10 de janeiro de 2013

Crede, descrede

Moshe era um parlapatão viandante. Vivia de vila em vila na Europa medieval. Pode-se dizer que era um profissional da fé. Em outras palavras, tirava seu sustento das parcas esmolas dos fiéis. Carregava um grande pedaço de madeira bastante carcomida pelos cupins e, portanto, repleta de sulcos e reentrâncias. Na noite anterior à chegada em alguma vila, deixava a madeira embebida em uma espessa tintura avermelhada feita de água e especiarias orientais. No dia seguinte, pela manhã, limpava toda a parte externa da madeira, de forma a remover qualquer resquício da tintura. Porém, no interior quase oco, o líquido permanecia. Ao chegar à vila, Moshe se apresentava como o portador de parte da cruz que servira à crucificação de Cristo. A população logo se aglomerava. Ele começava então a pressionar fortemente a madeira úmida e podre, que expelia o líquido acumulado nos sulcos. Então exclamava:
- Vejam! O sangue de Cristo!
Assim juntava alguns tostões dos observadores, suficientes para garantir ao menos a subsistência, ainda que deplorável, até a próxima vila.
- Após passarem os ladrões e saqueadores, as vilas ficam mais pobres. Após minha passagem, as vilas estão mais ricas, com fé renovada. Não subtraio riquezas, doo-as. Meu nobre ofício não se trata, portanto, de ludibriar, mas sim de levar a esperança - e pensando assim, Moshe ia despistando sua culpa e se perdoando.
Um dia Moshe chegou à cidade murada onde se daria sua próxima encenação: Fidesburgo. A algumas centenas de metros do pórtico de entrada já era possível sentir a fedentina de carne pútreda trazida pela brisa que soprava em sentido contrário. Aquela brisa era uma mensageira aos visitantes inadvertidos, informando-lhes acerca da desgraça que recaía sobre a cidade: a grande peste.
Ultrapassado o pórtico, uma multidão nauseabunda de indigentes perebentos cercava o forasteiro, implorando por esmolas, comida ou ervas medicamentosas. Cadáveres eram empilhados pelos becos para incineração. Era sem sombra de dúvida a cidade mais devastada e horrenda que já visitara. Seria correto levar esperança àquela gente? Seria humano prolongar tamanha miséria? Tais dúvidas assaltaram Moshe por um instante. Hesitou. Depois pensou:
- Minha situação, afinal, não é tão melhor. Também preciso me alimentar - e prosseguiu.
Na área central da vila, conclamou os citadinos a observarem o milagre. Apressou-se devido a uma imensa tempestade que se aproximava. Desejava chegar à próxima estalagem fora da cidade o mais breve possível.
- Vejam! O sangue de Cristo!
A multidão de espectros cinzentos se ajoelhava comovida, erguendo as mãos aos céus. Náufragos da existência. O mar revolto de suas vidas insistia em tragá-los. Eles viam naquele pedaço de madeira uma boia onde podiam se agarrar. Havia de ser um alento divino, sinal de um futuro melhor.
A tempestade começava a desabar furiosamente. O povo decidiu arrancar das mãos de Moshe aquele que era seu único e precioso bem: a madeira podre. Passavam-na de mão em mão. Pretendiam guardá-la como relíquia na catedral, na esperança de que tal ato de fé pudesse mudar o destino da condenada Fidesburgo. No local baixo onde todos se encontravam, a água se acumulava e subia rapidamente. O dilúvio era iminente. Enquanto a água começava a ultrapassar sua cintura, Moshe pensou em como sua madeira, cada vez mais distante, lhe seria útil naquele momento. Não haveria boia melhor onde pudesse se agarrar. Começou a berrar:
- Devolvam-ma! Devolvam-ma! Não é da cruz de Cristo. É tudo encenação!
O povo, tão maltrapilho, crente e sedendo por salvação, jamais abriria mão da madeira podre. Era tarde. Com a água no pescoço, Moshe clamou aos céus que lhe surgisse sua própria Termutis para resgatá-lo das águas. Não surgiu. E antes de ser completamente tragado, um pensamento derradeiro o invadiu:
- Fazer acreditar é fácil, difícil é fazer desacreditar.
E desapareceu no turbilhão.

5 comentários:

Fernanda disse...

Adorei a mensagem final!
Realmente "fazer acreditar é fácil, difícil é fazer desacreditar."

andradepedro disse...

Extraordinário esse texto! Muito bom mesmo!!

MagnusWeb disse...
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Guilherme disse...

Olá, Jaderson. Meu nome é Guilherme Valquer, falo em nome da Global Editora. Gostaria de propôr uma parceria entre seu blog e a Editora. Não encontrei um e-mail para entrar em contato, por isso peço que me envie uma mensagem, por gentileza: guilherme@globaleditora.com.br

Obrigado.

Kyssila Melo Macêdo disse...

Muito bom o seu blog, tem muitas coisas legais.
http://kyssilamelo.blogspot.com