30 de agosto de 2012

Ampulheta

Chega uma hora na vida do homem - hora assombrosa e tensa como o átimo que divide o inspirar e o expirar - em que o pobre diabo se dá conta de que pouco ou nada realizou nos míseros instantes entre o seu aparecimento e o agora.
O arquiteto vasculha na memória todas as casas por ele já projetadas. Nada digno de lembrança.
O músico percebe que a sua maior realização foi o silêncio entre as tantas notas tortas.
O faraó agonizante imagina quão bela e imponente teria sido uma pirâmide maior que aquela que lhe oferece a sombra para um jazer menos penoso.
A revolta ingênua advém da absoluta impossibilidade de se extrair suco de uva espremendo-se uma laranja. Em outras palavras, não se obtém o perpétuo a partir do transitório. Cada segundo gasto nessa horrenda e alucinada empreitada é mais um fio de areia que escorreu pela ampulheta. Na vida, embora não se saiba o quanto de areia resta do lado de cima, sabe-se indubitavelmente que a areia que já caiu jamais retornará subindo.

23 de agosto de 2012

Esculpir-se

Na taverna, enquanto bebia seu chá, o ancião observava uma discussão infértil entre um lenhador e um entalhador.
- Eu, lenhador, que forneço tua matéria-prima. Sem minha força, tua arte mergulha no vazio abissal, deixa de existir.
Ao que redarguiu o entalhador:
- Prescindo de lenha. Sem o lenhador, esculpo miríades de seres maravilhosos nas próprias árvores. Minha matéria-prima é a madeira e quem a fornece-me é a natureza.
Terminaram de beber seu vinho e decidiram procurar o ancião para superar o impasse. Disse o lenhador:
- Ei, velho! Pelos teus trajes e pela tua longa barba nota-se que és um daqueles sábios que vivem nas montanhas. Diga-nos qual é o mais nobre ofício: lenhar ou entalhar?
- O lenhador nos traz a lenha, que espanta o frio dos rigorosos invernos. A ele devemos nossa existência e nossa permanência nestas terras gélidas. O lenhador é um destruidor. Porém, ao destruir, também cria as condições das quais dependemos para sobreviver. Assim, o destruir do lenhador encerra um princípio criador.
Bebeu mais um gole do chá e prosseguiu:
- Mas alguma coisa impele o ser humano a transcender o mero existir. É imperioso que essa existência seja plena de sentido. Eis então que surge a arte para fertilizar o solo do existir. O entalhador, com sua habilidade e precisão, nos brinda com belas esculturas. O entalhador é um criador. Porém, ao criar, sua nobre arte ressoa tão profundamente na consciência daquele que a aprecia que provoca uma transformação. Essa transformação nada mais é do que a destruição do velho e pior para ceder espaço ao novo e melhor. Portanto, o criar do entalhador encerra um princípio destruidor.
O ancião fez uma pausa para terminar o chá. Todos os presentes já se aglomeravam em silêncio ao seu redor, para ouvir o ensinamento. Então ele concluiu:
- Percebam então, meus nobres jovens, que não há superioridade entre vocês dois. Há apenas complementação. O lenhador cria destruindo e o entalhador destrói criando. O que um de vocês faz encerra a semente do princípio predominante da ação do outro.
Impressionado com a sabedoria do asceta, o entalhador perguntou:
- O que fazes o tempo todo no topo da montanha para acumular tal conhecimento?
- Nada além do que você e o lenhador fazem aqui embaixo. Porém, aqui embaixo vocês estão todos separados. Lá em cima eu sou, ao mesmo tempo, lenhador e entalhador. Aqui, o lenhador e o machado são entes distintos. Lá, sou lenhador e machado. Aqui, o entalhador e a madeira não se confundem. Lá, sou entalhador e madeira. Assim, dia após dia, com a força e a disciplina do lenhador, obtenho de mim mesmo minha matéria-prima, ofereço-a a mim mesmo e, com a destreza do entalhador, esculpo-me.