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4 de abril de 2012

Eia!

Aconteceu numa metrópole. Manifestantes se aglomeravam pelas ruas, vindos de todos os lados. Carregavam placas, faixas e cartazes. Comparada a outras passeatas, de longe aquela era a de maior vulto. Jovens, idosos, negros, brancos, heterossexuais, homossexuais, homens, mulheres, pobres, ricos. Todos marchavam vigorosamente, repletos de vontade.
Na praça central da cidade, onde se encontravam todas as avenidas por onde descia a turba, uma jornalista aguardava. Tentava distinguir alguma frase ou palavra nas placas distantes. Qual seria, afinal, a reivindicação? Redução de impostos? Incentivo à saúde, à educação?
Quando a multidão estava suficientemente próxima, a jornalista notou, estupefata: não havia nada escrito! Placas, faixas, cartazes: tudo em branco.
- Mas afinal, contra o que vocês estão protestando?
Como denominavam-se anarquistas, não havia líderes nem porta-vozes. Todos responderam em uníssono:
- Estamos simples e intransitivamente protestando. Sem objetos, sem complementos. Por que sempre se espera que a forma venha acompanhada de um conteúdo? Somos a sobrepujança da forma! Eia!
Eia era uma espécie de grito de guerra que todos pronunciavam com grandiloquência, após o que davam um soco ritmado no próprio peito.
A jornalista retrucou:
- Meus caros, a forma sem conteúdo é estéril.
Foi o tempo de terminar a frase para todo o país acompanhar ao vivo o seu linchamento em praça pública. Por fim, todas as famílias desligaram os televisores e gritaram:
- Eia!

20 de março de 2011

O axioma do milagre

I
     Nasci e cresci no seio de uma família laica. Meu pai, racional e cerebral como era, queria ver-me engenheiro. Minha escolha pela carreira jurídica talvez não lhe tenha agradado muito, porém não chegou a decepcioná-lo tanto quanto se eu tivesse escolhido o sacerdócio. Portanto, nunca fui incentivado a acreditar em milagres. E não acreditei até alguns meses atrás. Porém, um acontecimento insólito por mim vivenciado fez-me enxergar os milagres de outra forma. Não que eu tenha sido ungido com a graça religiosa e me tornado um devoto. Longe disso. Na verdade, formulei, modéstia à parte, um interessante axioma acerca do milagre. A graça ou a felicidade é um recurso limitado da existência humana, tal qual o é o dinheiro. Tu, caro leitor, já viste uma fonte ilimitada a jorrar moedas? Pois a graça, ao contrário do que as religiões querem que acreditemos, também não é infinita. Onde quer que vejas um homem saltitante de felicidade, não precisarás procurar muito para encontrar outro prostrado em desgraça. Isso ocorre porque, por força da natureza ou de alguma entidade maléfica, a felicidade foi arrancada da vida do segundo homem e entregue de presente ao primeiro.
     Era um inverno intenso, como há muito já não se via. O dia estava nublado e cinzento. Um chuvisco acentuava ainda mais o frio. Caminhava pela ruela estreita e deserta que levava ao prédio onde, na época, eu trabalhava. Aprazia-me caminhar por aquela alameda arborizada de paralelepípedos. Alguns prédios antigos e, principalmente, um pequeno antiquário despertavam minha atenção, como se me transportassem a um tempo em que não vivi, mas que, estranhamente, despertava um déjà-vu. Parei alguns instantes para admirar a vitrina da loja. Havia bússolas, um astrolábio, um gramofone, pincenês, cartolas, discos de vinil empoeirados, livros antigos - principalmente de ocultismo. De repente, após um forte safanão, um homem arrancou-me o paletó e seguiu correndo rua acima.
     - Deixe estar. Certamente esse homem pobre está congelando – pensei.
     Observei a vitrina por mais um tempo e, quando me virei para continuar a caminhada, uma senhora de cabeleira grisalha e desgrenhada estava paralisada diante de mim. Seus olhos acinzentados apresentavam a cor característica da catarata. Tentei desviar. Ela me agarrou pelo braço, arregalou bem os olhos e exclamou:
     - O que faz aqui? Veja o que fizeram comigo! Só enxergo vultos! Saia!
     Tratei de obedecer à velha insana. Desvencilhei-me e apertei o passo.
     Durante o trabalho, passei boas horas de frio sem meu paletó. Já voltando para a casa, o corpo sinalizava que uma forte gripe estava por vir. Decidi parar antes na farmácia. Um homem detrás do balcão trajava uma roupa preta e antiquada. Tinha uma aparência sombria – magricelo e curvado, olhos fundos, olheiras, queixo pontiagudo. Estranhei, uma vez que os farmacêuticos costumam utilizar trajes brancos. Solicitei ao homem que trouxesse meu antigripal predileto. Com uma fala pausada, quase hipnótica, ele me convenceu a levar outro medicamento, supostamente mais eficaz.
     - Tome esse. É muito melhor. Misture com água e beba à meia-noite. O vírus da gripe possui um ciclo e, nesse horário, encontra-se mais vulnerável.
     - Sim. Obrigado.
     Apesar da estranheza daquela conversa de ciclo de vírus, de alguma forma senti-me compelido a aceitar a sugestão.
     Chegando em casa, imediatamente minha esposa notou que minha aparência não era das melhores:
     - Oi, querido. Você está bem? Está pálido…
     - Gripe…
     Peguei um copo d’água e despejei o remédio. Era um pó efervescente. Liguei a televisão e me afundei no sofá. O relógio indicava onze horas e quarenta e sete minutos. Levei o copo à boca. Quando ia virando, lembrei-me do homem de preto. Tratava-se de um dilema existencial: porque eu, tão habituado a não acreditar em mistérios que fogem à explicação científica, haveria de acreditar que um remédio deixaria de surtir efeito se tomado treze minutos antes? Hesitei. Não queria carregar em minha consciência a prática de um ato de fé. Apelei então para um súbito estratagema: focaria minha atenção na televisão e fingiria ter-me esquecido do relógio. Depois, misteriosamente e exatamente à zero hora, perceberia o copo pesando em minha mão e tomaria o remédio. A solução ardilosa me pareceu adequada.
     Assistia a um documentário sobre a prática da conjuração na Idade Média. Divertiam-me as retrógradas e excêntricas crenças dos homens na idade das trevas. Vez ou outra, passeava os olhos pela sala e, inadvertidamente, acabava vendo o relógio. Pontualmente, lembrei-me do copo pesando em minha mão e tomei o remédio de uma só golada.
     Deitei-me e logo adormeci. Foi uma noite bastante conturbada, repleta de pesadelos. Os acontecimentos do dia anterior me assombravam. Na loja de antiguidades, a velha semi cega choramingava, aprisionada em uma gaiola gigante. O homem da farmácia usava cartola e pincenê e pronunciava palavras incompreensíveis que lia em um livro antigo. Uma fumaça descia, começava a se condensar e formava o espírito de meu pai, conjurado. Ele apresentava o semblante consternado e, quando ia dizer algo, despertei. Ouvi minha esposa na cozinha. O odor agradável do café chegava ao quarto. Aprontei-me para mais um dia de trabalho. Sentia-me muito melhor, sem dores no corpo. De fato, o remédio parecia, na falta de um termo mais adequado, milagroso. Minha esposa me aguardava na cozinha. Recebeu-me com sua ternura habitual:
     - Bom dia. Está melhorzinho?
     - …
     Estava afônico. Não conseguia emitir um único som. Era como se, no lugar das cordas vocais, houvesse apenas vazio. Gesticulava e apontava para o pescoço. Peguei uma caneta. Escrevi:
     Bom dia, meu amor. Estou bem melhor, mas afônico. Nada demais. Sintoma da gripe. Preciso ir porque estou atrasado. Te amo.
     Peguei o carro e parti. O dia estava ensolarado, mas o frio persistia. O rádio do carro começava a me irritar. Avançava de estação em estação sem encontrar música alguma que me agradasse. Então me chamou atenção uma rádio que anunciava uma entrevista com um homem que se dizia agraciado por Deus. As ladainhas sobre milagres aguçavam meu humor sobremaneira. Dizia a apresentadora:
     - Estamos aqui com o senhor Benedito, que veio nos contar uma história muito curiosa. Senhor Benedito, o que aconteceu?
     - Eu fui abençoado por um milagre. Há quase quarenta anos não falava nada! Eu era mudo! Hoje acordei e recuperei a voz! Voltei a falar!
     Demorei algum tempo para acreditar no que ouvia. Aquele homem exultante falava com a minha voz! O mesmo timbre, a mesma entonação! O tal Benedito fora agraciado com algo que não lhe pertencia. A graça de um é a desgraça de outro.

