20 de março de 2011

O axioma do milagre

I
     Nasci e cresci no seio de uma família laica. Meu pai, racional e cerebral como era, queria ver-me engenheiro. Minha escolha pela carreira jurídica talvez não lhe tenha agradado muito, porém não chegou a decepcioná-lo tanto quanto se eu tivesse escolhido o sacerdócio. Portanto, nunca fui incentivado a acreditar em milagres. E não acreditei até alguns meses atrás. Porém, um acontecimento insólito por mim vivenciado fez-me enxergar os milagres de outra forma. Não que eu tenha sido ungido com a graça religiosa e me tornado um devoto. Longe disso. Na verdade, formulei, modéstia à parte, um interessante axioma acerca do milagre. A graça ou a felicidade é um recurso limitado da existência humana, tal qual o é o dinheiro. Tu, caro leitor, já viste uma fonte ilimitada a jorrar moedas? Pois a graça, ao contrário do que as religiões querem que acreditemos, também não é infinita. Onde quer que vejas um homem saltitante de felicidade, não precisarás procurar muito para encontrar outro prostrado em desgraça. Isso ocorre porque, por força da natureza ou de alguma entidade maléfica, a felicidade foi arrancada da vida do segundo homem e entregue de presente ao primeiro.
     Era um inverno intenso, como há muito já não se via. O dia estava nublado e cinzento. Um chuvisco acentuava ainda mais o frio. Caminhava pela ruela estreita e deserta que levava ao prédio onde, na época, eu trabalhava. Aprazia-me caminhar por aquela alameda arborizada de paralelepípedos. Alguns prédios antigos e, principalmente, um pequeno antiquário despertavam minha atenção, como se me transportassem a um tempo em que não vivi, mas que, estranhamente, despertava um déjà-vu. Parei alguns instantes para admirar a vitrina da loja. Havia bússolas, um astrolábio, um gramofone, pincenês, cartolas, discos de vinil empoeirados, livros antigos - principalmente de ocultismo. De repente, após um forte safanão, um homem arrancou-me o paletó e seguiu correndo rua acima.
     - Deixe estar. Certamente esse homem pobre está congelando – pensei.
     Observei a vitrina por mais um tempo e, quando me virei para continuar a caminhada, uma senhora de cabeleira grisalha e desgrenhada estava paralisada diante de mim. Seus olhos acinzentados apresentavam a cor característica da catarata. Tentei desviar. Ela me agarrou pelo braço, arregalou bem os olhos e exclamou:
     - O que faz aqui? Veja o que fizeram comigo! Só enxergo vultos! Saia!
     Tratei de obedecer à velha insana. Desvencilhei-me e apertei o passo.
     Durante o trabalho, passei boas horas de frio sem meu paletó. Já voltando para a casa, o corpo sinalizava que uma forte gripe estava por vir. Decidi parar antes na farmácia. Um homem detrás do balcão trajava uma roupa preta e antiquada. Tinha uma aparência sombria – magricelo e curvado, olhos fundos, olheiras, queixo pontiagudo. Estranhei, uma vez que os farmacêuticos costumam utilizar trajes brancos. Solicitei ao homem que trouxesse meu antigripal predileto. Com uma fala pausada, quase hipnótica, ele me convenceu a levar outro medicamento, supostamente mais eficaz.
     - Tome esse. É muito melhor. Misture com água e beba à meia-noite. O vírus da gripe possui um ciclo e, nesse horário, encontra-se mais vulnerável.
     - Sim. Obrigado.
     Apesar da estranheza daquela conversa de ciclo de vírus, de alguma forma senti-me compelido a aceitar a sugestão.
     Chegando em casa, imediatamente minha esposa notou que minha aparência não era das melhores:
     - Oi, querido. Você está bem? Está pálido…
     - Gripe…
     Peguei um copo d’água e despejei o remédio. Era um pó efervescente. Liguei a televisão e me afundei no sofá. O relógio indicava onze horas e quarenta e sete minutos. Levei o copo à boca. Quando ia virando, lembrei-me do homem de preto. Tratava-se de um dilema existencial: porque eu, tão habituado a não acreditar em mistérios que fogem à explicação científica, haveria de acreditar que um remédio deixaria de surtir efeito se tomado treze minutos antes? Hesitei. Não queria carregar em minha consciência a prática de um ato de fé. Apelei então para um súbito estratagema: focaria minha atenção na televisão e fingiria ter-me esquecido do relógio. Depois, misteriosamente e exatamente à zero hora, perceberia o copo pesando em minha mão e tomaria o remédio. A solução ardilosa me pareceu adequada.
