27 de junho de 2005

Aquela chiveta, aquele canalha

Aquela chiveta
Hoje, enquanto eu trabalhava, apareceu na janela um beija-flor. O que essa porra de beija-flor está fazendo aqui? Meus olhos de homem urbano não captaram aquela figura insignificante como um beija-flor, mas como um pássaro desprezível, irrequieto, com insuportável bater de asas. Detesto aquele pássaro! Lembrei-me de uma antiga amiga, a Fezinha. Na época, estudante de sociologia. Muito gostosinha. Uma filhinha de papai, preocupada com causas nobres. Reflorestamentos, distribuição de renda e outras babaquices chatas pra caralho. Inteligente, falava três ou quatro idiomas. Certa vez ela me disse que existe uma comunidade primitiva – na África, Oceania ou sei lá onde – que valora a alma de um homem por sua capacidade de descrever com palavras belas o vôo de um beija-flor. Viadice! Quem não enxerga beleza no pássaro é expulso da comunidade, tendo de se isolar nas montanhas. Eu lá já teria virado ermitão. Com os olhos de brilho malicioso, a boca sorrindo pura sacanagem, ela falava: isso quer dizer que você é um puta de um canalha sem escrúpulos. Como era gostosa! Queria foder aquela beldade. Trancá-la na biblioteca e passar a madrugada lá, só eu e ela. Daí eu ia pegar todos aqueles livros de marxismos sacais, espalharia-os pelo chão e deitaria-a nua sobre eles. Metendo na sua carne quente, encharcada, eu gritaria bruto: o que é melhor? Do que você gosta mais? Desses comunistas de merda ou do meu pau duro dentro de você? Duvido que ela fosse escolher a barba sebenta do Marx. E ela sussurrando em meu ouvido, mordendo o lóbulo: seu pau, seu pau. Apenas uma vez me aventurei. Fazia um calor dos bravos, daqueles de dar tesão até na alma. Ela vestia um shortinho bem curto. Não agüentei. Tasquei-lhe a mão na bunda. Durinha, bem torneada! Tomei gelo de uma semana. Depois disso, apelei pro meu colega Flávio, vizinho dela na república estudantil. Ele foi até o varal e furtou uma calcinha dela pra mim. Rosinha, com coraçõezinhos vermelhos. Uma delícia. Fiquei um mês inteiro no banheiro me punhetando com a calcinha dela no nariz, na esperança de arrancar um resquício de cheiro saído de suas entranhas. Ela só atiçava, na hora do vamos ver, era fiel. Queria saber mesmo era do Wagner, o barbudão, um babaca cheio de ideologismos. Que saudade daquela chiveta! Ouvi dizer que foi pra Inglaterra, trabalhar no Greenpeace. Deve de estar protegendo baleias, golfinhos. Cacete! Taí outro bicho por quem alimento um ódio mortal: golfinho. Bicho besta, metido a inteligente. Pulinhos, firulas, risadinhas. Toda sorte de palhaçada por uma migalha de agrado. Parece uma prostituta! É isso que o golfinho é: a puta dos mares. Embora não tenha dado pra mim, acho que amei aquela chiveta.

Aquele canalha
L’écologie est la médicine du monde. Com essa frase e um belo par de pernas à mostra conquistei meu cargo no escritório parisiense do Greenpeace. Defesa da fauna e flora marinhas. São assombrosos os crimes ambientais cometidos pela praga da proliferação humana. Praga da proliferação humana... Ele achava graça quando eu falava assim. O Marcos. Eu, estudante de sociologia. Ele, de administração. Que homem! Conquistava todas na faculdade. Inescrupuloso, não há dúvidas. Machista, antiecológico. Mas como era atraente. Era um homem ossudo, encorpado. O sorriso másculo, acanalhado, deixava à mostra os dentes grandes, claros. Ah, como me umedecia aquele sorrir. A verve do olhar impaciente, sempre à procura do próximo flerte. O perfume ainda me inebria. Um tanto selvagem. Assim era ele: um devorador selvagem. Tanto que abominava os animaizinhos frágeis, delicados, como golfinhos, beija-flores, pandas, coalas. Marcos admirava a brutalidade da natureza. Passava horas assistindo a documentários sobre animais ferozes: leões, tigres, jacarés. Hipnotizava-o o abrir das mandíbulas fatais. Tinha também incontrolável fascínio por vulcões. Dizia que os vulcões e suas erupções de fogo são a mais perfeita metáfora da mulher. Eu quis dar pra ele. Muitas vezes quis me entregar à sua rigidez máscula, montar seu falo, domar aquela misteriosa impetuosidade que brotava nos seus olhos. Mas relutei. Não nasci mulher de canalha. Além do mais, tinha o Wagner, meu ex. Um amor. Intelectual, pensador. Péssimo na cama, o pobrezinho. Só faltava pedir licença para abrir minhas pernas. Mas um doce. Meigo. Já o Marcos, ah... Como será o êxtase daquele homem? Repleto de urros, apertos? Sadicamente, eu o provocava. Num dia quente de verão, desses de dar tesão até na alma, coloquei meu shorts mais apertado e indiscreto. Ele encheu a mão em minhas nádegas. Como foi bom sentir sua mão pesada, ossuda, ávida. Estremeci, toda arrepios. Depois hesitei. Por uma semana desejei arrastá-lo para minha cama. Mas transpareci indiferença. Depois veio o Flávio, meu vizinho: olha, não gosto de fazer nada às escondidas. O Marcos me pediu para roubar uma calcinha sua do varal. Eu entreguei de bom grado. A mais bonita e sensual de todas. Porém, não sem antes lavá-la, esfregá-la, até extrair todo o odor. Não queria escravizá-lo com meu aroma mais íntimo. Marcos, delicioso cafajeste... O que terá sido dele? Disseram-me que se tornou um bem sucedido empresário. Acho que desejei aquele canalha.