II
     Quando aprendi a ler, minha mãe me acordou no domingo e me disse:
     - Parabéns, meu filho! Agora você está pronto. Vamos.
     Penteou meu cabelo, vestiu-me com um terninho e me puxou pela mão.
     - Onde, mamãe?
     Ela nada respondeu. Saímos de casa apressados. Pensei que iríamos a uma banca de jornal, comprar alguns daqueles incríveis gibis que os meninos liam naquele tempo. Conduziu-me por um caminho tortuoso, por entre os becos e as imundas ruas de terra da viela onde morávamos. Chegamos finalmente ao sobrado, uma espécie de igreja improvisada. Lá meu pai era um pastor respeitado. Quando entramos, o lugar estava lotado. Como era o primeiro dia frio daquele outono, sentia-se o odor enclausurado daquela gente, uma mistura de roupa guardada por muito tempo com naftalina. Passamos por um corredor central, rumo ao púlpito que se localizava à frente do público. Conforme caminhávamos, os fiéis sussuravam incompreensíveis palavras de bênção.
     Meu pai, sisudo como sempre, aguardava-me com aquele livro preto que carregava pra baixo e pra cima. Eu alimentava um ódio secreto por aquele livro. Para mim, era ele quem roubava toda a atenção do meu pai, atenção que era minha por direito. O objetivo daquela inusitada visita era me iniciar à arte da pregação. Eu teria de ler trechos da bíblia enquanto meu pai faria sua tétrica dramatização. Minha apreensão se transmudava em pânico à medida que nos aproximávamos. Suava. Lá chegando, meu pai entregou-me o livro e apontou um versículo para leitura. Ora encarava a pequena multidão, ora a bíblia, ora os olhos irascíveis do meu pai. Mantive essa alternância por uns bons instantes, esperançoso de que a providência divina me socorresse. Mas não socorreu. Exausto física e emocionalmente, tentei dar início à leitura. Minha voz, contudo, foi engolida. Era como se, no lugar das cordas vocais, houvesse apenas um vácuo.
     Desse dia até hoje, quando escrevo este relato, transcorreram trinta e oito anos e alguns meses. Nesses quase quarenta anos permaneci no mais absoluto silêncio. Meu pai faleceu, desgostoso por não ter feito seu único filho pastor. Minha mãe perdeu parte da visão e da sanidade. E eu, sempre indiferente à veracidade ou não dos milagres, fui recentemente agraciado por um.
     Foi num dia frio de inverno que a metamorfose teve início. Caminhava por uma aprazível e arborizada rua de paralelepípedos, próxima ao centro da cidade. De repente, um antiquário prendeu minha atenção. Havia, dentre inúmeras peças antigas e empoeiradas, uma excelente coleção de discos de vinil. Entrei. Observava os discos de ópera, gênero pelo qual sempre tive predileção. Talvez essa fosse a principal ironia de minha vida: o mudo que sonhava ser cantor de ópera. De repente fui abordado por um homem, provavelmente dono do local. Era bastante educado e vestia roupas brancas.
     - Precisa de ajuda?
     Respondi em linguagem de sinais:
     - Não, obrigado. Estou apenas olhando os discos.
     Ao que ele retrucou, sorrindo discretamente:
     - Não, não me refiro aos discos. Refiro-me a isso – e apontou para o meu pescoço.
     Diante da expressão de espanto que devo ter feito, ele esclareceu. Afirmou que conhecia bem o meu problema e poderia me ajudar. Mas, para isso, eu teria de fazer algo sem questionar o porquê. Olhava seu rosto amigável e a bela capa do disco de ópera: Crepúsculo dos deuses, de Richard Wagner. Primeiro hesitei, depois assenti com a cabeça. Por fim, apertamos as mãos.
     No mesmo dia, à noite, comuniquei à minha mãe o pacto que fizera com o misterioso homem. Enfurecida, ela lançou objetos sobre mim, fazendo-me crer que a sanidade que lhe restava havía se esvaído por completo. Depois, mais calma, disse-me:
     - Olhe bem para os meus olhos, meu filho! Não existem milagres. A minha visão foi roubada por esse mesmo homem. Sei muito bem quem ele é. Você conseguirá conviver com essa decisão até o resto dos seus dias? Conseguirá deitar-se à noite sabendo que a sua voz pertence a outro homem?
     Deixei-a na sala com suas caraminholas. Preparei o despertador para o dia seguinte cedo, quando cumpriria minha parte do acordo. Quando já havia amanhecido, troquei minha roupa e escovei os dentes silenciosamente, a fim de evitar que minha mãe acordasse. Ao sair, ela já me aguardava do lado de fora.
     - Filho, se você vai fazer isso, a decisão é toda sua. Mas vou te acompanhar até lá. Quero uma última chance de dissuadí-lo dessa sandice.
     Ao que respondi com as mãos:
     - Se algum de nós não pode falar em sandice é a senhora.
     Enquanto ela falava, apertei o passo. Aos poucos ela foi ficando a uma distância suficiente para não atrapalhar minha ação. Dobrei a esquina e já conseguia avistar a rua do antiquário. Lá de cima, descia um homem tranquilamente. Conforme nos aproximávamos, uma certeza me invadia: o ato que estava prestes a praticar não iria prejudicá-lo. Ele parou diante da vitrine. Era chegado o momento. Corri, esbarrei no pobre desconhecido e arranquei seu paletó. Continuei em disparada. Ele não esboçou reação. Já na parte alta da ruela, avistei minha mãe conversando com ele. Felizmente ela não conseguira me impedir.
     Dobrei a esquina e entreguei o paletó ao homem do antiquário, conforme combinado na véspera.
     - Excelente! Amanhã receberás tua parte do acordo, senhor Benedito.
     Voltei para a casa à tardinha, após o trabalho. Estava extasiado com as possibilidades que o futuro me reservava. O caminho de volta parecia mais colorido e vívido do que nunca. Chegando em casa, minha mãe não me dirigia a palavra, visivelmente aborrecida. Fui para o quarto, coloquei um bom disco de ópera.
     Deitei-me e logo adormeci. Foi uma noite revigorante. Sonhei que o homem de branco do antiquário me conduzia por um corredor central, rumo ao palco de um majestoso teatro. À medida que passava, minha mãe, meu pai e todo o resto da plateia gritavam bravo! No palco, eu cantava Crepúsculo dos deuses a plenos pulmões. Antes dos aplausos finais, tocou o despertador. Ouvi minha mãe na cozinha. O cheiro do café invadia o quarto. Estava apreensivo. Se tivesse funcionado, quais seriam minhas primeiras palavras após quarenta anos de silêncio? Encontrei minha mãe na cozinha. Enchi os pulmões:
     - Mamãe, eu te amo!
     Ela mostrou grande decepção. Sentou-se e balançou a cabeça, como se dissesse não, desaprovando.
     Aborreci-me pela debilidade cada vez mais acentuada de minha mãe, mas não deixei que isso turvasse o glorioso momento. Recobrei o ânimo. Saí correndo pela rua, efusivo. Sorria, cumprimentava todo mundo. Num dado momento, isso não era suficiente para dar vazão à infinita felicidade que transbordava em meu peito. Comecei então a cantarolar trechos de todas as árias de ópera que me vinham à mente. Chegando a uma avenida mais movimentada, uma repórter se preparava para iniciar sua matéria sobre o trânsito. Ajoelhei-me diante dela e cantei. Ela sorriu e propôs uma entrevista.
     - É a primeira vez que encontro alguém tão feliz nessa avenida, nesse horário. Gostaria de nos conceder uma entrevista e contar sua história?
     - Claro! Com prazer!
     Então ela começou a entrevista:
     - Estamos aqui com o senhor Benedito, que veio nos contar uma história muito curiosa. Senhor Benedito, o que aconteceu?
     - Eu fui abençoado por um milagre. Há quase quarenta anos não falava nada! Eu era mudo! Hoje acordei e recuperei a voz! Voltei a falar!

