23 de maio de 2005

Dolce Vita, nono andar, sala 4

Sete horas. Já estava escuro. Dia quente, abafado. O prédio preto de tão sujo. Pura fuligem, cuspida todos os dias pelos escapamentos de milhares de veículos raivosos que roncavam pela avenida. Edifício Dolce Vita. Treme-treme decadente freqüentado por putas e travestis da região. Saulo de pé, na porta. Aguardava o homem de vozeirão, com quem marcara encontro por telefone. Saulo, que era de Câncer, quarenta e tantos. Grisalho. E que também era crente. Bastante crente. Desses que fazem da Bíblia a bússola da vida. Saulo, casado, classe-média, pai de um moço. Quando ensejava a desistência, um ônibus parou. Desceu um elemento abrutalhado, enorme. Vestia jeans e jaqueta de couro.
- Saulo? É o senhor?
- Isso. Cidão?
O brutamonte respondeu com um sim de cabeça e, pigarreando, perguntou com a voz grave, rouca, quase incompreensível:
- O apartamento? Do senhor?
- Não. Aluguei. Só pra ocasião. Vamos entrar.
A saleta de entrada ostentava um chão de ladrilhos vermelhos trincados. Lâmpada fraca, dependurada por fios desencapados. O porteiro de camisa desbotada azul fedia ardido a suor seco. Braços cruzados sobre a mesa, cabeça encovada no meio. Cochilava um sono mal dormido, sono de pernilongos rondando, ávidos pelo banquete. Às vezes despertava, abanava o braço na vã tentativa de expulsar o zum-zum-zum, ouvia um pouco do mal sintonizado jogo de uma dessas estações AM e dormia de novo.
Saulo e Cidão. Caminharam até o corredor do elevador. Esperavam. Saulo, Saulo... Ele, que era bom. Cidão encarava-o de soslaio. Saulo, de olhos titubeantes, namorava a rua. E agora? Desisto? Mas como? Esse homem já veio até aqui! Se eu sair ele avança em mim. Se corro ele me alcança. O estrondo do chegar do elevador, jaula metálica enferrujada, interrompeu seu pensar. De dentro, saiu um travesti de peruca loira, barba por fazer. Fumava. Sorriso da decadência orgulhoso na cara. Batom vermelho, gritante. Dentes tortos. Os da frente separados por um buraco escuro, por onde roçava a língua. Levantou a blusa, botou a mão nas tetas postiças e assimétricas, empinando-as, e perguntou para Saulo, insinuando-se:
- E aí? Vai?
Saulo desviou. Entrou no elevador, seguido por Cidão. A porta era das antigas, trança de ferro fechada manualmente. Cidão enfiou a mão pesada por entre a grade e, violento, fechou-a. Para Saulo, era bom o sentir-se ascendendo. Aproximava-o dos céus. E a ascensão lenta os levaria até o nono andar. Olhavam pro chão. Cabisbaixos. Segundo. Terceiro. Só se ouvia o tec-tec de velharia da gaiola subindo. A mudez de ambos beirava o insuportável. Quinto. Cidão, preocupado em garantir seu bem-estar e completamente alheio àquela presença desconhecida, incômoda, perguntou sem interesse:
- Por que não só você? Sozinho?
Saulo tirou uma bíblia surrada do bolso do paletó. Segurou-a com força, cheio de fé nas letras gastas, apagadas. Respondeu comovido, com voz trêmula de quase choro:
- Não posso! As Escrituras! Não entende? O Livro condena! Preciso que faça isso por mim!
Sétimo. Oitavo. Um tranco. A jaula de ferro parou. Nono. Cauteloso, mãos de imensa leveza, Saulo forçou a grade. Ritualístico. Não queria destronar o silêncio que, tirano, abissal, imperava no estreito corredor repleto de penumbras. Caminharam. Saulo à frente, Cidão logo atrás. O eco dos pesados passos de Cidão, mentalmente repreendidos por Saulo. O cheiro de mofo. A claridade dúbia, sinuosa. No final, a sala 4. Tão disponível, tão só de Saulo. Tão toda perfeita para um plano secreto. Com repente, a mão bruta de Cidão agarrou Saulo pelo braço, que olhou pra trás interrogativo. Cidão esclareceu, perguntando:
- Tem certeza?
A pergunta. Como era difícil transpô-la. Saulo, que já empunhava a chave da porta. A porta, que seria facilmente aberta. Mas a pergunta. Infame pergunta, para a qual Saulo não possuía chave alguma. O grunhido animalesco de Cidão transmudara-se na voz suave da esposa. Os olhos. Pareciam os olhos ternos, amantes dela. Olhos de apenas brilho, quando ele chegava em casa, respirava fundo o cheiro do feijão fresco sobre a mesa e sorria. Era ela, sua esposa perguntando se tinha certeza. Mas Saulo não tinha. Desisto? Vou até o fim? E respondeu, à meia voz:
- Vamos.
Caminharam. Sala 4. A chave, enfiada no orifício com vagar, girava, destrancava a porta. Calmamente. Mão na maçaneta, porta abrindo. Atônito, Saulo vislumbrava o recôndito secreto de sua obsessão. Carpete fino, escuro, empoeirado. Pouquíssimos móveis. Apenas uma cama e um criado-mudo. Janelas enormes. O incessante pisca-pisca dos luminosos de fora tingia o ambiente. Ora verde, ora lilás, ora vermelho. Entraram. Quando Cidão acendeu a luz, Saulo censurou-o:
- No escuro! Só à luz dos luminosos.
Mergulhado em verde, Saulo tirou a carteira do bolso. Colocou-a sobre o criado. Deitou-se de bruços. Lilás. Pegou a Bíblia e apertou-a forte ao peito.
- Está na carteira. A quantia acertada.
- Certo.
Cidão aproximou-se. Na cabeça, Saulo sentiu a pressão dura, rígida.
- Pronto?
Luz vermelha. Tiro! Seco, furioso, rasgando com ferver seu pensamento. O som engolido pelo faminto turbilhão de buzinas e motor de avião. Cidão foi à janela. Olhou pra baixo. Cobiçou uma puta, que se exibia com as coxas de fora. Pegou o dinheiro. Partiu. Só ficou Saulo. Saulo, que era feliz. Saulo. Feliz. Em casa, a esposa o esperava. O feijão esfriando na mesa.

