25 de julho de 2006

Nega Dita

A morte de meu pai

Quando eu era menina, foi Nega Dita quem cuidou de mim. Mamãe morreu naquele dia de céu preto e tempestade, no meio do parto. Dizem que enquanto a gentarada piruetava de contentamento e a terra saciava sua sede de monstro agreste, papai corria doido pelo descampado, erguendo os braços e suplicando a Deus que lhe metesse um raio na fronte. Não era ruim o cabra, mas depois daquele dia a cabeça nunca mais voltou a funcionar direito. Primeiro tentou me matar, quando eu somava um ano e dias. Depois, quando amocinhei, ele usou meu corpo casto pra saciar seu desejo. Era natal. Requentei a buchada e deixei-a lá, sobre a mesa. As luzes piscavam bonito na árvore de natal. Verde; amarelo; azul; adormeci. Ele chegou encachaçado. Chamava Luzia, era o nome de mamãe. Agarrou-me, beijou meu cangote e, sorrindo um sorriso abestado, sussurrou com demência:
- Senti uma saudade dos diabos!
Nega Dita sempre me dizia que sou minha mãe cuspida. O homem, trêmulo de vontades, puxou-me pra cama, implorando:
- Vem, Luzia, vem me fazer teu homem mais uma vez.
E eu fiz. Não tive prazer algum. Entanto não quis roubar-lhe a ilusão de estar amando mamãe. Além do mais, sabia que sua vida corria pra ribanceira perpétua da morte. Era coisa de dias, talvez semanas. Quando papai murchava dentro de mim, já principiava a roncar. Dormiu duro feito pedra. No outro dia, acordei com a gritaria do lado de fora. Lá estava o homem, pendurado na árvore do quintal, enforcado com o fio das luzes de natal.
À tarde, vieram os tios. Pediram-me o lençol que fora de mamãe, pra carregar o cadáver e com ele ser aterrado. Disseram que faria bem ao defunto. O lençol, guardava-o dobrado inúmeras vezes no fundo do armário, esperançosa de que assim o aroma de mamãe não escapasse pelos ares, desejoso que devia de estar pra se libertar deste mundo cruento, conquistando horizontes. O lençol, cheirava-o de leve pra não gastar o cheiro, toda vez que Dita, com olhos de adeus, ia à cidade comprar ervas pro cachimbo.
Caminhamos léguas. Eu, Dita, tios, primos. Escorria-me pelo rosto uma lágrima, até o queixo. Dita, com o dedo, apanhou-a. Fez-me lamber.
- Não sirva ao diabo champanha em taça de cristal. Não dê de beber a essa terra maldita. Ela quer sugar sua seiva, consumir sua vida.
Carcarás, reis negros ultrajando o azul celeste, acompanhavam o séquito, por demais ouriçados com o cheiro de papai já podre. Ao lado de mamãe, a cova - só ansiedades - aguardava, que nem assunzinho miúdo escancarando o bico pra mãe lhe prover nutrimento. Enquanto os tios aterravam o corpo, eu observava. Ajoelhada, cruz nas mãos, finquei-a com ódio na terra. A parentada foi partindo. A ladainha se dissolvendo, cada vez mais distante. Restamos eu e Dita, apenas. Uni as mãos franzinas pra orar por papai. Dita repreendeu-me, austera. Separando minhas mãos, disse:
- Ele não acudirá. A gente fez toda essa miséria, a gente que sobreviva com ela.
E assim sucedeu. Ele não acudiu.

15 comentários:

TMara disse...

estou deliciada. Bj de luz e paz e boa semana

Anderson disse...

Bah! Que história... sem palavras. Tu escreve muito bem Jaderson, já te acrescentei nos meus favoritos.
Parabens!

Se quiser passa no meu espaço:
http://www.gauchenroll.pzd.com.br/

Abraço!

TMara disse...

bjocas e ;)

Bbel disse...

Ai, essa buchada me deixou louca de apetite... Tinha que falar da bichinha, tinha?

