21 de junho de 2012

Sobre lagos e pedras

Atravessou o denso bambuzal com o mesmo passo atarantado de sempre. Uma suave névoa ainda pairava sobre o lago, embora o sol, inutilmente, tentasse dissipá-la. Lá estava o mestre, de pé, ereto, em sua habitual postura de zhan zhuang. Não lhe agradava encontrá-lo nessa posição. Podia assim permanecer de alguns minutos a umas boas horas. Nessas ocasiões, ainda que não se desse conta, um ranço percorria todo o seu corpo. Normalmente vinha acompanhado de um pensamento:
- Tenho meus compromissos na cidade. Preciso trabalhar, dar satisfação ao meu chefe, enfrentar o trânsito. O mestre não!
Pigarreava, na vã esperança de tirá-lo do aparente torpor. Por vezes desistia e partia sem ser ouvido pelo mestre. Naquele dia fora diferente. O mestre caminhou ao seu encontro, fez com a cabeça um aceno quase imperceptível e lhe indicou um tronco de árvore para se sentar.
Afoito, ele foi logo despejando o palavrório:
- Mestre, tudo parece caótico! Vivo arrebatado por um turbilhão de emoções e pensamentos. Nem mesmo à noite, na cama, meu cérebro desliga.
- Apanhe essa minúscula pedrinha. Atire-a no lago.
Ele a pegou, porém, quando observou o lago, sentiu um quê de remorso em perturbar sua portentosa placidez. Com o olhar, o mestre o incitou a fazê-lo. Timidamente ele arremessou a pedrinha. Pensou que se tratasse de um daqueles métodos de aliviar as tensões lançando objetos ao longe. De fato sentia-se mais leve. Agradeceu ao mestre e partiu.
Na semana seguinte, retornou. Estava visivelmente mais agitado.
- Mestre, mestre! Naquele dia a sua técnica funcionou muito bem! Mas depois fiquei mais agitado! Faz de novo?
O mestre indicou-lhe outra pedra, dessa vez um pouco maior. Assim passaram-se alguns meses. A cada vez a pedra era maior. Certo dia, o mestre indicou-lhe um imenso bloco de granito. Ele tentou carregá-lo duas, três vezes. Sem sucesso. Resfolegando, queixou-se:
- Mestre, isso é inútil! Quanto maior a pedra, mais agitada fica a minha vida.
- Não! Quanto maior a pedra, mais agitado fica o lago...
Num repentino lampejo, ele compreendeu a metáfora. Permaneceu absorto em sua descoberta por alguns instantes. Em seguida retrucou:
- Mas e se ventar?
O mestre, já embrenhado no meio do bambuzal, redarguiu:
- Então torça para que o lago esteja congelado.

Um comentário:

Matheus disse...

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