12 de maio de 2005

Amar sob tendas

Toda vez que Parangolé, o famigerado ventríloquo do circo, tentava sair à francesa, já vinha atrás o palhaço Jeca, atravessando o picadeiro e gritando:
- Espera aí que também vou!
- Está bem! Vá se trocar, dizia Parangolé.
Apressado, Jeca ajeitava as calças semi-arreadas rebolando um pouco, pra entrar melhor. Sujeito abobado o Jeca. Ruivo de botar fogo invejoso, tanto era a vermelhidão da cabeleira. Saía feliz da vida. Bem sabia que Parangolé andava aprontando suas reinações pela rua, traquinagens de rir sem-fim.
Naquele dia sucedeu que Parangolé precisava de ir ao banco. A fila estava que parecia cobra-de-veado depois de banquete. Jibóia comprida, esparramada, paradinha de tudo. Parangolé inquietando, enervando. Coça nariz daqui, bate pé de lá. E nada! Jeca logo percebeu que era coisa de minutos pro amigo começar a talentagem de falar de boca fechada. E foi mesmo. Ventri-berrou:
- Todo mundo de mão pra cima! Assalto!
Fuzuê dos diabos! Um tal de gente correndo de um lado pro outro, com braços erguidos. O guarda puto de raiva. Arma em punho e cara de violência, tudo pra pegar o bandido. Procurava o gatuno que nem cão farejador. Mas bandido mesmo que é bom, neneca! Depois do pandemônio, no caminho de volta pro circo, a gargalhada dos dois era tanta que mais um bocadinho de nada e Jeca me saía um belo de um borraceiro.
Mas taí uma palavrinha danada que a gente cá de baixo se habituou chamar destino, só que lá em cima o nome é outro: Providência. E foi bem isso que pegou Parangolé de jeito.
Naquela agitada noite de espetáculo, já tudo estava armado pro matreiro Parangolé entrar bem. Lua mais cheia que mar de peixe. Céu todo de brilhantura. Cheirinho de pipoca doce no ar. Burburinho de criançada feliz ao longe. E o circo inteiro cravejado de lampadinhas coloridas, piscantes. Que perigo, tanta pólvora de coração junta! Uma faísca – uma faisquinha apenas – e pronto! O pobre Parangolé estaria apaixonado, abestado por demais.
E eis que chega a dita faísca. Bem no número de Parangolé, enquanto o boneco Xiquito recitava um poema. Linda, de vestido branco rendado e olhos negros de flecha venenosa. Xiquito terminou a recitação, mas cadê que Parangolé continuava? Só ficava olhando pra moça, atracado na bobagem de amor. Com fins de ajudar o amigo, entra Jeca, já semi-fantasiado, tropeçando em Deus e o mundo e caindo de quatro no meio do picadeiro. Recomposto, cochichou no ouvido de Parangolé:
- A fala! Você tem que falar “Xiquito, deixe de manias de poetar sobre amor. Amar é coisa de gente desocupada!”... Vai, homem de Deus! Fala!
Parangolé, pintado todo de vermelho, fazia o coisa-ruim, cético, vilipendiando o amar. Xiquito era o poeta apaixonado, tentando convencer o diabo do contrário. Mas Parangolé, com olhar fixo na donzela, saiu pior que a encomenda. Disse tudo ao invés:
- Virgem Santa! Como é que pode tanta boniteza pra um alguém só? Amar, Xiquito! Eis aí a única certeza da alma! Amar sem rumo! Amar sem prumo! Simplesmente, amar!
Xiquito, fulo da vida, retrucou:
- Ei! Devagar com o andor, seu moço! O poeta aqui sou eu!
