31 de janeiro de 2008

Roda da Existência

Fui um menino feliz. Não apenas pelo privilégio de ter tido bons brinquedos, bons amigos, bons irmãos. Lembro-me folheando revistas científicas – como gostava de observar fotos de planetas, estrelas, galáxias. Hoje penso ter sido este outro grande privilégio: viver num tempo em que, a despeito da fome, da miséria, das armas nucleares, o homem usou sua inteligência para enviar ao espaço sondas e telescópios. Assim, como um menino que observa a bela silhueta de uma mulher pela fechadura, podemos espreitar um ínfimo pedaço de nosso vasto universo. Tudo bem, quisera pudéssemos abrir a porta, declarar o amor platônico – não sem antes contemplar atentamente cada detalhe daquele perfeito corpo fêmeo – e, quem sabe, até receber um sorriso a Mona Lisa, de cantos de lábios. Porém, a fechadura é o máximo a que nosso nível atual de consciência permite-nos chegar em termos de compreensão do Universo. Excelente! Antes pouco que nada!
E se em alguns anos, numa demonstração de implacável fúria, a Natureza varresse quase completamente o gênero humano da face da Terra? Não por vingança pelos maus tratos que Lhe impuseram aqueles que, supostamente, são seus filhos mais inteligentes, mas apenas cumprindo seu ciclo na roda da existência. Há tempos de criar; há tempos de destruir. Terremotos, maremotos, erupções vulcânicas, todos tão intensos, que pouco restaria de nossa aparentemente inabalável e sólida cultura, forjada ao longo de tantos séculos. Aviões, arranha-céus, estradas: tudo engolido pela Natureza.
Mas e se, alheios a calamidades de tais proporções, sobrevivessem três vilarejos remotos em locais de grande altitude, digamos, da América, Europa e Ásia? A geração sobrevivente narraria aos seus filhos, em volta de fogueiras, os grandes feitos dos homens de seu tempo: as viagens espaciais, as grandes curas da medicina, as extraordinárias construções da engenharia. As crianças, num misto de perplexidade e desolação por nunca terem viajado de avião, ouviriam atentamente, acreditando. Mas esses homens contadores de histórias – nobres de coração, porém ignaros – não perpetuariam a tradição técnico-científica que hoje conhecemos. Assim, junto com nossos arranha-céus, ruiriam também, por exemplo, o teorema de Pitágoras, a penicilina, a fórmula de Einstein etc. Aí reside a maior de todas as calamidades – não os prédios que vieram abaixo ou as vacinas que ficaram soterradas – mas a impossibilidade de as gerações vindouras construírem prédios iguais ou desenvolverem as mesmas vacinas por inúmeros séculos.
Os netos dos sobreviventes ouviriam de seus pais as histórias com a mesma perplexidade, porém dando menos crédito. Talvez até comentassem entre eles:
- Acredito que os homens tivessem grandes telescópios, mas duvido que o tal do Neil Armstrong realmente tenha pisado na lua.
Assim seguiriam os netos, bisnetos, tatarenetos, de tal forma que a história cederia espaço cada vez mais à lenda. Dois ou três séculos após o grande cataclisma, quando os três vilarejos já tivessem gerado pequenos povoados num mundo repleto de densas florestas, os homens desenhariam em suas cavernas os principais momentos de suas “lendas” sobre homens-deuses voadores. Alguns séculos mais tarde, os povoados do oeste da Ásia e leste europeu encontrar-se-iam, travando sangrentas batalhas. Depois, tendo sido compreendida a língua de seus rivais, os vitoriosos ficariam surpresos ao constatar a nítida semelhança entre suas lendas.
O tempo flui, “novas” descobertas são feitas, novas guerras declaradas, um homem é pregado na cruz, pessoas são queimadas na fogueira, a arquitetura floresce, a ciência nasce, um novo continente e um novo povoado são descobertos. Mais alguns séculos e, no novo continente, um homem admira as fotos de uma linda e remota galáxia. Raciocina:
- Que momento único estou vivendo! Quantos homens do passado puderam ver uma galáxia com tamanha perfeição? E quantos no futuro ainda poderão?
Então, o homem digita em seu computador uma história que assim começa:
“Fui um menino feliz.”

21 comentários:

Anônimo disse...

j
l
b
e
t
a
l
m
a

Vanessa Ingrid disse...