     Assistia a um documentário sobre a prática da conjuração na Idade Média. Divertiam-me as retrógradas e excêntricas crenças dos homens na idade das trevas. Vez ou outra, passeava os olhos pela sala e, inadvertidamente, acabava vendo o relógio. Pontualmente, lembrei-me do copo pesando em minha mão e tomei o remédio de uma só golada.
     Deitei-me e logo adormeci. Foi uma noite bastante conturbada, repleta de pesadelos. Os acontecimentos do dia anterior me assombravam. Na loja de antiguidades, a velha semi cega choramingava, aprisionada em uma gaiola gigante. O homem da farmácia usava cartola e pincenê e pronunciava palavras incompreensíveis que lia em um livro antigo. Uma fumaça descia, começava a se condensar e formava o espírito de meu pai, conjurado. Ele apresentava o semblante consternado e, quando ia dizer algo, despertei. Ouvi minha esposa na cozinha. O odor agradável do café chegava ao quarto. Aprontei-me para mais um dia de trabalho. Sentia-me muito melhor, sem dores no corpo. De fato, o remédio parecia, na falta de um termo mais adequado, milagroso. Minha esposa me aguardava na cozinha. Recebeu-me com sua ternura habitual:
     - Bom dia. Está melhorzinho?
     - …
     Estava afônico. Não conseguia emitir um único som. Era como se, no lugar das cordas vocais, houvesse apenas vazio. Gesticulava e apontava para o pescoço. Peguei uma caneta. Escrevi:
     Bom dia, meu amor. Estou bem melhor, mas afônico. Nada demais. Sintoma da gripe. Preciso ir porque estou atrasado. Te amo.
     Peguei o carro e parti. O dia estava ensolarado, mas o frio persistia. O rádio do carro começava a me irritar. Avançava de estação em estação sem encontrar música alguma que me agradasse. Então me chamou atenção uma rádio que anunciava uma entrevista com um homem que se dizia agraciado por Deus. As ladainhas sobre milagres aguçavam meu humor sobremaneira. Dizia a apresentadora:
     - Estamos aqui com o senhor Benedito, que veio nos contar uma história muito curiosa. Senhor Benedito, o que aconteceu?
     - Eu fui abençoado por um milagre. Há quase quarenta anos não falava nada! Eu era mudo! Hoje acordei e recuperei a voz! Voltei a falar!
     Demorei algum tempo para acreditar no que ouvia. Aquele homem exultante falava com a minha voz! O mesmo timbre, a mesma entonação! O tal Benedito fora agraciado com algo que não lhe pertencia. A graça de um é a desgraça de outro.

II
     Quando aprendi a ler, minha mãe me acordou no domingo e me disse:
     - Parabéns, meu filho! Agora você está pronto. Vamos.
     Penteou meu cabelo, vestiu-me com um terninho e me puxou pela mão.
     - Onde, mamãe?
     Ela nada respondeu. Saímos de casa apressados. Pensei que iríamos a uma banca de jornal, comprar alguns daqueles incríveis gibis que os meninos liam naquele tempo. Conduziu-me por um caminho tortuoso, por entre os becos e as imundas ruas de terra da viela onde morávamos. Chegamos finalmente ao sobrado, uma espécie de igreja improvisada. Lá meu pai era um pastor respeitado. Quando entramos, o lugar estava lotado. Como era o primeiro dia frio daquele outono, sentia-se o odor enclausurado daquela gente, uma mistura de roupa guardada por muito tempo com naftalina. Passamos por um corredor central, rumo ao púlpito que se localizava à frente do público. Conforme caminhávamos, os fiéis sussuravam incompreensíveis palavras de bênção.
     Meu pai, sisudo como sempre, aguardava-me com aquele livro preto que carregava pra baixo e pra cima. Eu alimentava um ódio secreto por aquele livro. Para mim, era ele quem roubava toda a atenção do meu pai, atenção que era minha por direito. O objetivo daquela inusitada visita era me iniciar à arte da pregação. Eu teria de ler trechos da bíblia enquanto meu pai faria sua tétrica dramatização. Minha apreensão se transmudava em pânico à medida que nos aproximávamos. Suava. Lá chegando, meu pai entregou-me o livro e apontou um versículo para leitura. Ora encarava a pequena multidão, ora a bíblia, ora os olhos irascíveis do meu pai. Mantive essa alternância por uns bons instantes, esperançoso de que a providência divina me socorresse. Mas não socorreu. Exausto física e emocionalmente, tentei dar início à leitura. Minha voz, contudo, foi engolida. Era como se, no lugar das cordas vocais, houvesse apenas um vácuo.
     Desse dia até hoje, quando escrevo este relato, transcorreram trinta e oito anos e alguns meses. Nesses quase quarenta anos permaneci no mais absoluto silêncio. Meu pai faleceu, desgostoso por não ter feito seu único filho pastor. Minha mãe perdeu parte da visão e da sanidade. E eu, sempre indiferente à veracidade ou não dos milagres, fui recentemente agraciado por um.
