9 de novembro de 2015

Abismo do norte

Todos os dias o passarinho acordava, olhava os estragos que a chuva ou o vento do dia anterior havia causado no ninho. Enquanto a família ainda dormia, alçava voo. Era um voo curto, cauteloso, comedido. Não ousava distanciar-se demais. Buscava sempre a melhor palha para reparar o ninho. Quando voltava, era reconfortante ouvir o canto de júbilo dos seus. Ter um lar habitado por quem te ama e aguarda o teu retorno - eis uma provável definição de felicidade. Seu coraçãozinho de pássaro deveria estar pleno. Mas não estava.
Ao norte do seu caminho rotineiro estava o misterioso e temido Abismo. Pássaro algum jamais ousara mergulhar em suas profundezas. O que haveria lá? O paraíso? Um inferno repleto de terríveis predadores? O Vazio? Tudo isso passava pelo seu miolinho quando, a cada voo, desviava-se um pouco mais para o norte. Um dia, jogou-se na vasta escuridão do mistério. Sabia que poderia não voltar. Sabia que, se voltasse, poderia jamais encontrar outro ninho como aquele que habitara e que tanto o amara. Mas, acima de tudo, sabia que, para Conhecer, é preciso aventurar-se.