12 de fevereiro de 2017

Sobre controle

O notório doutor PHD, especialista em um daqueles assuntos da mais nobre irrelevância, respeitadíssimo, padecia de um mal muito grave: a dita infelicidade. Mas como? Tão rico, tão bajulado, tão poderoso. Quando encontrava o caseiro da mansão de campo, sentia-se injustiçado. Pobre, desdentado, mas feliz, profunda e insuportavelmente feliz. Como sorria o sujeito! Até que um dia, no auge da sua inveja, perguntou:
- Zé, de onde vem isso?
- Isso o quê, dotô?
- Essa felicidade.
Depois de gargalhar, respondeu:
- É que tem uma coisa mexendo aqui dentro, sabe? E não é o Zé que controla não. Se esse trem resolve parar, o Zé para junto.
O grande PHD pensou:
- Que perda de tempo! Eu aqui conversando com gente doida.
E enquanto retornava ao seu habitat, a grande cidade, templo das grandes misérias, poderia ter pensado nas nuvens que se acumulavam, formando uma grande tempestade, e no quanto isso estava fora do seu controle. E enquanto ouvia as notícias econômicas no rádio, poderia ter pensado em quanto essa grande ficção escravizante - a economia - estava além do seu controle, e que, do dia pra noite, poderia ser lançado à pobreza. Poderia ter pensado naquele grande mistério: uma coisa maravilhosamente viva pulsando em seu peito, completamente alheia à sua vontade.
Mas não pensou em nada disso.
Preferiu chegar em seu apartamento amplo e gélido, povoado pelas lembranças da ex-mulher, habitado pelo vazio doído e fantasmagórico dos filhos que lá foram felizes em outros tempos, e pensar nos próximos projetos irrelevantes, que não foram concretizados devido à parada cardíaca.

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