30 de agosto de 2012

Ampulheta

Chega uma hora na vida do homem - hora assombrosa e tensa como o átimo que divide o inspirar e o expirar - em que o pobre diabo se dá conta de que pouco ou nada realizou nos míseros instantes entre o seu aparecimento e o agora.
O arquiteto vasculha na memória todas as casas por ele já projetadas. Nada digno de lembrança.
O músico percebe que a sua maior realização foi o silêncio entre as tantas notas tortas.
O faraó agonizante imagina quão bela e imponente teria sido uma pirâmide maior que aquela que lhe oferece a sombra para um jazer menos penoso.
A revolta ingênua advém da absoluta impossibilidade de se extrair suco de uva espremendo-se uma laranja. Não se obtém o perpétuo a partir do transitório. Cada segundo gasto nessa horrenda e alucinada empreitada é mais um fio de areia que escorreu pela ampulheta.
Na vida, embora não se saiba o quanto de areia resta do lado de cima, sabe-se que indubitavelmente a areia já escorrida jamais retornará subindo. Na vida, não há desviver.