14 de março de 2011

O velho

- Que estranho! Já está tão claro.
Estava mesmo. Seu velho despertador já não funcionava mais. Sentou-se à beira da cama e ensaiou um xingamento. Hesitou.
- Mas pra quê?
Realmente, para quê tantos horários? Naquele dia ele se deu ao luxo de não regar as rosas do jardim. Sua mulher não estava lá para repreendê-lo. Levantou-se lentamente. Não entrou no banheiro para se barbear, como de costume. Sequer escovou os dentes. Postou-se ereto ante o espelho redondo e enorme que ficava sob a escada.
- Meu velho pijama!
Sentiu-se feliz por estar com aquele pijama de flanela. Tão macio e estampado com listas cinzas.
- Téééééééé... - era a campainha.
Aquele pijama que sua mulher costurara dedicadamente, noites a fio, quando da crise de pneumonia.
- Téééééééé... Téééééééé.
- Não cheguei a agradecê-la. – pensava.
- Téééééééé... Téééééééé... Téééééééé!
- Mas que diabo!
Não se tratava exatamente do diabo. Era a jovem vizinha que morava do outro lado da rua. Usava o estonteante vestido vermelho de seda. Talvez nem fosse preciso espiar pelo olho-mágico. Aquele já conhecido perfume floral invadia a casa por todas as frestas, como a primeira brisa da primavera que vem anunciar o fim do longo e infértil inverno.
- Um momento!
- O senhor parece ocupado. Volto mais tarde...
- Não! Espere, por favor. Já vou abrir! – gritou com voz flácida, quase gaguejando.
Correu escada acima, arrancou seu pijama com furor, embolou o pijama no fundo da gaveta de baixo, vestiu seu jeans e seu suéter bordô que lhe davam uma aparência mais jovial. Escovou os dentes, barbeou-se, correu escada abaixo.
Porta. Chegara o momento de transpor o último obstáculo entre ele e o devaneio de um elixir para uma alma atormentada pela solidão. Abriu-a bem devagar, desejando conservar ao máximo o momento. Queria torná-lo menos fugaz do que fora sua própria vida.
- Mas...
Lá estava sua formosa vizinha, inalcançável, do outro lado da rua. Seus olhos idosos, embora cansados, quase arriscavam um pranto contido. Em meio à balbúrdia do trânsito, a voz da vizinha ecoava:
- Eu preciso muito de...
Um ônibus repleto de flores! Entre eles, o ônibus. O eterno farol da esquina fechado!
- Maldito ônibus! Do que ela precisa?
O farol era impiedoso.
- Meu Deus! Do que ela precisa? – gritava seu pensamento.
Seus olhos impacientes percorreram o letreiro da propaganda do ônibus:
- Mude de vida! Venha conhecer o paraíso. Pousada das Flores, em Rio Negro.
A foto de uma feliz família de branco, correndo pelo campo florido, prendera sua atenção. Pareceu-lhe tão etéreo, transcendental.
Quando o ônibus partiu e ele terminou de vislumbrar o paraíso, era tarde. A moça já havia entrado. Fechou a porta para o mundo e, cabisbaixo, voltou para a casa. A dúvida corroia sua existência. Sentou-se na cadeira de balanço e pôs-se a divagar.
- Ela é uma mulher solitária. Sua família mora muito longe. Queria minha companhia? Precisava de mim? Dos meus afetos, do meu amor... Tolice! Talvez precisasse de ajuda com o encanamento, como já aconteceu outras vezes. Mas ela nunca havia falado naquele tom de voz...
E assim dormiu. Profundamente. E sonhou. Estava de mãos dadas com sua esposa na Pousada das Flores. Ou lugar semelhante. Feliz. Muito feliz.
No outro dia, quando já estava claro, o despertador da jovem vizinha tocou. Horas depois, ela chorou. E regou zelosamente as rosas do jardim do vizinho.

