14 de março de 2011

O velho

- Que estranho! Já está tão claro.
Estava mesmo. Seu velho despertador já não funcionava mais. Sentou-se à beira da cama e ensaiou um xingamento. Hesitou.
- Mas pra quê?
Realmente, para quê tantos horários? Naquele dia ele se deu ao luxo de não regar as rosas do jardim. Sua mulher não estava lá para repreendê-lo. Levantou-se lentamente. Não entrou no banheiro para se barbear, como de costume. Sequer escovou os dentes. Postou-se ereto ante o espelho redondo e enorme que ficava sob a escada.
- Meu velho pijama!
Sentiu-se feliz por estar com aquele pijama de flanela. Tão macio e estampado com listas cinzas.
- Téééééééé... - era a campainha.
Aquele pijama que sua mulher costurara dedicadamente, noites a fio, quando da crise de pneumonia.
- Téééééééé... Téééééééé.
- Não cheguei a agradecê-la. – pensava.
- Téééééééé... Téééééééé... Téééééééé!
- Mas que diabo!
Não se tratava exatamente do diabo. Era a jovem vizinha que morava do outro lado da rua. Usava o estonteante vestido vermelho de seda. Talvez nem fosse preciso espiar pelo olho-mágico. Aquele já conhecido perfume floral invadia a casa por todas as frestas, como a primeira brisa da primavera que vem anunciar o fim do longo e infértil inverno.
- Um momento!
- O senhor parece ocupado. Volto mais tarde...
- Não! Espere, por favor. Já vou abrir! – gritou com voz flácida, quase gaguejando.
Correu escada acima, arrancou seu pijama com furor, embolou o pijama no fundo da gaveta de baixo, vestiu seu jeans e seu suéter bordô que lhe davam uma aparência mais jovial. Escovou os dentes, barbeou-se, correu escada abaixo.
Porta. Chegara o momento de transpor o último obstáculo entre ele e o devaneio de um elixir para uma alma atormentada pela solidão. Abriu-a bem devagar, desejando conservar ao máximo o momento. Queria torná-lo menos fugaz do que fora sua própria vida.
- Mas...
Lá estava sua formosa vizinha, inalcançável, do outro lado da rua. Seus olhos idosos, embora cansados, quase arriscavam um pranto contido. Em meio à balbúrdia do trânsito, a voz da vizinha ecoava:
- Eu preciso muito de...
Um ônibus repleto de flores! Entre eles, o ônibus. O eterno farol da esquina fechado!
- Maldito ônibus! Do que ela precisa?
O farol era impiedoso.
- Meu Deus! Do que ela precisa? – gritava seu pensamento.
Seus olhos impacientes percorreram o letreiro da propaganda do ônibus:
- Mude de vida! Venha conhecer o paraíso. Pousada das Flores, em Rio Negro.
A foto de uma feliz família de branco, correndo pelo campo florido, prendera sua atenção. Pareceu-lhe tão etéreo, transcendental.
Quando o ônibus partiu e ele terminou de vislumbrar o paraíso, era tarde. A moça já havia entrado. Fechou a porta para o mundo e, cabisbaixo, voltou para a casa. A dúvida corroia sua existência. Sentou-se na cadeira de balanço e pôs-se a divagar.
- Ela é uma mulher solitária. Sua família mora muito longe. Queria minha companhia? Precisava de mim? Dos meus afetos, do meu amor... Tolice! Talvez precisasse de ajuda com o encanamento, como já aconteceu outras vezes. Mas ela nunca havia falado naquele tom de voz...
E assim dormiu. Profundamente. E sonhou. Estava de mãos dadas com sua esposa na Pousada das Flores. Ou lugar semelhante. Feliz. Muito feliz.
No outro dia, quando já estava claro, o despertador da jovem vizinha tocou. Horas depois, ela chorou. E regou zelosamente as rosas do jardim do vizinho.

3 comentários:

Litera Rock disse...

De mais!
Parabéns pelo blog!
Te convido a conhecer o http://literarock-rs.blogspot.com
Abç!

sidiney breguedo disse...

Belissímo conto, e o seu blog é muito original, parabéns!
http://www.breguedoartista.blogspot.com

http://www.infoenem.com.br disse...

Muito bom o post, muito bem escrito!!