20 de abril de 2005

Bodas de pérola

Naquela inesquecível noite, eu estava sentada em minha cabine. Dois comprimidos na mão: Dramin e Prozac. O primeiro, para o mal passageiro e momentâneo causado pelo incessante vai-e-vem do navio. O segundo, uma anestesia de curto efeito para um câncer que, havia trinta anos, começara a necrosar minha alma.
Recuperada do enjôo, saí para tomar um ar fresco. Edson, meu marido, estava sentado na beira da proa, solitário. Pensei em repreendê-lo pela exposição a tal risco. Porém, alguma idéia sinistra e desconhecida me impediu. Ensimesmado, Edson observava o calmo movimento das águas. A lua-cheia era apenas uma faísca ante a tão profunda e triste escuridão do mar.
Aproximei-me na ponta dos pés, para não ser notada. Fiquei olhando o redemoinho dos seus cabelos. Lembrei-me de nossas primeiras noites, quando eu acariciava aquele tufãozinho com movimentos circulares. Ele se relaxava todo e dormia no meu colo. Como o amara! Agora, eu olhava para o céu, pedindo a Deus um motivo, apenas um motivo.
Cheguei mais perto, vagarosamente. Quantas vezes Edson poderia ter vindo sedento, me agarrado à força, me amado violentamente? Mas não o fizera. Foram apenas orgasmos insossos, previsíveis. Lembrei-me dos olhos acovardados de Edson que, durante trinta anos, tentavam se desculpar pela esterilidade, pela completa incompetência em dar-me filhos e, assim, justificar alguma razão para minha vida.
Conforme eu me aproximava, minha mente conturbada fabricava inúmeros outros motivos. Crescia em meu coração um senso de dever, aliado a um desespero por não mais reconhecer a mim mesma nem meus limites.
Mais alguns passos. Ninguém observava. Ali, apenas eu e aquele homem. Minhas mãos suspensas e espalmadas viajavam pelo abismo negro que me separava de Edson. Dois fantasmas pálidos regozijando-se com uma atitude vil. Quando estava prestes a praticar o ato mais libertário de toda minha vida, Edson virou-se. Olhou para mim com seus olhos desculposos.
- Olá, meu amor. Você me assustou! Achei que estivesse na cabine, descansando.
- Já estou melhor.
Pela voz trêmula, notei que estava alcoolizado.
- Andou bebendo de novo? Deixa eu fazer uma massagem.
Minhas mãos avançaram sobre seus ombros, apertando-o brutalmente.
- Muito forte! Aperte um pouco menos!
Enquanto massageava-o com uma das mãos, com a outra apanhei um crucifixo no bolso e lancei-o ao mar. Edson olhou-me, interrogativamente.
- Só queria ouvir o barulho que ele faria ao cair na água.
Passado um instante de aterrador silêncio, questionei:
- Você não tem medo de ficar assim, sentado na beirada?
Sorriu ingenuamente e disse:
- Não. Porque teria?
- Sei lá. Alguém poderia chegar atrás de você e te empurrar. Além disso, você não sabe nadar.
Antes que ele pudesse retrucar, dei-lhe um safanão com violência. O homem e os trintas anos perdidos foram tragados pelas impiedosas águas negras. Enquanto seus braços se debatiam, o mar refletia o luar, indiferente ao seu sofrimento.
Caminhei até o lado oposto do convés e entrei no bar. Um elegante pianista executava Clair de Lune. Magistralmente.

