4 de julho de 2005

Cadeira de balanço

Sempre quis ter uma cadeira de balanço para relaxar nas tardes excessivamente quentes de verão e ficar na varanda vendo a moça de vestido decotado passando sorridente pela rua de terra batida e cheiro de mato novo que cresce desregradamente como deveriam ter sido meus setenta e três anos de vida vividos parcial e mediocremente no antigo emprego de contador no escritório empoeirado e escuro da Rua Carlos Sampaio onde havia um belo cinema que freqüentei com minha falecida esposa que me amava dedicadamente e fazia um delicioso feijão com toicinho todos os dias levando minhas veias a se entupirem da nociva gordura que ocasionou o derrame cerebral que me paralisou o lado direito do corpo franzino e frágil que tantas preocupações rendeu à minha mãe nos tempos da infância quando eu andava de carrinho de rolimã e sentia o vento de primavera com cheiro floral acariciando meu rosto enquanto a mocinha da rua de cima me observava atrás das janelas com olhos de jabuticaba e meio sorriso no rosto tão pálido que me lembrava a estátua de Virgem Maria que eu idolatrava quando ia à igreja de mãos dadas com meu pai a fim de que não me perdesse no meio das pessoas estranhas e enormes que em mim esbarravam sem que eu sequer pudesse enxergar suas faces misteriosas e desconhecidas como daquelas mulheres mulçumanas que vestem a burca que lhes esconde os olhos mas não a tristeza incrustada na alma reprimida pela sociedade temente a um Deus castrador e patriarcal como os mafiosos daqueles filmes que sempre passam na televisão e eu nunca consigo terminar de ver devido ao sono que sinto depois das dez por conta de acordar muito cedo para ver o nascer do sol iluminando o orvalho do mato novo na rua de terra batida por onde passa a moça de vestido decotado que eu poderia observar muito mais prazerosamente se tivesse uma cadeira de balanço.

O velho sempre a me espiar. Espia despindo-me com os olhos. Olhos, talvez o resto vivo em seu corpo que ainda não tenha sucumbido ao cansaço. Cansaço igual ao meu, percebendo-o de pé todos os dias, na varanda. Varanda nua que, sem uma cadeira de balanço, assemelha-se ao vácuo no qual se infundem os planetas. Planetas chorosos, condenados ao eterno aproximar-se e distanciar-se, privados do toque, imersos em assombrosa distância. Distância que me separa do velho. Velho que, supostamente, já montou rolimãs quando menino. Menino que ainda se assoma em seus senis olhos azuis vendo-me de vestido. Vestido florido, ou liso, de tecido fino, para os dias excessivamente quentes de verão. Verão que faz ventoso o ar, que suspende ligeiramente o vestido, roçando em meu sexo descoberto, assoprando em minha pele, arrepiando minhas reluzentes e desejosas coxas. Coxas brancas que se expõem ao seu crivo de homem em pérfido julgamento. Julgamento em que lhe pergunto com o olhar: são belas? Belas assim, você as deseja? Deseja-as mais que uma cadeira de balanço? Cadeira de balanço que lhe propiciaria, nos dias últimos, algum aguado prazer. Prazer muito maior eu poderia conceder-lhe entregando-me ao seu desejo murcho. Murcho como seu olhar sôfrego nos dias em que não apareço na rua. Rua com cheiro nostálgico de mato novo. Novo e vívido como ele já foi um dia. Dia diferente do hoje, em que ele é apenas o velho. Velho, sem cadeira de balanço, sem nome, sempre a me espiar.