Enquanto o mundo à sua volta gargalhava, a mocinha recatada sorria um sorrisinho meigo de meia-boca, disfarçando, olhando pra baixo, coradinha nas bochechas. Findo o espetáculo, lá foram Xiquito e Parangolé, este tão todo rubor que sabe lá se era de avergonhado ou resto de tinta. De pernas trêmulas, afoitíssimo, Parangolé abordou a moça:
- Sabe que aquela trapalhada lá dentro foi culpa da senhorita? Digo, da belezura da senhorita...
Ao que Xiquito imediatamente interrompeu e disse com veemência:
- Vê lá, Parangolé, se isso é jeito de tratar uma donzela tão da formosa? Deixa isso comigo.
Xiquito tinha razão. Parangolé era homem galhofeiro, dado a patuscadas. Não conhecia os sutis melindres e labirintos da alma feminina. Mas Xiquito... Aquele, se não fosse boneco, já tinha botado de joelhos metade das donzelas da cidade.
- A senhorita me desculpe pela descompostura desse meu amigo tosco. Sou Xiquito. Não pude deixar de notar quão lindos são teus olhos. Ó donzela, trouxeste conforto e alívio a este coração de boneco, que, solitário e calado, sofre sem par neste mundo.
Estranha a reação da moça. Parecia que ia falar qualquer coisa. Mas o lindo rosto foi se enchendo de aflição. Olhou pra um, olhou pra outro. Virou as costas e foi sumindo junto com o apagar das luzes. Nem xingar xingou. De pé, fincado no chão que nem galho morto sem folha e banhado de luar, Parangolé olhava pro nada, com Xiquito na mão. Os dois queimando de febre da alma.
Dormiram sono ruim dos diachos, desejando não houvesse amanhã. Mas havia. Muitos amanhãs. Um pior que outro. A moça aparecia no circo cada vez mais encantadora. Só olhava. Parangolé e Xiquito chegavam de manso, puxando assunto. Nada. Ela tripudiava, quieta de tudo. Nunca dizia se gostava ou desgostava. Castigava forte com olhares de ternura. No dia de sofredura máxima, Parangolé agarrou-a pelo braço e descarregou o palavrório:
- Não faz mais isso, Dona! Fala qualquer coisa. Que não quer a gente. Ou até que odeia! Estou a ponto de fazer besteira da brava. Vem aqui no circo jantar amanhã, às oito? Vem? Só eu, você e Xiquito?
A moça se libertou com um safanão e correu atordoada. Naquela noite os amigos de Parangolé, liderados por Jeca, se juntaram e prometeram ajudar no jantar. Estavam preocupadíssimos. Por aqueles dias Parangolé era só casca. Mesma cara, mesmo corpo. Mas por dentro, a alegria fora minguando, minguando, até sumir de tudo. E Xiquito? Não se ouvia mais a poesia linda do boneco.
E todo mundo dormiu. Sumiu a lua, veio o sol, todo mundo acordou de novo. Horas imóveis aquelas, mais pra correnteza de riacho congelado. Parangolé olhava o relógio de minuto em minuto. À tardinha começou a arrumação do circo. Sete horas. Parangolé, já de banho tomado, cheiroso que só cheirando, penteava Xiquito. Separou pro boneco a roupa mais elegante de todas: um terninho cheio de finesses.
- E se ela não vier, Parango?
- Daí, Xiquito, a coisa vai desandar. A gente vai subir até a tábua dos trapezistas e se jogar. Dar cabo dessa vida ingrata.
