21 de julho de 2012

Inescrutável

I
O pescador trespassou o corpinho da minhoca com o anzol pontiagudo. Ela se contorceu por alguns instantes, mas, por fim, acabou superando a dor. Depois arremessou-a na água. Um mundo fabuloso se descortinava perante seus olhos. Na escuridão dos túneis subterrâneos, ela sempre sonhara com universos paralelos. Porém, em sua imaginaçãozinha de minhoca, eram universos de terra. E os habitantes desses universos eram, em essência, minhocas. Modificadas, evoluídas, mais inteligentes; mas minhocas. O mundo aquático era estarrecedor. Nem mesmo o Julio Verne dos anelídeos teria obtido êxito em descrevê-lo. As milhares de cores inebriavam-na. Os seres, repletos de escamas prateadas, encantavam-na. Até que um deles se aproximou. Escancarou ferozmente a bocarra repleta de dentes. Ela berrou:
- Ei! O que estás fazendo?
- Ora bolas! Estou preparando a mordida para te devorar.
- Não faças isso, nobre ser aquático. Não percebes a silhueta horrenda do monstro a te espreitar? Assim que me abocanhares, ele te puxa pra fora da água com seu fio mágico.
Na falta de mãos, a pobre minhoquinha indicava com os olhos assustados a direção do pescador.
- Fio mágico? Não enxergo nada! Pra fora da água? Não existe fora da água! O mundo todo é água. Água é tudo o que há. Estás tentando me ludibriar.
Dito isso, deu a mordida fatal.

II
Sentiu um puxão tão violento que nem mesmo na mais forte das correntes marítimas suas singelas nadadeiras teriam ficado tão doloridas. Na boca, a dor lancinante, além de sangue, muito sangue. Contorceu-se por alguns instantes, mas, por fim, conseguiu superar a dor. Um mundo fabuloso se descortinava perante seus pequeninos olhos esbugalhados. Estava mergulhado em um mundo incrivelmente diáfano. Seria aquilo tudo água? Mas que tipo de água menos espessa seria aquela? Reverenciava com temor subserviente o ígneo e luminoso círculo suspenso. Não ousava encará-lo diretamente. Deliciava-se com o azul etéreo de pinceladas brancas. Enxergava muito além do que estava habituado. Aproximou-se dele um ser gigantesco que empunhava um ameaçador e pontiagudo objeto brilhante. Quando estava prestes a ter sua barriga aberta, gritou:
- Ei! O que estás fazendo?
- Ora! Estou preparando o facão para te destripar. 
- Não faças isso, nobre gigante! Assim que provares da minha carne, cairás enfermo. O meu veneno impregnará teu sangue de tal forma que, em poucas horas, sucumbirás moribundo. Enquanto teu corpo se desfizer em ruína, tua consciência será içada a um inescrutável e assombroso reino de mistério. 
- Reino de mistério? Estás tentando me ludibriar. Irei mostrar-te o reino do meu estômago!
Dito isso, efetuou o corte, expondo as vísceras do desgraçado peixinho.

III
A febre o atormentava. Suava. Tremia. Alucinava. A zelosa esposa transmudara-se num enorme peixe. Tudo escurecia. De repente, viu-se com a minhoca e o peixe. Os três entreolharam-se. A minhoca fitou o peixe sem rancor:
- Não disse?
O peixe desviou o olhar. Depois encarou o pescador amistosamente:
- Não disse?
Sorriram. Quando se deram conta, um mundo fabuloso se descortinava perante seus olhos. Era mais fascinante que o universo de terra, de água e de ar juntos. E se fundiram no inescrutável reino de mistério.