29 de agosto de 2010

Puzzle

Edifício Vita Felice. O nome incomodava os condôminos, já que não eram felizes de fato.
No térreo morava o zelador, Zé. Depressivo, solitário, sempre inebriado de cachaça.
1º andar: Dante, estudante órfão, e a madrasta surda, Inaudita Senson. Ele, carente, não tinha ninguém com quem conversar. Ela vivia com a cabeça nos crochês.
2 andar: o médico, Doutor Kury Tudor, e sua poodle Stephanie. Precisando se concentrar nos estudos, sempre se irritava com Stephanie e seus latidos agudos, estridentes.
3º andar: mais ringue do que lar, ali se confrontavam, todo santo dia, Escan Teio de Campos, fanático por futebol, e Joaquina Névola, a esposa fanática por novelas. Ele sempre perdia o embate e o jogo.
4º andar: o percussionista, Ubiratan Bör, e a esposa hipocondríaca, Dolores Chagas. Ela se queixava de que a vibração dos tambores lhe causava palpitações e lesões nos tímpanos.

Quando mudaram o nome do prédio para Vita Triste, chega a notícia: Joaquina fora contemplada numa promoção. Ganhou um carro zero quilômetros. Não imaginava, porém, quem chegaria dirigindo o carro: Reinini Gianeccaldo, famoso galã de novelas.

Apaixonada, Joaquina botou o marido para fora e o ator para dentro. Escan foi morar no 1o. andar com Dante. Hoje conversam muito e, juntos, assistem aos jogos. Sem quarto, a madrasta Inaudita partiu. Então, o músico Ubiratan, querendo trocar a hipocondríaca pela surda, sugeriu ao Dr. Kury que abrigasse sua esposa Dolores no 2o. andar. Agora Ubiratan toca seus tambores sem incomodar Inaudita, enquanto o médico, solícito, dissuade Dolores de que ela seja doente terminal. Mas não foi fácil: Dolores, preocupada com pulgas, raiva e outras doenças, impôs: só moro com o médico se a cadela for embora. Assim, a cadela foi dada para Zé, que, feliz com a companhia, largou a bebida. Hoje, apesar do nome Triste Vita, todos no prédio vivem profundamente felizes.

25 de julho de 2006

Nega Dita

A morte de meu pai

Quando eu era menina, foi Nega Dita quem cuidou de mim. Mamãe morreu naquele dia de céu preto e tempestade, no meio do parto. Dizem que enquanto a gentarada piruetava de contentamento e a terra saciava sua sede de monstro agreste, papai corria doido pelo descampado, erguendo os braços e suplicando a Deus que lhe metesse um raio na fronte. Não era ruim o cabra, mas depois daquele dia a cabeça nunca mais voltou a funcionar direito. Primeiro tentou me matar, quando eu somava um ano e dias. Depois, quando amocinhei, ele usou meu corpo casto pra saciar seu desejo. Era natal. Requentei a buchada e deixei-a lá, sobre a mesa. As luzes piscavam bonito na árvore de natal. Verde; amarelo; azul; adormeci. Ele chegou encachaçado. Chamava Luzia, era o nome de mamãe. Agarrou-me, beijou meu cangote e, sorrindo um sorriso abestado, sussurrou com demência:
- Senti uma saudade dos diabos!
Nega Dita sempre me dizia que sou minha mãe cuspida. O homem, trêmulo de vontades, puxou-me pra cama, implorando:
- Vem, Luzia, vem me fazer teu homem mais uma vez.
E eu fiz. Não tive prazer algum. Entanto não quis roubar-lhe a ilusão de estar amando mamãe. Além do mais, sabia que sua vida corria pra ribanceira perpétua da morte. Era coisa de dias, talvez semanas. Quando papai murchava dentro de mim, já principiava a roncar. Dormiu duro feito pedra. No outro dia, acordei com a gritaria do lado de fora. Lá estava o homem, pendurado na árvore do quintal, enforcado com o fio das luzes de natal.
À tarde, vieram os tios. Pediram-me o lençol que fora de mamãe, pra carregar o cadáver e com ele ser aterrado. Disseram que faria bem ao defunto. O lençol, guardava-o dobrado inúmeras vezes no fundo do armário, esperançosa de que assim o aroma de mamãe não escapasse pelos ares, desejoso que devia de estar pra se libertar deste mundo cruento, conquistando horizontes. O lençol, cheirava-o de leve pra não gastar o cheiro, toda vez que Dita, com olhos de adeus, ia à cidade comprar ervas pro cachimbo.
Caminhamos léguas. Eu, Dita, tios, primos. Escorria-me pelo rosto uma lágrima, até o queixo. Dita, com o dedo, apanhou-a. Fez-me lamber.
- Não sirva ao diabo champanha em taça de cristal. Não dê de beber a essa terra maldita. Ela quer sugar sua seiva, consumir sua vida.
Carcarás, reis negros ultrajando o azul celeste, acompanhavam o séquito, por demais ouriçados com o cheiro de papai já podre. Ao lado de mamãe, a cova - só ansiedades - aguardava, que nem assunzinho miúdo escancarando o bico pra mãe lhe prover nutrimento. Enquanto os tios aterravam o corpo, eu observava. Ajoelhada, cruz nas mãos, finquei-a com ódio na terra. A parentada foi partindo. A ladainha se dissolvendo, cada vez mais distante. Restamos eu e Dita, apenas. Uni as mãos franzinas pra orar por papai. Dita repreendeu-me, austera. Separando minhas mãos, disse:
- Ele não acudirá. A gente fez toda essa miséria, a gente que sobreviva com ela.
E assim sucedeu. Ele não acudiu.

