3 de maio de 2005

Joaninha fazedora de jarros

A vizinhada do bairro Olaria conhecia a senhora grisalha por Dona Joaninha. Até aí, nada demais: sua graça era Joana mesmo. O que mais encasquetava era a semelhança dela com o insetinho coleóptero: muito dócil, terna. Caminhava curvadinha e ostentava uma ampla coleção de casacos de bolinha.
Um tanto monossilábica, é verdade. Não era lá muito afeita às palavras. Joaninha acreditava em suas mãos, apenas. Por isso era das mais respeitadas oleiras das redondezas: seus jarros e moringas encantavam legiões de turistas que vinham de longe, não apenas pelas formas suaves e abauladas de encher os olhos, mas também pelos desenhos de valor artístico inestimável. Quando os filhos questionavam-na porque era tão calada, ela respondia:
- Boca mente o tempo todo. Mão não. Quando acarinha, é que ama; se bate tá com raiva.
Jamais dizia "eu te amo". Só chegava com a mão gordinha de dedos grossos, que se embrenhava pela cabeleira desalinhada das cinco crianças, e começava um feitiço de cafuné. Tão feitiçoso que logo a meninada toda se punha a dormir.
Bem de manhãzinha, quando o céu era só clarão mas o sol ainda se encorujava pra baixo da terra, Joaninha, já de pé, passava o café. Mais preto que noite. Fortíssimo. Pra agüentar o mais um dia de trabalho no torno. Sobre a mesa de toalha desbotada de muitos quadradinhos, Joaninha colocava, além das cinco xícaras das crianças, uma outra, que lá ficava até o anoitecer.
- Pro pai?
Perguntava a terceira menina, que já amocinhava e se metia a entender das coisas, empinando os peitinhos mal nascidos.
Era pra Jeremias, marido ido. Já havia quase quatro anos. O homem, logo depois de emprenhar Joaninha pela quinta vez, fugira com Analice, a filha da vizinha. Um espanto de moça, de tanta boniteza. Tez alva, olhos muito negros, um pouco desviados. Discretamente estrábica. Nunca se sabia ao certo pra onde a mocinha estava olhando.
No dia da fuga, depois de girar o torno o dia inteiro, Joaninha chegara em casa exausta. Procurava Jeremias para lhe mostrar o dinheiro do dia, com a venda dos jarros. Chamava. Chamava. Nada do homem. Quando pegara o pote da economia de dez anos de trabalho, o susto! Susto brusco de boi preto que enfia a cara brava pra dentro da janela. O pote vazio que era só ar. Na manhã seguinte chegara a notícia: Jeremias havia comprado um jegue na cidade, colocara Licinha no lombo e saíra galopando pela estradica de terra que cruzava horizontes, sem destino.
Passados quatro anos, estava Joaninha fincada firme na cozinha. Café feitinho. Dia diferente dos outros: decidiu deixar as crianças dormindo mais um bocadinho, antes de despertá-las pra labuta. De repente, uma pontada violenta no peito. Como das outras vezes, pensou “hoje não”. Mas dessa vez a dor vinha metida a besta. Teimosa. Fisgou de novo, ainda mais forte, no coraçãozinho cansado. E ela, insistente:
- Já disse! Hoje não!
Apressou-se. Tinha de entregar uma encomenda de quinze jarros para uns turistas alemães. Era dinheiro que chegava pro pão da prole por uns dias. Saiu de casa com a bacia e começou a descer o barranco que dava no ribeirão. Precisaria de muito barro. Novas fisgadas e Joaninha caiu de joelhos, prostrada no lamaçal. Enfiou os dedos gordinhos na lama. Ah! Era deliciosa a sensação do barro fresquinho e cheiroso penetrando atrás das unhas.
As vistas embaçavam. Na outra margem do ribeirão, avistou um homem esguio. Por um instante, uma certeza esfumaçada invadiu Joaninha. Jeremias! Tinha de ser Jeremias! Logo, a miragem já sorria o sorriso protetor de Jeremias. Ah, Jeremias! E sumiu, feito corisco! Outra pontada. E outra. Joaninha subia o barranco com a bacia cheinha de barro, resfolegando. Resistia, repetindo com heróica insistência - "hoje não", "hoje não".
Já no terreiro dos tornos, sentou o corpo cansado no primeiro torno. Um punhado de barro começava a girar. Aos poucos a massa amorfa ganhava personalidade, mais e mais imponente. As mãozinhas hábeis forjavam o mais belo de todos os jarros. Uma última fisgada. Fulminante. O torno parando, parando. O vaso se entortando lento, molenga. O pescoço já não suportava o peso. A cara redondinha de lua despencando no barro. O barro invadindo a boca entreaberta. Ainda procurou força pra cuspir. Inútil.
Joaninha virou ligeiramente a cabeça. O mais novinho, garnisezinho, miudinho de dar dó, encarava com olhos secos, agrestes. Peladinho, ranhento, barrigão d’água. Deformado pelo calor que subia da terra, era mais fantasma que gente. E, assim, Joaninha fechou os olhos.

2 comentários:

Regina Moreira disse...

Que legal, além de um ótimo gosto musical, também é um amante da Literatura...
Devo confessar que torci para um final mais ameno para a sua Joaninha (que agora é nossa, afinal, uma vez publicada a obra, o autor autoriza a nós, pobres leitores e mortais, que vivamos junto com seus personagens as mais inscríveis viagens... e esse é o "barato" da Literatura).
Parabéns, Jaderson!
Abç - Regina Moreira.

Regina Moreira disse...

ah, e como bom "fessor" de Português...leia o meu "inscríveis", como incríveis, rs...um dia ainda aprendo a digitar...