21 de maio de 2017

We are family

O mundo hoje possui uma casca tecnológica, fruto do avanço do intelecto humano. Isso é uma grande armadilha. Podemos ser levados a pensar que o modelo de civilização urbana - tão tecnicista, tão racionalista, tão cerebral - é sinônimo de avanço humano. Somos cerebralmente tão brilhantes ao ponto de termos construído fabulosas (e outras tantas terríveis) máquinas. Mandamos o homem à Lua! Fotografamos planetas distantes!  E ainda assim, crianças inocentes estão morrendo em guerras. Pessoas estão morrendo de fome e miséria extremas. 
No que avançamos realmente como seres humanos? No que falhamos?
Quando observo hoje nossa sociedade global, penso que acendemos tão somente nosso intelecto. Essa luminosidade deve ser levada a outros níveis. É preciso acender os corações. Se não fazemos isso, somos meros primatas de QI alto. 
Imaginem se pudéssemos transportar no tempo esse nosso modelo atual de sociedade para uma sociedade de hominídeos. Nessa sociedade, o propósito do macho e da fêmea não seria caçar e trazer comida à caverna para garantir a sobrevivência da família. Eles caçariam para acumular a carne dos animais e, dessa maneira, demonstrar poder perante outros indivíduos. É o mundo da escassez. Quando há acúmulo de um lado, inevitavelmente há falta em outro. A necessidade desenfreada de acúmulo no interior do indivíduo gera escassez de recursos fora. E a busca incessante pelos recursos externos gera escassez dentro - a família se vê privada de amor.
Numa sociedade ideal o primeiro compromisso de coração do indivíduo seria pela família. O amor no coração de um homem pertence à família. Não importam as conjunturas, tampouco as crises do mundo externo, muito menos a escalada egoica por poder e reconhecimento. Nosso mundo atual está muito aquém disso. Quantos não são aqueles dispostos a abandonar a família em nome das glórias de uma carreira brilhante? Nosso mundo valoriza isso. Nosso mundo não espera que os homens sejam bons pais e nutram seus filhos com amor e atenção. Nosso sistema atual seduz o indivíduo pelo desejo de glória, fama e poder. Assim, os homens escolhem a si mesmos em detrimento da família. Todo aquele amor, toda aquela atenção que poderiam ser investidos na família, têm seu propósito desviado.
Essa presença do pai no mundo de fora e a consequente ausência no seio da família traz desequilíbrios ao sistema familiar. Bert Hellinger, em sua brilhante teoria das constelações sistêmicas, aponta que outros membros do sistema familiar tentarão exercer esse papel, para cobrir a falta do pai. A razão desse desequilíbrio: a sedução do mundo. O homem moderno está seduzido pelo mundo e pela ideia estúpida de dominar o mundo. 
Notem como esse sistema é perverso e ilógico como o cão tentando alcançar o próprio rabo. A ausência do pai na vida do filho faz com que o filho, quando adulto, busque o pai no mundo. E qual a melhor forma de fazê-lo? Valorizando e buscando as mesmas coisas que o pai valorizou e buscou, quais sejam, glórias e acúmulos. A ausência do pai na infância é compensada pela repetição do pai na vida adulta. Assim procedendo, os netos sofrerão com a mesma ausência e por atração repetirão o mesmo padrão com os bisnetos e assim por diante. 
Quando quebraremos esse ciclo? Como? Quando, se é que conseguiremos, não arrisco opinar. O como é evidente: priorizando a família em todas as escolhas da vida, das mais irrelevantes às mais impactantes.

12 de fevereiro de 2017

Sobre controle

O notório doutor PHD, especialista em um daqueles assuntos da mais nobre irrelevância, respeitadíssimo, padecia de um mal muito grave: a dita infelicidade. Mas como? Tão rico, tão bajulado, tão poderoso. Quando encontrava o caseiro da mansão de campo, sentia-se injustiçado. Pobre, desdentado, mas feliz, profunda e insuportavelmente feliz. Como sorria o sujeito! Até que um dia, no auge da sua inveja, perguntou:
- Zé, de onde vem isso?
- Isso o quê, dotô?
- Essa felicidade.
Depois de gargalhar, respondeu:
- É que tem uma coisa mexendo aqui dentro, sabe? E não é o Zé que controla não. Se esse trem resolve parar, o Zé para junto.
O grande PHD pensou:
- Que perda de tempo! Eu aqui conversando com gente doida.
E enquanto retornava ao seu habitat, a grande cidade, templo das grandes misérias, poderia ter pensado nas nuvens que se acumulavam, formando uma grande tempestade, e no quanto isso estava fora do seu controle. E enquanto ouvia as notícias econômicas no rádio, poderia ter pensado em quanto essa grande ficção escravizante - a economia - estava além do seu controle, e que, do dia pra noite, poderia ser lançado à pobreza. Poderia ter pensado naquele grande mistério: uma coisa maravilhosamente viva pulsando em seu peito, completamente alheia à sua vontade.
Mas não pensou em nada disso.
Preferiu chegar em seu apartamento amplo e gélido, povoado pelas lembranças da ex-mulher, habitado pelo vazio doído e fantasmagórico dos filhos que lá foram felizes em outros tempos, e pensar nos próximos projetos irrelevantes, que não foram concretizados devido à parada cardíaca.

2 de fevereiro de 2017

Sobre fronteiras

Nasceu João. Na casinha branca e isolada do lugarejo perdido no interior. Diziam que a fronteira entre os dois países passava bem ali, no quintal da figueira. Um dia chega o moço do governo, cheio dos aparatos. Disse pro pai de João que calculou do jeito certo e que, na verdade, a fronteira atravessava a casa, cortando o quarto em dois.
- Esse menino barrigudo aí? Nasceu onde? Na sala? No quarto?
- Foi no quarto.  
- E a esposa desemprenhou foi onde? No meio da cama? Ou lado direito? Lado esquerdo?
- Foi no lado direito. 
- Então esse menino aí não é dos nossos não. Ele é da gente lá do norte. 
E sucedeu que, vinte anos mais tarde, os dois países entraram em guerra. Lá foi João, defender o país nortista, com seu sotaque nortista, com seu orgulho nortista, com suas bandeiras de um vermelho extremadamente nortista. E sucedeu que os nortistas sofreram a mais nortista das derrotas. No batalhão de João, nenhum sobrevivente.
Pobre João. Tivesse nascido na sala, estaria ele aqui, narrando suas grandes glórias sulistas.