4 de julho de 2005

Cadeira de balanço

Sempre quis ter uma cadeira de balanço para relaxar nas tardes excessivamente quentes de verão e ficar na varanda vendo a moça de vestido decotado passando sorridente pela rua de terra batida e cheiro de mato novo que cresce desregradamente como deveriam ter sido meus setenta e três anos de vida vividos parcial e mediocremente no antigo emprego de contador no escritório empoeirado e escuro da Rua Carlos Sampaio onde havia um belo cinema que freqüentei com minha falecida esposa que me amava dedicadamente e fazia um delicioso feijão com toicinho todos os dias levando minhas veias a se entupirem da nociva gordura que ocasionou o derrame cerebral que me paralisou o lado direito do corpo franzino e frágil que tantas preocupações rendeu à minha mãe nos tempos da infância quando eu andava de carrinho de rolimã e sentia o vento de primavera com cheiro floral acariciando meu rosto enquanto a mocinha da rua de cima me observava atrás das janelas com olhos de jabuticaba e meio sorriso no rosto tão pálido que me lembrava a estátua de Virgem Maria que eu idolatrava quando ia à igreja de mãos dadas com meu pai a fim de que não me perdesse no meio das pessoas estranhas e enormes que em mim esbarravam sem que eu sequer pudesse enxergar suas faces misteriosas e desconhecidas como daquelas mulheres mulçumanas que vestem a burca que lhes esconde os olhos mas não a tristeza incrustada na alma reprimida pela sociedade temente a um Deus castrador e patriarcal como os mafiosos daqueles filmes que sempre passam na televisão e eu nunca consigo terminar de ver devido ao sono que sinto depois das dez por conta de acordar muito cedo para ver o nascer do sol iluminando o orvalho do mato novo na rua de terra batida por onde passa a moça de vestido decotado que eu poderia observar muito mais prazerosamente se tivesse uma cadeira de balanço.

O velho sempre a me espiar. Espia despindo-me com os olhos. Olhos, talvez o resto vivo em seu corpo que ainda não tenha sucumbido ao cansaço. Cansaço igual ao meu, percebendo-o de pé todos os dias, na varanda. Varanda nua que, sem uma cadeira de balanço, assemelha-se ao vácuo no qual se infundem os planetas. Planetas chorosos, condenados ao eterno aproximar-se e distanciar-se, privados do toque, imersos em assombrosa distância. Distância que me separa do velho. Velho que, supostamente, já montou rolimãs quando menino. Menino que ainda se assoma em seus senis olhos azuis vendo-me de vestido. Vestido florido, ou liso, de tecido fino, para os dias excessivamente quentes de verão. Verão que faz ventoso o ar, que suspende ligeiramente o vestido, roçando em meu sexo descoberto, assoprando em minha pele, arrepiando minhas reluzentes e desejosas coxas. Coxas brancas que se expõem ao seu crivo de homem em pérfido julgamento. Julgamento em que lhe pergunto com o olhar: são belas? Belas assim, você as deseja? Deseja-as mais que uma cadeira de balanço? Cadeira de balanço que lhe propiciaria, nos dias últimos, algum aguado prazer. Prazer muito maior eu poderia conceder-lhe entregando-me ao seu desejo murcho. Murcho como seu olhar sôfrego nos dias em que não apareço na rua. Rua com cheiro nostálgico de mato novo. Novo e vívido como ele já foi um dia. Dia diferente do hoje, em que ele é apenas o velho. Velho, sem cadeira de balanço, sem nome, sempre a me espiar.