18 de abril de 2005

Desentranhado

Depois de enfrentar a multidão que se acotovelava dentro do metrô, Carlos finalmente chegou à ruela de sobradinhos tortos onde morava. Apertou o passo. Não queria perder o Big Brother.
Maquinalmente, abriu o portãozinho enferrujado, que cortou o silêncio com um grunhido agudíssimo, lamuriante, dolorido. Pensou o mesmo pensamento de dias, semanas, meses, anos antes:
- Preciso arrumar o portão.
Entrou. Cruzou a saleta de paredes encardidas e emboloradas e chegou à cozinha. Abriu a geladeira. Vazia. Pegou um pacote de miojo, pôs água no fogo e encostou-se no armário, aguardando a fervura. Sobre a pia, um pedaço de papel alumínio abandonado, que usara em sua última marmita. Recolheu-o.
O papel levemente amassado refletia sua cara, distorcendo-a. Olhos desnivelados, nariz todo picotado, boca talhada ao meio. Olheiras ainda mais escuras e sombrias. Restos de macarrão seco com molho de tomate e carne moída misturavam-se à imagem bizarra. Jogou seu reflexo no lixo e terminou de preparar o macarrão. Embora estivesse muito acostumado ao sabor fabricado, dissimulou certa surpresa:
- Delicioso!
Devorou o jantar e esparramou-se no sofá. Ao ligar a TV, comoveu-se, possuído por uma felicidade abrupta:
- Que bom! Ainda não começou.
Olhou para seus pés descalços. Uma pequena ferida furunculosa no calcanhar prendeu sua atenção. Espremeu-a. Escorreu-lhe pela pele uma água espessa e amareliça.
- Estranho! Não doeu!
Espremeu um pouco mais. Surpreendeu-se ao notar que da ferida pendia um fiapo úmido. Puxou-o. Mais um. Outro. Novos fios foram se aglomerando e formando o que se assemelhava a um volumoso chumaço de algodão. A sensação era estranhíssima. À medida que Carlos desentranhava o chumaço, sentia de onde saía, como uma cócega por dentro. Começara pelo pé, depois perna, escalando o ventre, o tórax. Puxava com violência e fúria a matéria estranha que saía do seu âmago e que, agora, cobria os tacos do chão da sala como um tapete.
Quando a cócega terminou de percorrer o pescoço, Carlos sentiu uma forte fisgada na cabeça. Era o fim do chumaço. Havia algo na ponta, algo que não era de algodão. Qualquer coisa dura, rígida. O que antes era uma suave cócega tornou-se dor lancinante. A ponta dura foi descendo, qual lâmina afiada rasgando suas vísceras, e causando uivos de desespero. Quando chegou ao peito, Carlos parou. Pensou em desistir. Porém, àquela altura, sua curiosidade superaria até a força titânica dos gigantes. Continuou, contorcendo-se todo.
Respirou profundamente. Encheu o peito de coragem e, com força descomunal, puxou o corpúsculo num movimento brusco e preciso, evitando assim prolongar por muito mais tempo tamanho sofrimento. O objeto chegou ao calcanhar, porém não passava pelo estreito orifício da ferida. Teve de rasgar a pele. Estava suado, exausto. Sentia-se como uma mãe no pós-parto. Quando finalmente apanhou o objeto, não pôde conter um terrível grito, misto de espanto e alívio:
- Uma chapinha!
A chapinha metálica trazia impressos o número 84.689.563, um código de barras e três palavras que Carlos esforçava-se para ler, sem sucesso.
- Será inglês?
Pronunciava as sílabas como em português, com dificuldade:
- Ma... de... in... bra... zil...
Irritado com tudo aquilo, juntou suas entranhas e amontoou-as no lixo junto com o papel alumínio. Sentou-se no sofá e pensou:
- Agora deixa eu ver meu Big Brother.

14 de abril de 2005

Relâmpago e Trovoada

Há muito tempo não havia relâmpago nem trovoada. Havia apenas uma índia e seu indiozinho sapeca. Quando andavam pela selva, ele sempre corria na frente para pregar um susto na mãe, que nunca o alcançava. Certo dia ele correu muito rápido, mais rápido do que podiam suas próprias pernas. Perderam-se. Quanto mais se procuravam, mais se afastavam. O menino morreu abandonado, sem comida. A mãe, de tristeza. As almas subiram aos céus e, até hoje, se procuram. O menino é o relâmpago, que sempre vemos primeiro. A mãe é a trovoada, que ouvimos passar muito tempo depois. As chuvas são as lágrimas abandonadas pelo caminho. Lágrimas de dor que, irrigando nosso solo, transformam-se em farta colheita.