7 de julho de 2017

Religar

Recentemente perdi uma tia bastante querida pela família. Além da dor da perda, havia também uma legítima preocupação coletiva em relação a como meu avô, em idade relativamente avançada, suportaria a perda da própria filha.
Durante o velório notei como meu querido avô estava enfrentando uma situação tão difícil com uma força descomunal. Essa resiliência era inteiramente advinda da fé. E que harmoniosa e pacificada oposição reside em seu caráter, sendo ele um ser humano tão suave - ora cuidando do seu belíssimo jardim, ora tocando seu saxofone, ora contando anedotas inocentes - e, ao mesmo tempo, tão forte. 
Meu querido avô é pastor de igreja. Como homem do campo, ele possui a verdadeira vocação para o pastoreio. Para ofício tão nobre, e infelizmente tão mal praticado hoje em dia, é preciso que se tenha uma grande virtude - a habilidade de falar direto do coração, despido de véus e máscaras. A sinceridade que vem do centro de um coração puro e esvaziado.
A grande dificuldade desse despir-se são os apelos e tentações que o mundo oferece. Cair em tais armadilhas torna o coração inacessível, pois gera, em um nível profundo da consciência, culpa. E a culpa escurece o coração.
Diferentemente de milhares de pessoas, sinto-me honrado por ser neto de um pastor, na acepção mais nobre do termo: aquele que pastoreia e que, através da fala do coração, mostra às pessoas a nobreza desse caminho que toma como referência o ideal.
Por falar em religião, penso que talvez o segredo da harmonia entre as diferentes religiões seja uma comparação a partir do igual também, não apenas do diferente. Quando um budista critica um cristão, pode estar traçando comparações parciais entre Buda e Jesus. Porém, esquece que, por trás de uma casca de "personagens", existe um ser humano que possui um elo profundo de vida - uma veneração, uma adoração, uma devoção - com uma ideia. 
O que para céticos e materialistas pode representar uma grande estupidez, para tantos outros pode significar a origem de uma incrível força de sustentação ao longo da vida. Os céticos e materialistas, é claro, questionarão isso. Essa é a maior de todas as armadilhas. A intensa rejeição do homem moderno pela religião torna-se rejeição pela possibilidade desse mesmo homem aliar-se ao sagrado, ao mundo ideal de Platão, à esfera de onde emanam as virtudes.
Qualquer sociedade sem vínculos com o ideal perde de vista a ética. Assim, como erva daninha, a corrupção se alastra. Como queremos nos libertar da corrupção se não temos, em nosso íntimo, compromisso com o glorioso mundo platônico das ideias? A ética (particularmente, mais ainda do que o conceito cunhado pelos antigos gregos, agrada-me o conceito de retidão da filosofia chinesa) só é possível na prática quando os indivíduos possuem como referência um ideal. 
É hora de começarmos a questionar mais seriamente por que o mundo está tão repleto de corrupção, violência, injustiça, desigualdade. Quando a referência se torna o dinheiro, o poder, os bens, as conquistas materiais, criamos um mundo com os problemas listados acima. Riqueza e prosperidade não são condenáveis, desde que não sejam um fim em si, porém mera consequência de uma vida desfrutada harmoniosamente. Quando a referência do ser humano, uma espécie de pacto de propósito de vida, se situa na esfera do sagrado, a vida se torna harmoniosa. 
Esse é (ou deveria ser) o profundo significado de qualquer religião - o religar-se com o mundo das ideias. Quando esse mundo volta a ser a referência, a corrupção desaparece, pois o exemplo buscado e exaustivamente perseguido é o exemplo da virtude, não da conquista material. Os seres se iluminam, a família se ilumina, a sociedade se ilumina. O contentamento brota e a violência naturalmente desaparece.
As religiões brigam devido à incapacidade de enxergar o comum em todas elas - esse vínculo, esse religar - com a esfera do sagrado. Pouco importa que nome atribuímos a isso. Pessoalmente, gosto muito de caminho (Tao). Ou, simples e magistralmente, o poético Eterno Céu Azul do tengriismo.
Vamos religar?

12 de fevereiro de 2017

Sobre controle

O notório doutor PHD, especialista em um daqueles assuntos da mais nobre irrelevância, respeitadíssimo, padecia de um mal muito grave: a dita infelicidade. Mas como? Tão rico, tão bajulado, tão poderoso. Quando encontrava o caseiro da mansão de campo, sentia-se injustiçado. Pobre, desdentado, mas feliz, profunda e insuportavelmente feliz. Como sorria o sujeito! Até que um dia, no auge da sua inveja, perguntou:
- Zé, de onde vem isso?
- Isso o quê, dotô?
- Essa felicidade.
Depois de gargalhar, respondeu:
- É que tem uma coisa mexendo aqui dentro, sabe? E não é o Zé que controla não. Se esse trem resolve parar, o Zé para junto.
O grande PHD pensou:
- Que perda de tempo! Eu aqui conversando com gente doida.
E enquanto retornava ao seu habitat, a grande cidade, templo das grandes misérias, poderia ter pensado nas nuvens que se acumulavam, formando uma grande tempestade, e no quanto isso estava fora do seu controle. E enquanto ouvia as notícias econômicas no rádio, poderia ter pensado em quanto essa grande ficção escravizante - a economia - estava além do seu controle, e que, do dia pra noite, poderia ser lançado à pobreza. Poderia ter pensado naquele grande mistério: uma coisa maravilhosamente viva pulsando em seu peito, completamente alheia à sua vontade.
Mas não pensou em nada disso.
Preferiu chegar em seu apartamento amplo e gélido, povoado pelas lembranças da ex-mulher, habitado pelo vazio doído e fantasmagórico dos filhos que lá foram felizes em outros tempos, e pensar nos próximos projetos irrelevantes, que não foram concretizados devido à parada cardíaca.

2 de fevereiro de 2017

Sobre fronteiras

Nasceu João. Na casinha branca e isolada do lugarejo perdido no interior. Diziam que a fronteira entre os dois países passava bem ali, no quintal da figueira. Um dia chega o moço do governo, cheio dos aparatos. Disse pro pai de João que calculou do jeito certo e que, na verdade, a fronteira atravessava a casa, cortando o quarto em dois.
- Esse menino barrigudo aí? Nasceu onde? Na sala? No quarto?
- Foi no quarto.  
- E a esposa desemprenhou foi onde? No meio da cama? Ou lado direito? Lado esquerdo?
- Foi no lado direito. 
- Então esse menino aí não é dos nossos não. Ele é da gente lá do norte. 
E sucedeu que, vinte anos mais tarde, os dois países entraram em guerra. Lá foi João, defender o país nortista, com seu sotaque nortista, com seu orgulho nortista, com suas bandeiras de um vermelho extremadamente nortista. E sucedeu que os nortistas sofreram a mais nortista das derrotas. No batalhão de João, nenhum sobrevivente.
Pobre João. Tivesse nascido na sala, estaria ele aqui, narrando suas grandes glórias sulistas.