25 de junho de 2005

Memória Esquiva

O pesadelo
Parece postal. O gramado regozija-se com os primeiros raios do sol. É puro orvalho. Ela senta. O banco branquíssimo, reformado, sob a frondosa copa do carvalho. Banho de sol. Melhor momento para pôr ordem às suas memórias. Na caderneta, escreve. Tudo. Lê. Relê. Tenta caçar a ponta do novelo, emaranhado de lembranças. Em vão. O que veio antes? A voz do médico ainda ecoa na cabeça. “Cinco fatos passados na ordem correta e você passa um fim de semana em casa”. O homem dos círculos já deu três voltas. Agora quatro. Talvez já tenha desenhado seu melhor círculo do dia. Ela, nada. Mente estafada, enfastiada. Culpa das noites mal dormidas. E as noites, culpa do pesadelo angustiante. O de sempre. Franklin, o menino sardento dos seus anos primários. Encara-a com olhos malévolos de predador. Entocaiado. O sorriso, puro gozo daquele que se sabe opressor. Ela, agachada, acuada, no canto sombrio e gélido formado por duas infinitas paredes. De altura. E comprimento. Onde nascem os colossais monstros de pedra? Não há teto. Capricho maligno de algum arquiteto. Sádico. Calculista. Geômetra da vastidão negra e crua da perversidade humana. Um teto? Seria indulgência, misericórdia. Mas a visão que tem do céu, tortura. Nuvens amorfas, livres, bêbadas de tanto azul, espreguiçando-se. O vento. Ah, o vento. Tortura o não sentí-lo na pele, apenas vê-lo a arrastar as nuvens, devasso. Tortura a infinitude das paredes, meticulosamente projetadas intransponíveis. Tortura o chão. Xadrez. De pequenos ladrilhos pretos e brancos. Preto. Branco. Branco. Preto. Muito límpido, brilhoso. Tanto que é um quase-espelho do céu. Sim, quase, pois reflete as formas – nuvens, lua, estrelas – mas rouba-lhe toda a cor. Assim, o céu que se apresenta ao seu alcance não é o jorrar de azuis, é apenas falacioso reflexo no chão. Quase-céu, descorado, gelado, previsível em sua não-profundidade – puramente plano – e maculado pelo maniqueísmo geométrico do homem – eterno revezar-se de quadrados pretos e brancos. Sobre a mesa repousa o tabuleiro de resta-um. O orifício do centro, o vazio. As quatro periferias preenchidas pelas peças, translúcidas e coloridas bolinhas de cristal. Ela se aproxima, trêmula, incontrolável vazar de sentimentos no peito. Cada esfera, um incólume cárcere de memórias. Rigidamente organizadas, todas, fiéis à cronologia de uma vida inteira. Uma das esferas, muito turva, aprisiona nuvens negras, tenebrosas. A mãe escancarando o portão de casa. Corre desesperadamente pela tempestade. Desaparece. Na esfera adjacente, quatro, cinco dias depois, o breu. A casa toda penumbras. O telefone tocando de madrugada. O pai chorando. A notícia: o cadáver da mãe encontrado na margem do rio, preso entre caules e galhos. Ali, naquele tabuleiro bobo, reside a panacéia de sua memória. Passaporte para inventar, desbravar mundos. Caminho para um grande amor. E filhos! Família! Mas antes que ela possa proteger os frágeis e cristalinos glóbulos, Franklin segura seus braços. Mãos arquetípicas de menino. Grego ou troiano, preto ou branco, moderno ou medieval; hão de ter as mesmas mãos. Calos, do empunhar estilingues. O detrás da unha negro de sujo, imundície mista de terra e ranho. Com essas mãos, empurra-a. Ela cai sentada. Submissa, ira engolida, observa. Franklin, saco plástico à mão, apanha as bolinhas. Uma a uma. Deposita-as no saco. No tabuleiro restam apenas os orifícios. No saco, suas memórias. Caoticamente, memórias. A primeira infância misturada à última festa, dos vinte e nove anos, e esta, às aventuras da puberdade. Matizes múltiplos tendendo ao branco. O menino leva à boca o saco. Assopra. O bafo, mais e mais, embaçando tudo lá dentro. Quando termina de encher, amarra a ponta. Encara a menina. O golpe fatal, impiedoso. O saco estourando, derramando lembranças. Ao estrondo do estouro repleto de ecos, segue-se o agudo tilintar de cristais estilhaçando-se pelo chão. As bolinhas feitas cacos. As memórias, libertas, voláteis, diluindo-se no ar. Sobem, até encontrar o azul da abóbada. Desaparecem. Ela acorda. Sua frio.

A chegada
O médico conversa com o pai e a madrasta. Sala de mobília escura, antiga. Tudo tão pesado. Até o cheiro de antigamente. Cheiro amargo, ardido. Madeira velha inebriando o ar. Parece uma arapuca, maliciosamente armada para enclausurar, sufocar sua alma. De pé, na janela, lembra-se da caixinha de fósforos da infância, onde trancafiava toda sorte de bichinhos exóticos que encontrava pelo caminho de volta da escola. Ré e juíza de seus próprios atos, acaba sempre se absolvendo. É que não fazia por mal. Bem o sabe. Sozinha, filha única, precisava de companhias. Da janela observa o gramado. Gentes chegando aos montes, de todas as direções. Loucos. Todos vestem azul. Supostamente é hora do banho de sol. Um deles, muito alto, branco quase albino, caminha em círculos. Obcecado, persegue alguma misteriosa perfeição. A busca pelo círculo perfeito? Dessa lida extrai o hedonismo que embebe sua existência de razões, justificativas. Feição grave, sisuda. Nos elegantes passos, pisados com extrema cautela, talvez enxergue o desenho. Mágico compactuar-se consigo mesmo. Pois que se terminada a Grande Obra, correrá desvairado pelo campo, a gritar aos quatro ventos "consegui traçar o círculo"? Não. Guardará secreta em seu peito a façanha. Um efêmero instante de êxtase, qual orgasmo. Recomeçará. Perseguindo um círculo ainda maior. E mais circular. Por anos e anos, assim deve ser para que não sucumba seu existir. Ambição, insatisfação: eis as águas sempiternas que impõem movimento ao moinho da vida. Uma ruidosa batida de madeira chama sua atenção. Desvia o olhar para a papelada sobre a mesa. O médico retirando o carimbo. As letras vermelhas, garrafais, se revelando. Aos poucos. "Memória Esquiva". Ainda fita o pai, à procura de algum amparo. Qualquer. Um afago na cabeça, quase sem duração. Um sorriso esboçado que lhe subisse o cantinho da boca. Ele apenas baixa os olhos, pesaroso. No gesto, ela antevê um quê de "desculpe", de "nada mais a fazer". Eles partem. Pai e Madrasta. Ela fica. Agora, a louca.

