embaixo.
Passado o susto e já pousado no chão, Parangolé ajeitou a gola do paletó, caminhou até Maria e disse:
- Vamos jantar?
Conduziu-a até seu lugar na mesinha. Quando sentou, olhou bem aqueles olhos negros e falou:
- Então a senhorita é muda? Por que não disse antes?
Xiquito logo repreendeu o amigo:
- Larga a mão de burrice, homem! Como é que ela ia dizer alguma coisa?
Maria sorria, apaixonada que estava pelos dois.
Depois chegou Pierre, o mágico de tratos afrancesados, montado num elefante. Vestia fraque e gravatinha borboleta. Apeou, aprochegou-se e, num passe, puxou das mangas três cardápios.
- Monsieurs, Mademoiselle, le menu.
Ao fundo, trapezistas imersos na luz azul dos holofotes, cheios de estripulias, brincavam de arranhar o céu.
Meses depois, no matrimônio, o padre questionou Maria se queria esposar Parangolé. Este deu uma cutucada na moça. Ela abriu a boca, mas quem falou foi o noivo, ventriloquando:
- Sim.

3 comentários:

Mari. disse...

Parabéns ,você sabe como dar vida a seus personagens, eu e meu marido gostamos muito de seu trabalho . Bom antes de dar minha opinião a todos seus contos gostaria me apresentar ; tenho 26 anos sou casada com um contador e trabalho durante a manhã na parte comercial e administrativa de nossa contabilidade e a tarde trabalho no departamento financeiro de um banco, e para aliviar a tenssão que vivo no trabalho leio alguns sites literarios e agora o seu blog .
Como ja disse sou casada, minha história de amor tem 4 anos e dessa linda união tenho uma princesinha de 1 ano.
Com respeito e carinho finalizo desejando à você e toda familia felicidades.
Mari.

Anônimo disse...

Realmente gosto do seu estilo, poético. "Amor sob Tendas" me lembra "Hoje é dia de Maria" da Globo.

Abraço,

Giles Souir.

REINALDOFACCHINI disse...

OLA!!! MEU NOME É REINALDO FACCHINI SOU ATOR E PALHAÇO, E O NOME DE MEU PALHAÇO É JECA, ESTE QUE VC SITA NO TEXTO EXISTE? ABRAÇOS E PARABENS!!!