26 de julho de 2006

O manto sagrado

Em tempos remotos, nas longínquas montanhas de uma terra desconhecida, havia dois reinos: os acroftalmos, de visão perfeita e apurada, e os disoftalmos, todos afetados por uma espécie de síndrome de Dalton que lhes distorcia a percepção das cores. Ambos os povos descendiam de um único patriarca: o rei Arqueus, que tinha o olho direito perfeito e o olho esquerdo afetado pela disfunção.
Os dois reinos viviam em guerra, pois seus reis eram incapazes de chegar a um consenso quanto a uma antiga discórdia: qual a cor do manto sagrado do rei Arqueus? Para os acroftalmos, era roxa; para os disoftalmos, azul. Metade da população dos dois lados já havia sido dizimada na infindável guerra. Certo dia, naquela que seria a última batalha, os reis irascíveis digladiavam-se com furor, numa sucessão de urros – roxo, azul, roxo, azul -, quando pela estrada já tingida do rubro e espesso sangue, passou um velho viajante cego. Os reis interromperam o confronto e resolveram consultar o velho:
- Ei, velho! Segure este manto e diga-nos: é roxo ou azul?
O velho pegou o tecido, tateou-o por instantes, cheirou-o, na vã esperança de que isto pudesse lhe trazer alguma resposta. Depois de meditar, respondeu serenamente:
- Roxo, azul... pouco importa. É macio! Muito macio...
Os reis entreolharam-se envergonhados com suas brutalidades e simultaneamente exclamaram:
- É macio!
Estava selada a paz entre os dois reinos. O velho fora nomeado conselheiro e, durante anos, toda a região prosperou.
O menino de boa visão, por exemplo, trapaceava seu amigo daltônico:
- Aquela menina de vestido rosa quer seu beijo.
Lá ia o daltônico, feliz da vida, esticando os beiços para a moça de laranja e recebendo, em troca, uma medonha careta. Depois o amigo matreiro dizia:
- A de rosa, não a de laranja!
E o casal jovem se enamorava quando o rapaz dizia para a moça:
- Como são lindos os seus olhos verdes!
Tímida, a moça cochichava em seu ouvido:
- São azuis...
- Azuis, verdes... pouco importa. São lindos!
Mas eis que num dia escuro e nublado, o velho conselheiro faleceu. Todos formaram um longo cortejo acompanhando os reis, que carregavam o esquife. Quando chegaram à cova, o rei acroftalmo sugeriu ao outro:
- Cubramos nosso bom velho com o manto roxo de nosso antepassado!
- Sim, cubramos! Mas com o manto azul.
Reacendeu-se assim a discórdia. A guerra fora novamente declarada. Após alguns meses de duras batalhas, os dois povos chegaram ao completo extermínio. Nem as mulheres e crianças foram poupadas. Absortos em seu injustificável ódio recíproco, os reis e seus súditos estavam alheios a quão macio era o manto sagrado.

25 de julho de 2006

Nega Dita

A morte de meu pai

Quando eu era menina, foi Nega Dita quem cuidou de mim. Mamãe morreu naquele dia de céu preto e tempestade, no meio do parto. Dizem que enquanto a gentarada piruetava de contentamento e a terra saciava sua sede de monstro agreste, papai corria doido pelo descampado, erguendo os braços e suplicando a Deus que lhe metesse um raio na fronte. Não era ruim o cabra, mas depois daquele dia a cabeça nunca mais voltou a funcionar direito. Primeiro tentou me matar, quando eu somava um ano e dias. Depois, quando amocinhei, ele usou meu corpo casto pra saciar seu desejo. Era natal. Requentei a buchada e deixei-a lá, sobre a mesa. As luzes piscavam bonito na árvore de natal. Verde; amarelo; azul; adormeci. Ele chegou encachaçado. Chamava Luzia, era o nome de mamãe. Agarrou-me, beijou meu cangote e, sorrindo um sorriso abestado, sussurrou com demência:
- Senti uma saudade dos diabos!
Nega Dita sempre me dizia que sou minha mãe cuspida. O homem, trêmulo de vontades, puxou-me pra cama, implorando:
- Vem, Luzia, vem me fazer teu homem mais uma vez.
E eu fiz. Não tive prazer algum. Entanto não quis roubar-lhe a ilusão de estar amando mamãe. Além do mais, sabia que sua vida corria pra ribanceira perpétua da morte. Era coisa de dias, talvez semanas. Quando papai murchava dentro de mim, já principiava a roncar. Dormiu duro feito pedra. No outro dia, acordei com a gritaria do lado de fora. Lá estava o homem, pendurado na árvore do quintal, enforcado com o fio das luzes de natal.
À tarde, vieram os tios. Pediram-me o lençol que fora de mamãe, pra carregar o cadáver e com ele ser aterrado. Disseram que faria bem ao defunto. O lençol, guardava-o dobrado inúmeras vezes no fundo do armário, esperançosa de que assim o aroma de mamãe não escapasse pelos ares, desejoso que devia de estar pra se libertar deste mundo cruento, conquistando horizontes. O lençol, cheirava-o de leve pra não gastar o cheiro, toda vez que Dita, com olhos de adeus, ia à cidade comprar ervas pro cachimbo.
Caminhamos léguas. Eu, Dita, tios, primos. Escorria-me pelo rosto uma lágrima, até o queixo. Dita, com o dedo, apanhou-a. Fez-me lamber.
- Não sirva ao diabo champanha em taça de cristal. Não dê de beber a essa terra maldita. Ela quer sugar sua seiva, consumir sua vida.
Carcarás, reis negros ultrajando o azul celeste, acompanhavam o séquito, por demais ouriçados com o cheiro de papai já podre. Ao lado de mamãe, a cova - só ansiedades - aguardava, que nem assunzinho miúdo escancarando o bico pra mãe lhe prover nutrimento. Enquanto os tios aterravam o corpo, eu observava. Ajoelhada, cruz nas mãos, finquei-a com ódio na terra. A parentada foi partindo. A ladainha se dissolvendo, cada vez mais distante. Restamos eu e Dita, apenas. Uni as mãos franzinas pra orar por papai. Dita repreendeu-me, austera. Separando minhas mãos, disse:
- Ele não acudirá. A gente fez toda essa miséria, a gente que sobreviva com ela.
E assim sucedeu. Ele não acudiu.