- Pode parar! Você suba lá sozinho e me deixe cá embaixo. Posso até fazer torcida, mas pular junto? De jeito maneira!
- Vamos ver só se você não vem comigo...
O riacho do tempo descongelando preguiçoso. Goteira lenta de minutos. No relógio, oito horas. No picadeiro, Parangolé e Xiquito de um lado pro outro. Oito e dez. Oito e vinte. Oito e meia, e Parangolé começou a escalada da escadinha dos trapezistas. Degrau por degrau, indo ao encontro da indesejada das gentes. O chão amiudando. Xiquito, coitado, gritava:
- Me põe no chão, filho de uma égua manca! Tenho vertigem!
Pobre Parangolé. Mal imaginava quem vinha chegando do lado de fora. A moça era o deslumbre em pessoa. Um malabarista, vestido de listas azuis e fazendo diabruras com bolinhas, abriu o portão. De vestido florido discretamente decotado e perfume de primavera, ela caminhava em direção à tenda. Diversos homens de pernas-de-pau e tochas na mão dispostos em corredor. Cuspidores de fogo. Conforme ela passava, um mágico túnel de luz ia se formando sobre sua cabeça.
Do lado de dentro, Parangolé respirava fundo o resto de coragem necessária. Xiquito só tapava os olhos. Quando a donzela chegou à porta da tenda, Jeca, caracterizado de palhaço e vestido com estirpe, recebeu-a cheio de cavalheirismos e outros ismos. A moça tirou um bilhete da bolsa e entregou a Jeca. Este, muito surpreso e quase sem palavras, abriu a porta. Mas surpresa ainda maior foi ver Parangolé na pontinha, de joelhos flexionados, dando impulso ao pulo mortal. Jeca berrou:
- Não faz isso! A danadinha é muda! Por isso não falava com você! Está aqui o bilhete que não me deixa mentir. E a graça dela é Maria.
Muito tarde. Parecia que o joelho de Parangolé tinha mais pensamento que a cabeça. Os dois foram despencando numa velocidade sedenta de chão. Naquela altura, quem perguntasse a Jeca se o coração agüentava mais uma, ele diria que não. Mas tinha outra. Das boas. Um trapezista, escondidinho na escuridão da tábua de pulo oposta e muito do ciente das caraminholas que andavam pela cabeça de Parangolé, pulou ao mesmo tempo no trapézio. Capturou Parangolé pelo pé, a um tiquinho do chão. O homem voava e ria bobo, fitando Maria florida lá embaixo.
Passado o susto e já pousado no chão, Parangolé ajeitou a gola do paletó, caminhou até Maria e disse:
- Vamos jantar?
Conduziu-a até seu lugar na mesinha. Quando sentou, olhou bem aqueles olhos negros e falou:
- Então a senhorita é muda? Por que não disse antes?
Xiquito logo repreendeu o amigo:
- Larga a mão de burrice, homem! Como é que ela ia dizer alguma coisa?
Maria sorria, apaixonada que estava pelos dois.
Depois chegou Pierre, o mágico de tratos afrancesados, montado num elefante. Vestia fraque e gravatinha borboleta. Apeou, aprochegou-se e, num passe, puxou das mangas três cardápios.
- Monsieurs, Mademoiselle, le menu.
Ao fundo, trapezistas imersos na luz azul dos holofotes, cheios de estripulias, brincavam de arranhar o céu.
Meses depois, no matrimônio, o padre questionou Maria se queria esposar Parangolé. Este deu uma cutucada na moça. Ela abriu a boca, mas quem falou foi o noivo, ventriloquando:
- Sim.

