29 de outubro de 2016

Sobre conquistas

Afinal, quais são suas conquistas?
Aquelas vitórias do seu time de futebol? Já percebeu que você não aparece como jogador nos posters do seu time? Conquistas são aquelas promoções vendidas como grandes oportunidades?
Pense em você mesmo no passado. Volte para sua infância, sua adolescência. Quais eram seus medos mais profundos? Que feridas trazia abertas? Pense nos traumas, nas rejeições, no sofrimento. Quais eram as suas falhas? Como você tratava as pessoas à sua volta? Era afável, amável? Você era honesto? Ético? Nessa fase, cultivou vícios?
Transporte-se novamente para o presente. Pense naqueles medos, traumas, falhas, vícios. Quais deles já se foram? Quais deles permanecem até hoje te assombrando nos pesadelos?
Se nada tiver mudado, ainda é tempo de lutar por conquistas pessoais mais profundas.
Se a carga do passado já foi transmutada pelo fogo da gratidão e do perdão, se aquele passado sofrido já não é mais um fardo, eis aí sua bela coleção de medalhas e troféus. Eis suas grandes vitórias.

21 de outubro de 2016

O rei mascarado

Um dos reinos mais prósperos das terras do oriente era governado pelo famoso e justo rei mascarado. Ao completar quinze anos, o rei - então príncipe - decidira vestir permanentemente uma máscara dourada. Para justificar aos súditos e à família real o estranho hábito, dissera que, num dia de caça junto ao seu serviçal Sans, encontrara Bruma, a terrível e horrorosa feiticeira andarilha. A fim de recuperar sua beleza da juventude, Bruma teria lançado uma maldição sobre o príncipe. Assim, teria partido com a beleza do príncipe, deixando-o com a face deformada, horrenda e asquerosa. Como a pena para os serviçais da nobreza que incorressem em mentira era extremamente rígida e Sans confirmara toda a história, todos no reino acreditaram e lamentaram o triste destino do jovem herdeiro. Muitos anos se passaram e o príncipe assumiu o trono. Ninguém no reino - exceto o fiel Sans - conhecia a verdadeira face adulta do novo rei.
Desde o início do estratagema, a intenção do rei era circular livremente pelo reino entre os súditos, sem o risco de ser reconhecido. Muitas vezes, o rei deixava Sans como encarregado, saía pelos fundos do castelo e circulava pelas ruas disfarçado de faz-tudo.
Ora afiava os utensílios de cozinha das mulheres, ora consertava as rodas das carroças dos cocheiros, ora trocava as ferraduras dos cavalos. Nas semanas em que, como rei, tomava as maiores e mais importantes decisões pelo reino, tais como alianças com reinos vizinhos, declaração de guerra ou julgamentos complexos, dava preferência, como faz-tudo, aos serviços mais desprestigiados - limpeza de fossas e recolhimento de esterco nos estábulos.
Nesses dias, retornava impregnado do odor fétido dos afazeres mundanos. Por vezes, Sans perguntava com reverência:
- Majestade, porque fazes isso se podes usufruir permanentemente de todos os confortos do palácio real?
- Para conhecer, sem máscaras, quem é o rei e quem são os súditos.
- E porque não abres mão da máscara dourada?
- Que reino toleraria um rei limpador de fossas? A humildade deve ser resguardada como a maior das gemas de jade.

20 de junho de 2016

Do we trust?

A frase In god we trust impressa nas notas de dólares nada tem a ver com aquele Deus Sublime pertencente à esfera do sagrado. É só um lembrete subliminar ao portador daquele insignificante pedaço de papel de quem é o deus supremo nesse corrompido sistema de valores atual: o dinheiro. Quem, consciente ou inconscientemente, cair nesse conto do vigário, talvez receba até alguns agradinhos. Afinal, esse deus permite tantos prazeres - desde um brigadeiro a uma mansão numa ilha paradisíaca. O signatário desse perverso contrato que se prepare, no entanto, para dar sua contrapartida - a preciosa luz que habita seu coração. Assim constrói-se um exército de zumbis de corações gelados. Nesse deus eu não acredito. E você?

29 de fevereiro de 2016

Fragária

Já havia perdido a esperança de vê-la. Mas, após pedalar cerca de cinquenta quilômetros, depois de subidas intermináveis e extenuantes, descidas íngremes e pedregosas, lá estava ela. Linda, exuberante, selvagem, um quê de inexplorada. Parecia até um pouco desdenhosa, consciente dos seus irresistíveis encantos. Olhei todas as estradinhas de terra no entorno que atravessavam horizontes - ninguém. Somente eu desfrutava daquela edênica visão. Como poderia alcançá-la? Qual o caminho secreto para mergulhar em suas águas revigorantes? Essas e diversas outras perguntas eram em vão. Não havia mais tempo. A noite não tardaria e eu não estava disposto a enfrentar o breu daquelas paragens desconhecidas. Uma última espiada. Parti com indescritível vazio no peito, enquanto ouvia sua música silenciando. Segui resoluto. Diferentemente de Orfeu, sem olhar para trás.

Os últimos trinta quilômetros da jornada foram de reflexão, absorvendo aquela lição. Na vida é preciso desapego. É preciso convencer o menino acostumado com a pertença de carrinhos e piões de que a beleza genuína se dissolve quando pertencida. A beleza da cachoeira vem da água que se joga e despenca livremente. Talvez os homens verdadeiramente felizes sejam aqueles a quem a memória de um momento vivido em sua plenitude lhes basta. Talvez a felicidade seja contentar-se com o que foi e abandonar a imaginação do que poderia ter sido.