Volúpia das Sombras
Chove. Sem parar. Desde anteontem. Nesses dias, todos ficam sem a benção do gramado. Amontoados no pátio interno, parecem nervosos. O ar permeado por uma atmosfera de iminência tensa, de inconseqüências prestes. Grito, safanão, tapa, soco, pontapé. Qualquer violência lhes é cara quando privados do gramado. Em todos os olhares humanos – ternos, insanos, rebeldes – pulula inquieta uma falta. Camadas de falta sobrepostas uma a outra, durante milênios, geração a geração. No detrás de cada olhar, a fera. Ainda que aprisionada, inextinguível. A fera, outrora perseguindo a presa, ostentando seus pontiagudos caninos – arma primeva forjada no seio da natureza para dilacerar. Fera que, dilacerando, lambuzava-se no sangue ainda morno. A fera, seu pai. Ele se assoma do recôndito, caótico arcabouço de memórias. É madrugada. Ela desperta. Ouve gemidos no cômodo adjacente. Quarto de hóspedes. Recinto mergulhado em breu. Porta entreaberta. Agachada, ela espia. Por entre todas as sombras mortas, inertes, duas se movem tresloucadas, sedentas. Entrelaçam pernas, mãos, bocas, num voluptuoso balé de amor. Amor. Azeite aromático roubado à ceia de Deus, numa ânfora, por um anjo qualquer, travesso, vagabundo, para nutrir a alma do homem. Na vida, há os incautos, que se encharcam da quintessência em parvo desperdício. Outros, prudentes, pingam na boca duas, três gotas. Degustam, por longo tempo. A língua, benfazeja, espalha o elixir em movimentos circulares. Bochecha, palato, bochecha. Até que a saliva dilua por completo o sabor. E há os privados, onde ela se inclui. Reclusa, apenas observa a horda esbaldando-se em redor da ânfora. Aguarda ansiosa até que eles, carcaças de desejos, partam satisfeitos. Daí sim. Aproxima-se. Timidamente. Enfia a mão no fundo. O dedo indicador toca a argila ligeiramente úmida, fresca. Unta os lábios intocados. Lambe o apenas resquício, seu quinhão de amor na vida. Quisera ser como as sombras, tragadas por furioso oceano de lascívia. O noivo (como se chamava?) desapareceu. Quando da internação. Não a possuiu, violento. Sequer ensaiou obscenidades. A sombra maior (o pai?), pesada, tirana, por sobre a menor, a presa. A mãe? No quarto de hóspedes? Trespassada pela dureza quente da fera, a presa engole seu gemer. Será dor? Prazer? Atracam-se, passionais, irresponsáveis, ofegantes, atracam-se. Sombras brilhosas, banhadas que estão pelo suor. E gozam como deuses. Tombam. De fora ela ouve. Aos poucos as respirações normalizam-se. Até que a sombra-fêmea se levanta. Caminha. A mão esquerda fechando a porta. Sem aliança. Não é sua mãe. Terá ela já falecido? E se não? Estará viajando? Ou... será? Talvez esteja esparramada na cama, entorpecida pelos barbitúricos, tentando ocupar o vazio deixado pelo marido. Na cama e na vida.

Muitos anos de vida
Refeitório. As palmas descompassadas. Os loucos aplaudem a aniversariante. Seus rostos carregam, a duras penas, algum sorriso. Quase todo sorriso é uma planta enraizada. As folhagens, as flores, os frutos brotam na face. As raízes aprofundam-se até o âmago do Ser, de onde bebem a seiva da felicidade. O sorriso dos insanos, porém, não possui raízes. Foram podadas. Sorriso superficial, desprovido de alegria. Efêmero, quase no mesmo instante em que revela os dentes amarelados, esconde-os cerrando os lábios, lápides de sorrisos. Acabrunhada no canto, ela observa. Os sorrisos. O bolo afoitamente despedaçado. As velas nunca acesas pelas enfermeiras, a fim de reaproveitá-las nas festas vindouras. A ausência do pai. Virá? 38 anos. Há nove começou a clausura. Onde estará? Nos primeiros meses suas visitas eram freqüentes. Até que foram escasseando. Escasseando. Terá esquecido? Apenas três no último ano. Aniversário, Carnaval, Independência. À sua frente um demente baba no guardanapo. O branco é aquele mesmo. Do lenço, no velório. Mas o guardanapo, encharcado. O lenço não. Velório de sua mãe. Todos de preto, compadecidos. A futura madrasta, melhor amiga da mãe, de cinza. Cinza que lhe fere os olhos, qual laranja, verde-limão, lilás. Cinza, insuportavelmente cinza. Alegre por demais para o velório de sua mãe! Das mãos da madrasta o lenço escapa, esvoaçando. Solícita, ela o intercepta, antes que toque o chão. O pedaço de pano entre os dedos. A surpresa, um golpe no peito. Nem molhado. Sequer úmido. Seco. Árido. À dor da perda da mãe, soma-se esta, ardida. Parabéns pra você. As palmas de agora se fundem ao barulho dos primeiros punhados de terra caindo sobre a madeira. Som do irremediável, irreversível. Haverá na vida mais pungente ruído que este, da terra sobre o caixão da mãe? Terra maldita, que nos nutre a carne com seus frutos suculentos, mas vem à forra. No dia da paga, é ela quem nos come. Impiedosa. Ávida por transformar tudo nela mesma. Excremento, planta, bicho, gente; tudo feito terra. A madrasta oferece o ombro ao pai, que se aconchega. Íntimos? Nesta data querida. Incomoda-a este verso, cantado a plenos pulmões pelos néscios. Reformula: nesta data, quer ida. Sim, ela quer ida. Ida idosa. Partida sem retorno. Muitas felicidades. Soa-lhe razoável. Depois da partida, a bonança. Muitos anos de vida. E na bonança haverá de viver seus muitos anos. Mas antes, pensa em sua cova. Quê-la cavada no gramado. Seu coração, ainda que, com os dias, esteja fisicamente carcomido pela pedregosa terra, ali permanecerá como espírito morno. E exatamente nesse ponto, o homem dos círculos caminhará. Descalço. Sentirá o calor a penetrar-lhe as plantas dos pés. Traçará o mais perfeito de todos os círculos, Opus Magister, tendo como centro seu coração.