Muito bom mesmo! Já pensei nesta possibilidade milhares de vezes, e não me parece tão improvável, pois, Oras! Os antigos egípcios construíram suas monstruosas pirâmides, e nós criaturas de inteligencia muito superior (tá!), não conseguimos refazê-las, como, pois nem mesmo um guincho gigantesco poderia mover uma pedra de toneladas... e etc...etc...etc... Talvez um dia cheguemos a ser como eles...
Só uma pergunta... Já leu Erich Von Däniken?
Bjos

Anônimo disse...

www.aquartaparte.blogspot.com

William Calixto disse...

Não possso deixar de dizer: Os textos deste blog são ótimos. Parabéns! Gostaria de escrever da forma forma que vocês.
Um abraço!

FCE - Brasil disse...

Olá Jaderson,

Parabéns pelo Blog e pelos textos!
Estamos te convidando para visitar a mostra que homenageia o escritor mexicano Alfonso Reyes no Instituto Cervantes. A mostra que começa hoje, 28 de maio de 2008, conta com debate sobre a vida e obra do escritor mexicano, que morreu em 1959, com a participação de Alicia Reyes, neta do escritor e diretora da Capilla Alfonsina na cidade do México. A mostra reúne 71 fotografias do escritor, 18 manuscritos e documentos e 26 livros do autor, além de contar com material audiovisual do homenageado.

Esperamos sua visista na mostra ou em nossa livraria. www.fcebrasil.blogspot.com

Abraços.

Alexandre boure disse...

O mundo nunca foi tão ficcional como hoje. A realidade supera a ficção ex: 11 de Setembro, Tsunami no Indico(300mil mortos)... A fantasia esta se aproximando desmistificando o mito e se tornando orgânica e possível.

Sou novíssimo como blogueiro é um meio de promover meu livro que sai para junho, se Deus quiser!
O blog de vocês é uma belezinha se quiser conhecer alguns textos fresquinhos eu os espero.

Bel_la_Dona disse...

Lembrei de você e vim aqui matar um pouco a saudade...

Um cheiro bem grande,

Wilzen R. Filho disse...

E aê mano, massa teu texto cara, tem fundamento se pensando que isto parte de uma concepção pessoal quanto ao... curso da vida (cíclo?). Viajo nesse tipo de escrita reflexiva que dá espaço para compreensões múltiplas em significado tanto objetivo quanto subjetivo. Falow!
http://minhaliteraturablog.blogspot.com

danlokao disse...

Muito intrigante o que voce comentou....
jah me peguei varias vezes pensando nisso mas sem conseguir passar para o papel..

Lunaris disse...

Fiquei fã, do outro lado do Mundo :)

lilian almeida disse...

ADOREI SEU BLOG T+ VOU VOLTAR SEMPRE T++ BJO :)

Bruno disse...

Amigo do dia 27 de outubro,

Passo aqui para pedir-lhe que continue a escrever e deixar um abraço. Saiba que estou morando na Croacia e que mes que vem mudo-me para Coimbra onde cursarei Relaçoes Internacionais. Tomara que saia de la um Eça de Queiros ou que vire um diplomata igual ao Guimarães Rosa...

Escreva, escreva e escreva!
grande abraço!
Bruno

Sayonara Salvioli disse...

Muito boa a sua narrativa: vasta, clara, expressiva!
Parabéns!

Hanna Regen disse...

inteligente. argumentativo. realista. com uam dose de ternura. parabéns. :)

Natália disse...

Mundano, profundo e exato.
Adorei!

Evimarcio Aguiar disse...

Muito bom!
Alto teor reflexivo...

Livros e mais livros... disse...

Belo texto!
Apesar de acreditar que a história não é linear, duvido que voltemos tanto assim no nosso desenvolvimento técnológico. Mas como metáfora da fragilidade das coisas que acreditamos ser sólidas é ótimo.
Lembra um pouco "Um conto para leibowitz" do Walter Miller que eu adoro.

Márcia Helena disse...

Estava eu a ler esse seu texto, pensando no livro que foi citado aí em cima, no último comentário. Vale a pena mesmo! Tem tudo a ver com esse texto, mas o título é "Um cântico para Leibowitz".
Quando fui comentar, encontrei essa citação.
Adorei seu texto, viu! Muito bom.
Gostei do seu blog e vou segui-lo.

http://sombranapenumbra.blogspot.com

Eduardo Lara Resende disse...

Ótimo texto! Convido-o a visitar http://pretextoselr.blogspot.com/

Abraço.

mattoso disse...

Hahah...genial mesmo... muito bom
estes textos são ótimos.. está de parabéns...

Lunna Maluna disse...

Adorei o texto...