2 de fevereiro de 2017

Sobre fronteiras

Nasceu João. Na casinha branca e isolada do lugarejo perdido no interior. Diziam que a fronteira entre os dois países passava bem ali, no quintal da figueira. Um dia chega o moço do governo, cheio dos aparatos. Disse pro pai de João que calculou do jeito certo e que, na verdade, a fronteira atravessava a casa, cortando o quarto em dois.
- Esse menino barrigudo aí? Nasceu onde? Na sala? No quarto?
- Foi no quarto.  
- E a esposa desemprenhou foi onde? No meio da cama? Ou lado direito? Lado esquerdo?
- Foi no lado direito. 
- Então esse menino aí não é dos nossos não. Ele é da gente lá do norte. 
E sucedeu que, vinte anos mais tarde, os dois países entraram em guerra. Lá foi João, defender o país nortista, com seu sotaque nortista, com seu orgulho nortista, com suas bandeiras de um vermelho extremadamente nortista. E sucedeu que os nortistas sofreram a mais nortista das derrotas. No batalhão de João, nenhum sobrevivente.
Pobre João. Tivesse nascido na sala, estaria ele aqui, narrando suas grandes glórias sulistas.

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