6 de maio de 2005

Perguntações

- Mamãe, gato sabe nadar?
Será que a menina não percebia que incomodava os adultos com suas perguntações? E a mãe, que não se dava nem ao trabalho de respondê-las? Não é que a pirralhinha conseguia mesmo dar nó nos miolos da gente? Por esses dias, o que foi mesmo que ela me perguntou?
- Papai, vaga-lume não pica, né?
- Por quê?
- Você compra um vaga-lume pra mim?
- Pra quê você quer um vaga-lume?
- Pra quê? Ah, eu não podia dormir com ele pro quarto ficar mais claro, só um pouquinho?
Já pensou? Onde eu ia guardar o bichinho? Numa caixinha de acrílico? O que vaga-lume come? Folhas? Alface?
- Será que come carne, papai? E se eu desse um pedacinho do meu bife pra ele, todo dia?
E xixi e cocô? Como será o cocozinho de vaga-lume? Imagina o tamaninho do cocoziquinho?
- Papai, a gente não pode comprar uma privadinha pra ele?
E se o insetinho se metesse a morrer? Será que aquele coraçãozinho de cristal suportaria tamanha perda? No fim das contas, não me danei pelo meio do matagal pra caçar o tal do vaga-lumezinho? E a trabalheira pra arrancar aquele monte de carrapicho da calça?
- Filha?
- Que que é?
- Sabe o que tem na minha mão?
- Bom-bom? Pão de queijo?
O que te parece? Pular e rodopiar no ar com olhinho molhado de alegria é sinal de felicidade?
- Que nome você vai dar pra ele?
- Vagaluizinho?
Mas sabe que no fundo cá dentro do peito eu tinha uma certeza esquisita que o andor estava muito bom pra ser de verdade?
- Papai, põe o Vagaluizinho na caixinha agora, pra eu dormir com ele?
Cadê que o bichinho acendia?
- Será que ele não está queimado, papai? Posso chacoalhar um pouquinho pra ver se faz barulhinho, igual lâmpada queimada?
- Filha, lembra uma vez que a gente viu na televisão que vaga-lume só acende quando voa?
E a carinha que a coitadinha fazia, fingindo que não entendia só pra não soltar o Luizinho? Sabe aqueles momentos da vida que amor e raiva, alegria e tristeza, são que nem tinta verde? Você já tentou separar amarelo e azul da tinta verde? Conseguiu? Misturada danada, né? Pois quando ela abriu a caixinha e o Luizinho saiu voando e alumiou o quartinho e partiu janela afora, não é que parecia que um olhinho dela chorava lágrima de alegria e outro de tristeza? Tudo bem que Luizinho partira, mas também não acendera?
- Papai, ele tá indo tão lonjão que será que ele vai virar estrelinha?
Passadas algumas semanas de cabecinha matutando e matutando mais ainda, o que vem ela, toda sacizinha, me perguntar?
- Papai, cachorro não voa, né?
- Que é que tu tá querendo, menina?

