25 de junho de 2005

Memória Esquiva

O pesadelo
Parece postal. O gramado regozija-se com os primeiros raios do sol. É puro orvalho. Ela senta. O banco branquíssimo, reformado, sob a frondosa copa do carvalho. Banho de sol. Melhor momento para pôr ordem às suas memórias. Na caderneta, escreve. Tudo. Lê. Relê. Tenta caçar a ponta do novelo, emaranhado de lembranças. Em vão. O que veio antes? A voz do médico ainda ecoa na cabeça. “Cinco fatos passados na ordem correta e você passa um fim de semana em casa”. O homem dos círculos já deu três voltas. Agora quatro. Talvez já tenha desenhado seu melhor círculo do dia. Ela, nada. Mente estafada, enfastiada. Culpa das noites mal dormidas. E as noites, culpa do pesadelo angustiante. O de sempre. Franklin, o menino sardento dos seus anos primários. Encara-a com olhos malévolos de predador. Entocaiado. O sorriso, puro gozo daquele que se sabe opressor. Ela, agachada, acuada, no canto sombrio e gélido formado por duas infinitas paredes. De altura. E comprimento. Onde nascem os colossais monstros de pedra? Não há teto. Capricho maligno de algum arquiteto. Sádico. Calculista. Geômetra da vastidão negra e crua da perversidade humana. Um teto? Seria indulgência, misericórdia. Mas a visão que tem do céu, tortura. Nuvens amorfas, livres, bêbadas de tanto azul, espreguiçando-se. O vento. Ah, o vento. Tortura o não sentí-lo na pele, apenas vê-lo a arrastar as nuvens, devasso. Tortura a infinitude das paredes, meticulosamente projetadas intransponíveis. Tortura o chão. Xadrez. De pequenos ladrilhos pretos e brancos. Preto. Branco. Branco. Preto. Muito límpido, brilhoso. Tanto que é um quase-espelho do céu. Sim, quase, pois reflete as formas – nuvens, lua, estrelas – mas rouba-lhe toda a cor. Assim, o céu que se apresenta ao seu alcance não é o jorrar de azuis, é apenas falacioso reflexo no chão. Quase-céu, descorado, gelado, previsível em sua não-profundidade – puramente plano – e maculado pelo maniqueísmo geométrico do homem – eterno revezar-se de quadrados pretos e brancos. Sobre a mesa repousa o tabuleiro de resta-um. O orifício do centro, o vazio. As quatro periferias preenchidas pelas peças, translúcidas e coloridas bolinhas de cristal. Ela se aproxima, trêmula, incontrolável vazar de sentimentos no peito. Cada esfera, um incólume cárcere de memórias. Rigidamente organizadas, todas, fiéis à cronologia de uma vida inteira. Uma das esferas, muito turva, aprisiona nuvens negras, tenebrosas. A mãe escancarando o portão de casa. Corre desesperadamente pela tempestade. Desaparece. Na esfera adjacente, quatro, cinco dias depois, o breu. A casa toda penumbras. O telefone tocando de madrugada. O pai chorando. A notícia: o cadáver da mãe encontrado na margem do rio, preso entre caules e galhos. Ali, naquele tabuleiro bobo, reside a panacéia de sua memória. Passaporte para inventar, desbravar mundos. Caminho para um grande amor. E filhos! Família! Mas antes que ela possa proteger os frágeis e cristalinos glóbulos, Franklin segura seus braços. Mãos arquetípicas de menino. Grego ou troiano, preto ou branco, moderno ou medieval; hão de ter as mesmas mãos. Calos, do empunhar estilingues. O detrás da unha negro de sujo, imundície mista de terra e ranho. Com essas mãos, empurra-a. Ela cai sentada. Submissa, ira engolida, observa. Franklin, saco plástico à mão, apanha as bolinhas. Uma a uma. Deposita-as no saco. No tabuleiro restam apenas os orifícios. No saco, suas memórias. Caoticamente, memórias. A primeira infância misturada à última festa, dos vinte e nove anos, e esta, às aventuras da puberdade. Matizes múltiplos tendendo ao branco. O menino leva à boca o saco. Assopra. O bafo, mais e mais, embaçando tudo lá dentro. Quando termina de encher, amarra a ponta. Encara a menina. O golpe fatal, impiedoso. O saco estourando, derramando lembranças. Ao estrondo do estouro repleto de ecos, segue-se o agudo tilintar de cristais estilhaçando-se pelo chão. As bolinhas feitas cacos. As memórias, libertas, voláteis, diluindo-se no ar. Sobem, até encontrar o azul da abóbada. Desaparecem. Ela acorda. Sua frio.

