4 de abril de 2012

Eia!

Aconteceu numa metrópole. Manifestantes se aglomeravam pelas ruas, vindos de todos os lados. Carregavam placas, faixas e cartazes. Comparada a outras passeatas, de longe aquela era a de maior vulto. Jovens, idosos, negros, brancos, heterossexuais, homossexuais, homens, mulheres, pobres, ricos. Todos marchavam vigorosamente, repletos de vontade.
Na praça central da cidade, onde se encontravam todas as avenidas por onde descia a turba, uma jornalista aguardava. Tentava distinguir alguma frase ou palavra nas placas distantes. Qual seria, afinal, a reivindicação? Redução de impostos? Incentivo à saúde, à educação?
Quando a multidão estava suficientemente próxima, a jornalista notou, estupefata: não havia nada escrito! Placas, faixas, cartazes: tudo em branco.
- Mas afinal, contra o que vocês estão protestando?
Como denominavam-se anarquistas, não havia líderes nem porta-vozes. Todos responderam em uníssono:
- Estamos simples e intransitivamente protestando. Sem objetos, sem complementos. Por que sempre se espera que a forma venha acompanhada de um conteúdo? Somos a sobrepujança da forma! Eia!
Eia era uma espécie de grito de guerra que todos pronunciavam com grandiloquência, após o que davam um soco ritmado no próprio peito.
A jornalista retrucou:
- Meus caros, a forma sem conteúdo é estéril.
Foi o tempo de terminar a frase para todo o país acompanhar ao vivo o seu linchamento em praça pública. Por fim, todas as famílias desligaram os televisores e gritaram:
- Eia!