3 de maio de 2005

Joaninha fazedora de jarros

A vizinhada do bairro Olaria conhecia a senhora grisalha por Dona Joaninha. Até aí, nada demais: sua graça era Joana mesmo. O que mais encasquetava era a semelhança dela com o insetinho coleóptero: muito dócil, terna. Caminhava curvadinha e ostentava uma ampla coleção de casacos de bolinha.
Um tanto monossilábica, é verdade. Não era lá muito afeita às palavras. Joaninha acreditava em suas mãos, apenas. Por isso era das mais respeitadas oleiras das redondezas: seus jarros e moringas encantavam legiões de turistas que vinham de longe, não apenas pelas formas suaves e abauladas de encher os olhos, mas também pelos desenhos de valor artístico inestimável. Quando os filhos questionavam-na porque era tão calada, ela respondia:
- Boca mente o tempo todo. Mão não. Quando acarinha, é que ama; se bate tá com raiva.
Jamais dizia "eu te amo". Só chegava com a mão gordinha de dedos grossos, que se embrenhava pela cabeleira desalinhada das cinco crianças, e começava um feitiço de cafuné. Tão feitiçoso que logo a meninada toda se punha a dormir.
Bem de manhãzinha, quando o céu era só clarão mas o sol ainda se encorujava pra baixo da terra, Joaninha, já de pé, passava o café. Mais preto que noite. Fortíssimo. Pra agüentar o mais um dia de trabalho no torno. Sobre a mesa de toalha desbotada de muitos quadradinhos, Joaninha colocava, além das cinco xícaras das crianças, uma outra, que lá ficava até o anoitecer.
- Pro pai?
Perguntava a terceira menina, que já amocinhava e se metia a entender das coisas, empinando os peitinhos mal nascidos.
Era pra Jeremias, marido ido. Já havia quase quatro anos. O homem, logo depois de emprenhar Joaninha pela quinta vez, fugira com Analice, a filha da vizinha. Um espanto de moça, de tanta boniteza. Tez alva, olhos muito negros, um pouco desviados. Discretamente estrábica. Nunca se sabia ao certo pra onde a mocinha estava olhando.
No dia da fuga, depois de girar o torno o dia inteiro, Joaninha chegara em casa exausta. Procurava Jeremias para lhe mostrar o dinheiro do dia, com a venda dos jarros. Chamava. Chamava. Nada do homem. Quando pegara o pote da economia de dez anos de trabalho, o susto! Susto brusco de boi preto que enfia a cara brava pra dentro da janela. O pote vazio que era só ar. Na manhã seguinte chegara a notícia: Jeremias havia comprado um jegue na cidade, colocara Licinha no lombo e saíra galopando pela estradica de terra que cruzava horizontes, sem destino.
Passados quatro anos, estava Joaninha fincada firme na cozinha. Café feitinho. Dia diferente dos outros: decidiu deixar as crianças dormindo mais um bocadinho, antes de despertá-las pra labuta. De repente, uma pontada violenta no peito. Como das outras vezes, pensou “hoje não”. Mas dessa vez a dor vinha metida a besta. Teimosa. Fisgou de novo, ainda mais forte, no coraçãozinho cansado. E ela, insistente:
- Já disse! Hoje não!
Apressou-se. Tinha de entregar uma encomenda de quinze jarros para uns turistas alemães. Era dinheiro que chegava pro pão da prole por uns dias. Saiu de casa com a bacia e começou a descer o barranco que dava no ribeirão. Precisaria de muito barro. Novas fisgadas e Joaninha caiu de joelhos, prostrada no lamaçal. Enfiou os dedos gordinhos na lama. Ah! Era deliciosa a sensação do barro fresquinho e cheiroso penetrando atrás das unhas.
As vistas embaçavam. Na outra margem do ribeirão, avistou um homem esguio. Por um instante, uma certeza esfumaçada invadiu Joaninha. Jeremias! Tinha de ser Jeremias! Logo, a miragem já sorria o sorriso protetor de Jeremias. Ah, Jeremias! E sumiu, feito corisco! Outra pontada. E outra. Joaninha subia o barranco com a bacia cheinha de barro, resfolegando. Resistia, repetindo com heróica insistência - "hoje não", "hoje não".
Já no terreiro dos tornos, sentou o corpo cansado no primeiro torno. Um punhado de barro começava a girar. Aos poucos a massa amorfa ganhava personalidade, mais e mais imponente. As mãozinhas hábeis forjavam o mais belo de todos os jarros. Uma última fisgada. Fulminante. O torno parando, parando. O vaso se entortando lento, molenga. O pescoço já não suportava o peso. A cara redondinha de lua despencando no barro. O barro invadindo a boca entreaberta. Ainda procurou força pra cuspir. Inútil.
Joaninha virou ligeiramente a cabeça. O mais novinho, garnisezinho, miudinho de dar dó, encarava com olhos secos, agrestes. Peladinho, ranhento, barrigão d’água. Deformado pelo calor que subia da terra, era mais fantasma que gente. E, assim, Joaninha fechou os olhos.