A chegada
O médico conversa com o pai e a madrasta. Sala de mobília escura, antiga. Tudo tão pesado. Até o cheiro de antigamente. Cheiro amargo, ardido. Madeira velha inebriando o ar. Parece uma arapuca, maliciosamente armada para enclausurar, sufocar sua alma. De pé, na janela, lembra-se da caixinha de fósforos da infância, onde trancafiava toda sorte de bichinhos exóticos que encontrava pelo caminho de volta da escola. Ré e juíza de seus próprios atos, acaba sempre se absolvendo. É que não fazia por mal. Bem o sabe. Sozinha, filha única, precisava de companhias. Da janela observa o gramado. Gentes chegando aos montes, de todas as direções. Loucos. Todos vestem azul. Supostamente é hora do banho de sol. Um deles, muito alto, branco quase albino, caminha em círculos. Obcecado, persegue alguma misteriosa perfeição. A busca pelo círculo perfeito? Dessa lida extrai o hedonismo que embebe sua existência de razões, justificativas. Feição grave, sisuda. Nos elegantes passos, pisados com extrema cautela, talvez enxergue o desenho. Mágico compactuar-se consigo mesmo. Pois que se terminada a Grande Obra, correrá desvairado pelo campo, a gritar aos quatro ventos "consegui traçar o círculo"? Não. Guardará secreta em seu peito a façanha. Um efêmero instante de êxtase, qual orgasmo. Recomeçará. Perseguindo um círculo ainda maior. E mais circular. Por anos e anos, assim deve ser para que não sucumba seu existir. Ambição, insatisfação: eis as águas sempiternas que impõem movimento ao moinho da vida. Uma ruidosa batida de madeira chama sua atenção. Desvia o olhar para a papelada sobre a mesa. O médico retirando o carimbo. As letras vermelhas, garrafais, se revelando. Aos poucos. "Memória Esquiva". Ainda fita o pai, à procura de algum amparo. Qualquer. Um afago na cabeça, quase sem duração. Um sorriso esboçado que lhe subisse o cantinho da boca. Ele apenas baixa os olhos, pesaroso. No gesto, ela antevê um quê de "desculpe", de "nada mais a fazer". Eles partem. Pai e Madrasta. Ela fica. Agora, a louca.

Volúpia das Sombras
Chove. Sem parar. Desde anteontem. Nesses dias, todos ficam sem a benção do gramado. Amontoados no pátio interno, parecem nervosos. O ar permeado por uma atmosfera de iminência tensa, de inconseqüências prestes. Grito, safanão, tapa, soco, pontapé. Qualquer violência lhes é cara quando privados do gramado. Em todos os olhares humanos – ternos, insanos, rebeldes – pulula inquieta uma falta. Camadas de falta sobrepostas uma a outra, durante milênios, geração a geração. No detrás de cada olhar, a fera. Ainda que aprisionada, inextinguível. A fera, outrora perseguindo a presa, ostentando seus pontiagudos caninos – arma primeva forjada no seio da natureza para dilacerar. Fera que, dilacerando, lambuzava-se no sangue ainda morno. A fera, seu pai. Ele se assoma do recôndito, caótico arcabouço de memórias. É madrugada. Ela desperta. Ouve gemidos no cômodo adjacente. Quarto de hóspedes. Recinto mergulhado em breu. Porta entreaberta. Agachada, ela espia. Por entre todas as sombras mortas, inertes, duas se movem tresloucadas, sedentas. Entrelaçam pernas, mãos, bocas, num voluptuoso balé de amor. Amor. Azeite aromático roubado à ceia de Deus, numa ânfora, por um anjo qualquer, travesso, vagabundo, para nutrir a alma do homem. Na vida, há os incautos, que se encharcam da quintessência em parvo desperdício. Outros, prudentes, pingam na boca duas, três gotas. Degustam, por longo tempo. A língua, benfazeja, espalha o elixir em movimentos circulares. Bochecha, palato, bochecha. Até que a saliva dilua por completo o sabor. E há os privados, onde ela se inclui. Reclusa, apenas observa a horda esbaldando-se em redor da ânfora. Aguarda ansiosa até que eles, carcaças de desejos, partam satisfeitos. Daí sim. Aproxima-se. Timidamente. Enfia a mão no fundo. O dedo indicador toca a argila ligeiramente úmida, fresca. Unta os lábios intocados. Lambe o apenas resquício, seu quinhão de amor na vida. Quisera ser como as sombras, tragadas por furioso oceano de lascívia. O noivo (como se chamava?) desapareceu. Quando da internação. Não a possuiu, violento. Sequer ensaiou obscenidades. A sombra maior (o pai?), pesada, tirana, por sobre a menor, a presa. A mãe? No quarto de hóspedes? Trespassada pela dureza quente da fera, a presa engole seu gemer. Será dor? Prazer? Atracam-se, passionais, irresponsáveis, ofegantes, atracam-se. Sombras brilhosas, banhadas que estão pelo suor. E gozam como deuses. Tombam. De fora ela ouve. Aos poucos as respirações normalizam-se. Até que a sombra-fêmea se levanta. Caminha. A mão esquerda fechando a porta. Sem aliança. Não é sua mãe. Terá ela já falecido? E se não? Estará viajando? Ou... será? Talvez esteja esparramada na cama, entorpecida pelos barbitúricos, tentando ocupar o vazio deixado pelo marido. Na cama e na vida.

