29 de fevereiro de 2016

Fragária

Já havia perdido a esperança de vê-la. Mas, após pedalar cerca de cinquenta quilômetros, depois de subidas intermináveis e extenuantes, descidas íngremes e pedregosas, lá estava ela. Linda, exuberante, selvagem, um quê de inexplorada. Parecia até um pouco desdenhosa, consciente dos seus irresistíveis encantos. Olhei todas as estradinhas de terra no entorno que atravessavam horizontes - ninguém. Somente eu desfrutava daquela edênica visão. Como poderia alcançá-la? Qual o caminho secreto para mergulhar em suas águas revigorantes? Essas e diversas outras perguntas eram em vão. Não havia mais tempo. A noite não tardaria e eu não estava disposto a enfrentar o breu daquelas paragens desconhecidas. Uma última espiada. Parti com indescritível vazio no peito, enquanto ouvia sua música silenciando. Segui resoluto. Diferentemente de Orfeu, sem olhar para trás.

Os últimos trinta quilômetros da jornada foram de reflexão, absorvendo aquela lição. Na vida é preciso desapego. É preciso convencer o menino acostumado com a pertença de carrinhos e piões de que a beleza genuína se dissolve quando pertencida. A beleza da cachoeira vem da água que se joga e despenca livremente. Talvez os homens verdadeiramente felizes sejam aqueles a quem a memória de um momento vivido em sua plenitude lhes basta. Talvez a felicidade seja contentar-se com o que foi e abandonar a imaginação do que poderia ter sido.