14 de abril de 2007

wu wei

Sempre que o sábio ancião da vila caminhava pelas tortuosas trilhas das montanhas rumo à capital, um som singelo reconfortava-o. Deveras, o caminho tornava-se menos penoso para seu corpo retesado e sua débil ossatura. Era o flaustista. Sentado à beira da mais alta rocha de toda a cadeia de montanhas, empunhava o instrumento e extraía-lhe o som. A doce lamúria inebriava toda a natureza, que curvava-se com reverência ante o músico. Diz-se que até mesmo os tigres e outras feras bestiais transmudavam-se em dóceis criaturas.
Um dia porém, o silêncio assombrou a alma do velho. Não havia melodia alguma. Apenas os ruídos do vento nas árvores, das feras, das águas revoltas de um riacho ao longe. A natureza toda parecia inconsolável sem a sagrada música. O velho avistou o músico no rochedo e foi ao seu encontro. A flauta abandonada no chão. Aos prantos, o flautista parecia determinado a atirar-se no profundo penhasco. O velho indagou:
- Porque nos condenas desta forma, calando a voz de Deus na terra?
- Mestre, eu não posso mais... Durante todos esses anos, persegui a melodia perfeita, aquela que abarcasse todo o universo, do vasto mistério das estrelas à pequenez insondável do grão de areia. Falhei, mestre.
O mestre sorriu e respondeu:
- Agiste como o pássaro que, encantado com a luz do sol, decide em vão alcançá-lo.
- Não compreendo...
- Acalma-te. Regozija-te no Silêncio. O Silêncio é a semente de todo Som. É a fonte de onde jorram torrentes de notas. Ele é o útero de todas as músicas já inventadas e também daquelas por inventar. O Silêncio é o Deus não-manifesto da música, assim como o Branco o é para a pintura. Aprende a ouvir o Silêncio e terás todas as melodias perfeitas que desejares.
Assim, silenciou-se mais uma flauta e mais um grande homem adentrou às inescrutáveis maravilhas do Silêncio.

11 comentários:

blogspot.com disse...

Que bonito!

Anne Louise disse...

Oi,Jaderson
Adorei suas histórias,cheia de emoção,de sensibilidade....voltarei para ler mais.
Se quiser me visitar,vou adorar e talvez até link seu Blog para não esquecer de vir aqui.
Bjs

FSF disse...

muito legal Jaderson. vocabul[ario rico como sempre, e mais um texto carregado de mensagem
abra'co!
(teclado americano... tsc tsc)

essa terra disse...

Poderia haver uma árvore, e um final de tarde. Messiaen incorporaria o som dos pássaros, nessa busca por uma melodia perfeita (?). Turangalila

Altiere Dias disse...

Gostei de seu blog... parece que o silêncio, a visão clara... Saturados. Tenho texto falando sobre o silêncio, se possível, olhe lá no meu blog.

abç

renata disse...

É isso carissimo, "o silencio e semente de todo som"!!! adorei teu blog, alias imaginação (fértil) a uma estilistica que dá um ritmo gostoso à leitura...
abraços
renata

Rafael Zart disse...

Muito bom.

Isaac Rehl disse...

Não existe uma regra determinante que nos ajude a reconhecer uma obra de arte aprioristicamente; se podemos reconhecê-la, é por causa do impacto íntimo que nos arrebata, um pouco ascese, um pouco vislumbre. Ao ler este prosema, senti no meu espírito a presença da arte.

Natalie Cristine. disse...

"Acalma-te. Regozija-te no Silêncio. O Silêncio é a semente de todo Som."

Fiz silêncio pra te ouvir, Jaderson. Sem dúvida escutei o mais belo som.

Marcelo Mafra disse...

Parabéns pelo texto, ficou bem redigido e envolvente!

Gleison Gomes disse...

Parabéns, muito boa escrito.
Veja o meu blog depois http://escritosobreascoisas.blogspot.com/