     Foi num dia frio de inverno que a metamorfose teve início. Caminhava por uma aprazível e arborizada rua de paralelepípedos, próxima ao centro da cidade. De repente, um antiquário prendeu minha atenção. Havia, dentre inúmeras peças antigas e empoeiradas, uma excelente coleção de discos de vinil. Entrei. Observava os discos de ópera, gênero pelo qual sempre tive predileção. Talvez essa fosse a principal ironia de minha vida: o mudo que sonhava ser cantor de ópera. De repente fui abordado por um homem, provavelmente dono do local. Era bastante educado e vestia roupas brancas.
     - Precisa de ajuda?
     Respondi em linguagem de sinais:
     - Não, obrigado. Estou apenas olhando os discos.
     Ao que ele retrucou, sorrindo discretamente:
     - Não, não me refiro aos discos. Refiro-me a isso – e apontou para o meu pescoço.
     Diante da expressão de espanto que devo ter feito, ele esclareceu. Afirmou que conhecia bem o meu problema e poderia me ajudar. Mas, para isso, eu teria de fazer algo sem questionar o porquê. Olhava seu rosto amigável e a bela capa do disco de ópera: Crepúsculo dos deuses, de Richard Wagner. Primeiro hesitei, depois assenti com a cabeça. Por fim, apertamos as mãos.
     No mesmo dia, à noite, comuniquei à minha mãe o pacto que fizera com o misterioso homem. Enfurecida, ela lançou objetos sobre mim, fazendo-me crer que a sanidade que lhe restava havía se esvaído por completo. Depois, mais calma, disse-me:
     - Olhe bem para os meus olhos, meu filho! Não existem milagres. A minha visão foi roubada por esse mesmo homem. Sei muito bem quem ele é. Você conseguirá conviver com essa decisão até o resto dos seus dias? Conseguirá deitar-se à noite sabendo que a sua voz pertence a outro homem?
     Deixei-a na sala com suas caraminholas. Preparei o despertador para o dia seguinte cedo, quando cumpriria minha parte do acordo. Quando já havia amanhecido, troquei minha roupa e escovei os dentes silenciosamente, a fim de evitar que minha mãe acordasse. Ao sair, ela já me aguardava do lado de fora.
     - Filho, se você vai fazer isso, a decisão é toda sua. Mas vou te acompanhar até lá. Quero uma última chance de dissuadí-lo dessa sandice.
     Ao que respondi com as mãos:
     - Se algum de nós não pode falar em sandice é a senhora.
     Enquanto ela falava, apertei o passo. Aos poucos ela foi ficando a uma distância suficiente para não atrapalhar minha ação. Dobrei a esquina e já conseguia avistar a rua do antiquário. Lá de cima, descia um homem tranquilamente. Conforme nos aproximávamos, uma certeza me invadia: o ato que estava prestes a praticar não iria prejudicá-lo. Ele parou diante da vitrine. Era chegado o momento. Corri, esbarrei no pobre desconhecido e arranquei seu paletó. Continuei em disparada. Ele não esboçou reação. Já na parte alta da ruela, avistei minha mãe conversando com ele. Felizmente ela não conseguira me impedir.
     Dobrei a esquina e entreguei o paletó ao homem do antiquário, conforme combinado na véspera.
     - Excelente! Amanhã receberás tua parte do acordo, senhor Benedito.
     Voltei para a casa à tardinha, após o trabalho. Estava extasiado com as possibilidades que o futuro me reservava. O caminho de volta parecia mais colorido e vívido do que nunca. Chegando em casa, minha mãe não me dirigia a palavra, visivelmente aborrecida. Fui para o quarto, coloquei um bom disco de ópera.
     Deitei-me e logo adormeci. Foi uma noite revigorante. Sonhei que o homem de branco do antiquário me conduzia por um corredor central, rumo ao palco de um majestoso teatro. À medida que passava, minha mãe, meu pai e todo o resto da plateia gritavam bravo! No palco, eu cantava Crepúsculo dos deuses a plenos pulmões. Antes dos aplausos finais, tocou o despertador. Ouvi minha mãe na cozinha. O cheiro do café invadia o quarto. Estava apreensivo. Se tivesse funcionado, quais seriam minhas primeiras palavras após quarenta anos de silêncio? Encontrei minha mãe na cozinha. Enchi os pulmões:
     - Mamãe, eu te amo!
     Ela mostrou grande decepção. Sentou-se e balançou a cabeça, como se dissesse não, desaprovando.
