28 de agosto de 2005

Esperando a ceifadeira

Meia noite e um? Dois? Por volta desse horário ela sempre surge nos fundos. A velha. Semi-careca. Corcunda. Recolhe as roupas do varal. Mas hoje... Gritos do lado de fora! Afoita, larga as roupas. Estica-se para melhor enxergar a rua. Olhos sedentos por um Gran Finale da opereta bufa, sua vida. Quisera fosse um atentado violento ao pudor. Um homem, com o falo erguido, apontando para as estrelas, desafiando divindades com subversivo empunhar de espada. A donzela engolindo gemidos, entre desejosa e apavorada. Ou um assassinato? Um grito lúgubre, como um guinchar de clarineta, dissecando a carne esponjosa da madrugada. Um som tingindo de vermelho vívido seus anos cinzentos? Quisera fosse majestoso fato, suficientemente majestoso para justificar o desleixo de largar suas calcinhas à reprimenda dos olhares alheios. Calcinhas abandonadas numa bacia metálica, opaca. Amassadas, encardidas, descosidas. Mas os gritos... apenas lixeiros. Lixeiros! O olhar despenca. O corpo encurva-se novamente, desaparecendo no breu com a bacia nas mãos. Lá dentro, as luzes. Apagam-se. Ela deve estar se deitando. Frustrada, aguarda a ceifadeira das almas. Sem esperança de que um grande fato ocorra, planeja ir à feira. Amanhã.