Posso fazer uma ressalvinha? O negócio é “cagada e cuspida”, visse? [hahahahaha] E eu aqui me atrevendo a corrigir seus ditos. [gargalhei] Ora, cada um diz do jeito que bem quer... Releve aqui sua amiga.

Foi muito bom voltar a ler suas histórias, você é o meu escritor favorito e predileto!

Eita, adorei o excerto da hora, “caiu no álbum de retratos”... Voou baixo, coitadinha!

Cheiros,

disse...

É, Janderson. É triste, é duro, é denso, mas é!
Ding ô bél é o cacete!
Bjs

Bbel disse...

Conheço bons advogados pra meter um processo nesse seu "continua..." Propaganda enganosa e por aí vai. Sei não...

Eu só relevo porque sei que a causa é nobre.

Nega Dita empacou feito jumento em beira de estrada. Deve estar lá, coitada, esperando o desfecho da sua história...

Ó, não considere essas bobagens. Eu, pessoalmente, detesto cobranças desse tipo. Se as faço é porque sou um pouco má, mas só um pouco. Não vá tomando isso como arma pra jogar um dia contra mim. [hahaha]

Zeus vai jogar um raio bem na sua cabeça por seu impropério.

Vixe, isso ficou parecendo uma praga... Pera aí, é uma praga! [hahahaha]

Tchau, cheiros e inté!

Bbel disse...

seu blog é "xouuuuu"!!!
[Eu não li nada que vc escreveu, eu também não escrevi nada lá no meu,só quero que vc passe lá porque é misto ser assim... Ah, deixa um comentário, tá?
E não se espante, caso encontrar esse mesmo comentário por aí, é que sou moderna e sei usar as teclas ctrl+c e ctrl+v.]

"xau"

Bbel disse...

Nãoconseguiresistiramaldade...hehehehe

Bebel disse...

E cada vez a verificação de palavras vai ficando mais complicada... Onde será que vai parar?

É a última, prometo! Vou mesmo dormir. Juvenal vai colocar um filme e fazer pipoquinha... Quem resiste? A pipoquinha?! Os dois!

Cheiros, meu amigo querido!

Barata Voadora disse...

Entre um clique e outro me flagrei aqui, sem palavras ante aos teus textos. Extasiada... Tomei a liberdade de fazer um link pra não perder suas palavras de vista... Beijo e naftalina!

Bbel disse...

Em terras esquecidas por Deus ainda existem parteiras como a Nega Dita, e o ofício repassado a quem se achega, tenha a idade que tiver. Por falar nisso, já viu o filme “Regras da Vida”? Se não viu, veja, é bárbaro.

Ei, mas esta sujeita de dez anos é muito precoce... [rs] Quanto discernimento sobre divindades e os auxiliares do Cafute. Cruz credo! A cabrita só tem mesmo 10 anos? Amadurecimento em vista do sofrimento, só pode ser isso. Coisas de terras ressequidas e esquecidas, de vida dura, com o chão batido. Ui.
Vale acrescentar que este é um dos seus contos que mais aprecio.

Fiquei encantada com sua visita, visse?

Cheiros,

Ana disse...

Tomara mesmo que continue! Curti demais!

Chico disse...

Oi Jaderson... claro que lembro!

muito bem escrito o conto. gostei do ritmo, da pontuação, do vocabulário... embora nunca tenha gostado da vida agreste hahahh

depois te adiciono lá no orkut pra nos avisarmos de atualizações

abs

Salguod disse...

gostei do conto.Você escreve muito bem.

Heloisa Aline disse...

Jaderson, sou jornalista, tenho uma assessoria de comunicação, e viciada em jornais assino todos por precisaõ e gosto. Hoje, pela primeira vez, me animei a ler o Seu blog/flog. E me deparei com parte do seu post. Guardei o jornal para entrar mais tarde. E, agora, o fiz. Goste demais! Parabéns, vou ficar freguesa! Abr e vá em frente...
Heloisa Aline