     Aborreci-me pela debilidade cada vez mais acentuada de minha mãe, mas não deixei que isso turvasse o glorioso momento. Recobrei o ânimo. Saí correndo pela rua, efusivo. Sorria, cumprimentava todo mundo. Num dado momento, isso não era suficiente para dar vazão à infinita felicidade que transbordava em meu peito. Comecei então a cantarolar trechos de todas as árias de ópera que me vinham à mente. Chegando a uma avenida mais movimentada, uma repórter se preparava para iniciar sua matéria sobre o trânsito. Ajoelhei-me diante dela e cantei. Ela sorriu e propôs uma entrevista.
     - É a primeira vez que encontro alguém tão feliz nessa avenida, nesse horário. Gostaria de nos conceder uma entrevista e contar sua história?
     - Claro! Com prazer!
     Então ela começou a entrevista:
     - Estamos aqui com o senhor Benedito, que veio nos contar uma história muito curiosa. Senhor Benedito, o que aconteceu?
     - Eu fui abençoado por um milagre. Há quase quarenta anos não falava nada! Eu era mudo! Hoje acordei e recuperei a voz! Voltei a falar!

14 de março de 2011

O velho

- Que estranho! Já está tão claro.
Estava mesmo. Seu velho despertador já não funcionava mais. Sentou-se à beira da cama e ensaiou um xingamento. Hesitou.
- Mas pra quê?
Realmente, para quê tantos horários? Naquele dia ele se deu ao luxo de não regar as rosas do jardim. Sua mulher não estava lá para repreendê-lo. Levantou-se lentamente. Não entrou no banheiro para se barbear, como de costume. Sequer escovou os dentes. Postou-se ereto ante o espelho redondo e enorme que ficava sob a escada.
- Meu velho pijama!
Sentiu-se feliz por estar com aquele pijama de flanela. Tão macio e estampado com listas cinzas.
- Téééééééé... - era a campainha.
Aquele pijama que sua mulher costurara dedicadamente, noites a fio, quando da crise de pneumonia.
- Téééééééé... Téééééééé.
- Não cheguei a agradecê-la. – pensava.
- Téééééééé... Téééééééé... Téééééééé!
- Mas que diabo!
Não se tratava exatamente do diabo. Era a jovem vizinha que morava do outro lado da rua. Usava o estonteante vestido vermelho de seda. Talvez nem fosse preciso espiar pelo olho-mágico. Aquele já conhecido perfume floral invadia a casa por todas as frestas, como a primeira brisa da primavera que vem anunciar o fim do longo e infértil inverno.
- Um momento!
- O senhor parece ocupado. Volto mais tarde...
- Não! Espere, por favor. Já vou abrir! – gritou com voz flácida, quase gaguejando.
Correu escada acima, arrancou seu pijama com furor, embolou o pijama no fundo da gaveta de baixo, vestiu seu jeans e seu suéter bordô que lhe davam uma aparência mais jovial. Escovou os dentes, barbeou-se, correu escada abaixo.
Porta. Chegara o momento de transpor o último obstáculo entre ele e o devaneio de um elixir para uma alma atormentada pela solidão. Abriu-a bem devagar, desejando conservar ao máximo o momento. Queria torná-lo menos fugaz do que fora sua própria vida.
- Mas...
Lá estava sua formosa vizinha, inalcançável, do outro lado da rua. Seus olhos idosos, embora cansados, quase arriscavam um pranto contido. Em meio à balbúrdia do trânsito, a voz da vizinha ecoava:
- Eu preciso muito de...
Um ônibus repleto de flores! Entre eles, o ônibus. O eterno farol da esquina fechado!
- Maldito ônibus! Do que ela precisa?
O farol era impiedoso.
- Meu Deus! Do que ela precisa? – gritava seu pensamento.
Seus olhos impacientes percorreram o letreiro da propaganda do ônibus:
- Mude de vida! Venha conhecer o paraíso. Pousada das Flores, em Rio Negro.
A foto de uma feliz família de branco, correndo pelo campo florido, prendera sua atenção. Pareceu-lhe tão etéreo, transcendental.
Quando o ônibus partiu e ele terminou de vislumbrar o paraíso, era tarde. A moça já havia entrado. Fechou a porta para o mundo e, cabisbaixo, voltou para a casa. A dúvida corroia sua existência. Sentou-se na cadeira de balanço e pôs-se a divagar.
- Ela é uma mulher solitária. Sua família mora muito longe. Queria minha companhia? Precisava de mim? Dos meus afetos, do meu amor... Tolice! Talvez precisasse de ajuda com o encanamento, como já aconteceu outras vezes. Mas ela nunca havia falado naquele tom de voz...
E assim dormiu. Profundamente. E sonhou. Estava de mãos dadas com sua esposa na Pousada das Flores. Ou lugar semelhante. Feliz. Muito feliz.
No outro dia, quando já estava claro, o despertador da jovem vizinha tocou. Horas depois, ela chorou. E regou zelosamente as rosas do jardim do vizinho.