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Anônimo disse...

Nossa, mas que malvado! Que canalha! Isso é fiqção ou é isso o que você pensa mesmo?

Jaderson disse...

Caro Senhor Sem Nome, um escritor (ou protótipo, no meu caso) nunca pensa. Quem pensa são suas personagens... Abraço literário, Jaderson.

Querida apaixonada disse...

Parabéns [mais uma vez] por um conto tão bom! Mais uma vez testando novas maneiras de escrever, aprimorando sempre! Um grande beijo da sua querida apaixonada...

Leitor Diário disse...

Embora eu não aprecie o anonimato, penso que algumas vezes o que importa é a mensagem e não a identidade de quem escreve. Eu, leitor que visito diariamente seu blog, gostaria de deixar minha mensagem, dizendo que admiro sua versatilidade e sua capacidade de trabalhar com as palavras. Nota-se que os textos publicados são apenas a ponta de um "iceberg". Se o comentário do leitor é importante, faço questão de registrar aqui meus cumprimentos.

Antonio Jos disse...

Caro Amigo Jaderson,

Taí, gostei. Nunca havia visto nada seu publicado com sentido erótico.
Muito bem bolado os pensamentos dos dois sobre um único assunto e depois de tanto tempo passado.

Antonio José disse...

Não havia terminado e bati o dedo estabanado numa tecla.

Abraços e pisão no calinho de estimação.

Deva Indra disse...

Receba as minhas congratulações, apreciei demasiadamente o seu novo conto.
Até logo, marcarei minha presença.

Bbel disse...

Ei, eu leio tudo, inclusive os comentários alheios porque sou leitora completa, visse? Pra não dizer curiosa... Por isso vi a história da “fiqção”, seu malvado! [hahahahahahaha]
De todo jeito é bom que ele, ou ela, saiba que você pensa. Isso, infelizmente, é atributo apenas de alguns. Ah, essa observação não é mera ficção, fricção, fixação...

Em sua defesa, absolutamente de graça!

Um cheiro,

Anônimo disse...

Como pode o peixe vivo viver fora da água fria?
Como poderei viver sem a tua companhia?
Inescrupulozamente escrevo como anônimo.

Anônimo disse...

Gostei muito dos seus contos, muito interessantes.Você tem muita facilidade com as palavras, já leva uma grande dianteira se quiser alçar vos mais altos.parabéns.

Antonio José disse...

Caro Amigo Jaderson,

Passando por aqui para lhe desejar um ótimo final de semana.

Calinho dói, né?

Pode deixar que piso com jeito... jeito de doer mais tempo.

Abraços

pedro manuel disse...

Olá Jaderson
Obrigado pelo teu comentário ao texto "Sobre Debaixo II". O Vigilante Coelho respondeu, mas quis vir aqui deixar um comentário directo. O teu blog está óptimo, e os textos são, para um português, bons de ler, no que oferecem de ginástica da língua. À excepção do último post, todos me parecem fazer parte de um projecto maior, sobre uma mulher, onde o discurso do narrador se adapta à condição dela, sensorial e delirante.
Em relação a este, enfim, depois dás-me o nº de telemóvel da menina.
Abraço

blog addicted disse...

Magnífico!

pedro manuel disse...

Olá, estou de volta, agora com mais calma e maior domínio sobre esta tecnologia, enfim, só para voltar a agradecer teres postos a Vigilâmbulo Caolho, na tua Top Ten de links e dar-te os parabéns por duas coisas em que o Palavrórios engancha os sentidos: a música (agora estou a ouvir Astor) e a secção do Excerto da Hora, onde gostas de fazer pontes sobre o atlântico.
o link aí em cima liga ao texto que comentaste

Abraço

maxuquei disse...

ei moço escrita fina, como vai?
hum...os pássaros, as putas, o sexo e a faculdade! um trio e tanto...
na minha janela sempre vem um beija flor e eu converso com ele o tempo que ele me permite...como ele tem vida própria e é um puto do ar: para aqui, para acolá, nosso papo é sempre definido pelo tempo dele que teima em não ser o meu! acho que é pq eu sou lenta....será?

ei moço...eu gosto dessa coisa do cotidiano! e nisso vc também é um colosso...mas eu sempre acreditei que personagem e autor ...ixi..um não transa com o outro?

ai jesus...socorro!

beijos...na família tb!