Muitos anos de vida
Refeitório. As palmas descompassadas. Os loucos aplaudem a aniversariante. Seus rostos carregam, a duras penas, algum sorriso. Quase todo sorriso é uma planta enraizada. As folhagens, as flores, os frutos brotam na face. As raízes aprofundam-se até o âmago do Ser, de onde bebem a seiva da felicidade. O sorriso dos insanos, porém, não possui raízes. Foram podadas. Sorriso superficial, desprovido de alegria. Efêmero, quase no mesmo instante em que revela os dentes amarelados, esconde-os cerrando os lábios, lápides de sorrisos. Acabrunhada no canto, ela observa. Os sorrisos. O bolo afoitamente despedaçado. As velas nunca acesas pelas enfermeiras, a fim de reaproveitá-las nas festas vindouras. A ausência do pai. Virá? 38 anos. Há nove começou a clausura. Onde estará? Nos primeiros meses suas visitas eram freqüentes. Até que foram escasseando. Escasseando. Terá esquecido? Apenas três no último ano. Aniversário, Carnaval, Independência. À sua frente um demente baba no guardanapo. O branco é aquele mesmo. Do lenço, no velório. Mas o guardanapo, encharcado. O lenço não. Velório de sua mãe. Todos de preto, compadecidos. A futura madrasta, melhor amiga da mãe, de cinza. Cinza que lhe fere os olhos, qual laranja, verde-limão, lilás. Cinza, insuportavelmente cinza. Alegre por demais para o velório de sua mãe! Das mãos da madrasta o lenço escapa, esvoaçando. Solícita, ela o intercepta, antes que toque o chão. O pedaço de pano entre os dedos. A surpresa, um golpe no peito. Nem molhado. Sequer úmido. Seco. Árido. À dor da perda da mãe, soma-se esta, ardida. Parabéns pra você. As palmas de agora se fundem ao barulho dos primeiros punhados de terra caindo sobre a madeira. Som do irremediável, irreversível. Haverá na vida mais pungente ruído que este, da terra sobre o caixão da mãe? Terra maldita, que nos nutre a carne com seus frutos suculentos, mas vem à forra. No dia da paga, é ela quem nos come. Impiedosa. Ávida por transformar tudo nela mesma. Excremento, planta, bicho, gente; tudo feito terra. A madrasta oferece o ombro ao pai, que se aconchega. Íntimos? Nesta data querida. Incomoda-a este verso, cantado a plenos pulmões pelos néscios. Reformula: nesta data, quer ida. Sim, ela quer ida. Ida idosa. Partida sem retorno. Muitas felicidades. Soa-lhe razoável. Depois da partida, a bonança. Muitos anos de vida. E na bonança haverá de viver seus muitos anos. Mas antes, pensa em sua cova. Quê-la cavada no gramado. Seu coração, ainda que, com os dias, esteja fisicamente carcomido pela pedregosa terra, ali permanecerá como espírito morno. E exatamente nesse ponto, o homem dos círculos caminhará. Descalço. Sentirá o calor a penetrar-lhe as plantas dos pés. Traçará o mais perfeito de todos os círculos, Opus Magister, tendo como centro seu coração.