A morte de meu pai
Quando eu era menina, foi Nega Dita quem cuidou de mim. Mamãe morreu naquele dia de céu preto e tempestade, no meio do parto. Dizem que enquanto a gentarada piruetava de contentamento e a terra saciava sua sede de monstro agreste, papai corria doido pelo descampado, erguendo os braços e suplicando a Deus que lhe metesse um raio na fronte. Não era ruim o cabra, mas depois daquele dia a cabeça nunca mais voltou a funcionar direito. Primeiro tentou me matar, quando eu somava um ano e dias. Depois, quando amocinhei, ele usou meu corpo casto pra saciar seu desejo. Era natal. Requentei a buchada e deixei-a lá, sobre a mesa. As luzes piscavam bonito na árvore de natal. Verde; amarelo; azul; adormeci. Ele chegou encachaçado. Chamava Luzia, era o nome de mamãe. Agarrou-me, beijou meu cangote e, sorrindo um sorriso abestado, sussurrou com demência:
- Senti uma saudade dos diabos!
Nega Dita sempre me dizia que sou minha mãe cuspida. O homem, trêmulo de vontades, puxou-me pra cama, implorando:
- Vem, Luzia, vem me fazer teu homem mais uma vez.
E eu fiz. Não tive prazer algum. Entanto não quis roubar-lhe a ilusão de estar amando mamãe. Além do mais, sabia que sua vida corria pra ribanceira perpétua da morte. Era coisa de dias, talvez semanas. Quando papai murchava dentro de mim, já principiava a roncar. Dormiu duro feito pedra. No outro dia, acordei com a gritaria do lado de fora. Lá estava o homem, pendurado na árvore do quintal, enforcado com o fio das luzes de natal.
À tarde, vieram os tios. Pediram-me o lençol que fora de mamãe, pra carregar o cadáver e com ele ser aterrado. Disseram que faria bem ao defunto. O lençol, guardava-o dobrado inúmeras vezes no fundo do armário, esperançosa de que assim o aroma de mamãe não escapasse pelos ares, desejoso que devia de estar pra se libertar deste mundo cruento, conquistando horizontes. O lençol, cheirava-o de leve pra não gastar o cheiro, toda vez que Dita, com olhos de adeus, ia à cidade comprar ervas pro cachimbo.
Caminhamos léguas. Eu, Dita, tios, primos. Escorria-me pelo rosto uma lágrima, até o queixo. Dita, com o dedo, apanhou-a. Fez-me lamber.
- Não sirva ao diabo champanha em taça de cristal. Não dê de beber a essa terra maldita. Ela quer sugar sua seiva, consumir sua vida.
Carcarás, reis negros ultrajando o azul celeste, acompanhavam o séquito, por demais ouriçados com o cheiro de papai já podre. Ao lado de mamãe, a cova - só ansiedades - aguardava, que nem assunzinho miúdo escancarando o bico pra mãe lhe prover nutrimento. Enquanto os tios aterravam o corpo, eu observava. Ajoelhada, cruz nas mãos, finquei-a com ódio na terra. A parentada foi partindo. A ladainha se dissolvendo, cada vez mais distante. Restamos eu e Dita, apenas. Uni as mãos franzinas pra orar por papai. Dita repreendeu-me, austera. Separando minhas mãos, disse:
- Ele não acudirá. A gente fez toda essa miséria, a gente que sobreviva com ela.
E assim sucedeu. Ele não acudiu.
Uma lição
Dita era a melhor parteira das cercanias. Eu, sua ajudante. Desde os dez. Um dia, saímos cedinho e caminhamos longas distâncias para atender uma mulher prenha. Vivia com seu homem, a quilômetros de nossa vila. Quando chegamos à casa de pau-a-pique, ventava um bafo quente daqueles de dia mau. Parecia o coisa-ruim fungando em nosso cangote. As roupas brancas balançando no varal, secas fazia tempo, já encardidas pela terra que subia. E carne podre. Tudo empestado de moscas e um fedor horrendo de carne podre. Dita, com sua mão preta e gordinha de austeridade e carinho, de pai e mãe, refreou-me:
- Espere aqui fora, menina!
Lá foi ela, porta adentro, embrenhar-se na escuridão do que se assemelhava à ante-sala do inferno. Depois apareceu na porta:
- Menina, venha cá conhecer o que é o homem!
Entrei. Os objetos revirados e os dois – marido e mulher – agarrados e esburacados de bala. E assim começou a lição:
- Sente o cheiro? Vê a carne decadente? Somos feitos da mesma carne. E os homens que dispararam? Nossa alma é igual à deles. Corpo e alma de gente.
Naquele dia não vomitei, pois a barriga era só vazio. Nada havia além da bílis amarga. Hoje também não vomitaria, mas só porque já me habituei a resistir à hostilidade do mundo. Hostilidade do sol, fincando diariamente suas unhas de fogo em nossa pele rachada; hostilidade da terra, que também sofre hostilidade do sol e reage, recusando-se a prover-nos frutos suculentos; hostilidade do homem, que recebendo por legado apenas sol e terra hostis, nada tem a oferecer em troca, senão também hostilidade.
Voltamos em silêncio. Dita, com seus passos determinados. Eu, sisuda, absorta em meus pensamentos. Já perto da vila, paramos no Monte do Beato, um local sagrado, segundo reza a lenda local. Dita queria descansar e fumar sua erva cheirosa. Muitos anos antes, naquele local, o frei fundador de nossa vila teria atingido a iluminação divina. E naquele dia, no mesmo local, eu teria uma das mais valiosas lições da velha Dita. Ela sentou-se aos pés da estátua do frei e acendeu seu cachimbo. Logo a ventania forte espalhou o odor da erva perfumosa, odor de mistério profundo, espécie de cura para os males da alma.
- Mãe?
- Sim?
- Por que fazemos isso?
- Isso o quê?
- Está vendo aquele amontoado de gente lá embaixo? Quantos não foi você quem trouxe para a desgraça? E quantos ainda traremos, arrancando-os dos braços aconchegantes de Deus, como fôssemos anjos negros? E os homens que mataram o casal? Não serão eles os verdadeiros anjos, salvando essa gente de toda essa miséria?
- Braços aconchegantes? Pra que tanta certeza, menina? Não pense que encontrará do outro lado coisa muito melhor que moscas, carcarás e terra seca. Se for melhor que aqui, sorte a nossa. Se não, evitamos a decepção.
Levantou-se e deu uns bofetes no vestido, para espantar a poeira. Depois escarrou nos pés da estátua, tentando tirar da boca o gosto amargo do fim do fumo. Olhou-me e disse:
- Vamos.
(...continua mais, eu acho...)