23 de maio de 2005

Dolce Vita, nono andar, sala 4

Sete horas. Já estava escuro. Dia quente, abafado. O prédio preto de tão sujo. Pura fuligem, cuspida todos os dias pelos escapamentos de milhares de veículos raivosos que roncavam pela avenida. Edifício Dolce Vita. Treme-treme decadente freqüentado por putas e travestis da região. Saulo de pé, na porta. Aguardava o homem de vozeirão, com quem marcara encontro por telefone. Saulo, que era de Câncer, quarenta e tantos. Grisalho. E que também era crente. Bastante crente. Desses que fazem da Bíblia a bússola da vida. Saulo, casado, classe-média, pai de um moço. Quando ensejava a desistência, um ônibus parou. Desceu um elemento abrutalhado, enorme. Vestia jeans e jaqueta de couro.
- Saulo? É o senhor?
- Isso. Cidão?
O brutamonte respondeu com um sim de cabeça e, pigarreando, perguntou com a voz grave, rouca, quase incompreensível:
- O apartamento? Do senhor?
- Não. Aluguei. Só pra ocasião. Vamos entrar.
A saleta de entrada ostentava um chão de ladrilhos vermelhos trincados. Lâmpada fraca, dependurada por fios desencapados. O porteiro de camisa desbotada azul fedia ardido a suor seco. Braços cruzados sobre a mesa, cabeça encovada no meio. Cochilava um sono mal dormido, sono de pernilongos rondando, ávidos pelo banquete. Às vezes despertava, abanava o braço na vã tentativa de expulsar o zum-zum-zum, ouvia um pouco do mal sintonizado jogo de uma dessas estações AM e dormia de novo.
Saulo e Cidão. Caminharam até o corredor do elevador. Esperavam. Saulo, Saulo... Ele, que era bom. Cidão encarava-o de soslaio. Saulo, de olhos titubeantes, namorava a rua. E agora? Desisto? Mas como? Esse homem já veio até aqui! Se eu sair ele avança em mim. Se corro ele me alcança. O estrondo do chegar do elevador, jaula metálica enferrujada, interrompeu seu pensar. De dentro, saiu um travesti de peruca loira, barba por fazer. Fumava. Sorriso da decadência orgulhoso na cara. Batom vermelho, gritante. Dentes tortos. Os da frente separados por um buraco escuro, por onde roçava a língua. Levantou a blusa, botou a mão nas tetas postiças e assimétricas, empinando-as, e perguntou para Saulo, insinuando-se:
- E aí? Vai?
Saulo desviou. Entrou no elevador, seguido por Cidão. A porta era das antigas, trança de ferro fechada manualmente. Cidão enfiou a mão pesada por entre a grade e, violento, fechou-a. Para Saulo, era bom o sentir-se ascendendo. Aproximava-o dos céus. E a ascensão lenta os levaria até o nono andar. Olhavam pro chão. Cabisbaixos. Segundo. Terceiro. Só se ouvia o tec-tec de velharia da gaiola subindo. A mudez de ambos beirava o insuportável. Quinto. Cidão, preocupado em garantir seu bem-estar e completamente alheio àquela presença desconhecida, incômoda, perguntou sem interesse:
- Por que não só você? Sozinho?
Saulo tirou uma bíblia surrada do bolso do paletó. Segurou-a com força, cheio de fé nas letras gastas, apagadas. Respondeu comovido, com voz trêmula de quase choro:
- Não posso! As Escrituras! Não entende? O Livro condena! Preciso que faça isso por mim!
Sétimo. Oitavo. Um tranco. A jaula de ferro parou. Nono. Cauteloso, mãos de imensa leveza, Saulo forçou a grade. Ritualístico. Não queria destronar o silêncio que, tirano, abissal, imperava no estreito corredor repleto de penumbras. Caminharam. Saulo à frente, Cidão logo atrás. O eco dos pesados passos de Cidão, mentalmente repreendidos por Saulo. O cheiro de mofo. A claridade dúbia, sinuosa. No final, a sala 4. Tão disponível, tão só de Saulo. Tão toda perfeita para um plano secreto. Com repente, a mão bruta de Cidão agarrou Saulo pelo braço, que olhou pra trás interrogativo. Cidão esclareceu, perguntando:
- Tem certeza?
A pergunta. Como era difícil transpô-la. Saulo, que já empunhava a chave da porta. A porta, que seria facilmente aberta. Mas a pergunta. Infame pergunta, para a qual Saulo não possuía chave alguma. O grunhido animalesco de Cidão transmudara-se na voz suave da esposa. Os olhos. Pareciam os olhos ternos, amantes dela. Olhos de apenas brilho, quando ele chegava em casa, respirava fundo o cheiro do feijão fresco sobre a mesa e sorria. Era ela, sua esposa perguntando se tinha certeza. Mas Saulo não tinha. Desisto? Vou até o fim? E respondeu, à meia voz:
- Vamos.
Caminharam. Sala 4. A chave, enfiada no orifício com vagar, girava, destrancava a porta. Calmamente. Mão na maçaneta, porta abrindo. Atônito, Saulo vislumbrava o recôndito secreto de sua obsessão. Carpete fino, escuro, empoeirado. Pouquíssimos móveis. Apenas uma cama e um criado-mudo. Janelas enormes. O incessante pisca-pisca dos luminosos de fora tingia o ambiente. Ora verde, ora lilás, ora vermelho. Entraram. Quando Cidão acendeu a luz, Saulo censurou-o:
- No escuro! Só à luz dos luminosos.
Mergulhado em verde, Saulo tirou a carteira do bolso. Colocou-a sobre o criado. Deitou-se de bruços. Lilás. Pegou a Bíblia e apertou-a forte ao peito.
- Está na carteira. A quantia acertada.
- Certo.
Cidão aproximou-se. Na cabeça, Saulo sentiu a pressão dura, rígida.
- Pronto?
Luz vermelha. Tiro! Seco, furioso, rasgando com ferver seu pensamento. O som engolido pelo faminto turbilhão de buzinas e motor de avião. Cidão foi à janela. Olhou pra baixo. Cobiçou uma puta, que se exibia com as coxas de fora. Pegou o dinheiro. Partiu. Só ficou Saulo. Saulo, que era feliz. Saulo. Feliz. Em casa, a esposa o esperava. O feijão esfriando na mesa.

12 de maio de 2005

Amar sob tendas

Toda vez que Parangolé, o famigerado ventríloquo do circo, tentava sair à francesa, já vinha atrás o palhaço Jeca, atravessando o picadeiro e gritando:
- Espera aí que também vou!
- Está bem! Vá se trocar, dizia Parangolé.
Apressado, Jeca ajeitava as calças semi-arreadas rebolando um pouco, pra entrar melhor. Sujeito abobado o Jeca. Ruivo de botar fogo invejoso, tanto era a vermelhidão da cabeleira. Saía feliz da vida. Bem sabia que Parangolé andava aprontando suas reinações pela rua, traquinagens de rir sem-fim.
Naquele dia sucedeu que Parangolé precisava de ir ao banco. A fila estava que parecia cobra-de-veado depois de banquete. Jibóia comprida, esparramada, paradinha de tudo. Parangolé inquietando, enervando. Coça nariz daqui, bate pé de lá. E nada! Jeca logo percebeu que era coisa de minutos pro amigo começar a talentagem de falar de boca fechada. E foi mesmo. Ventri-berrou:
- Todo mundo de mão pra cima! Assalto!
Fuzuê dos diabos! Um tal de gente correndo de um lado pro outro, com braços erguidos. O guarda puto de raiva. Arma em punho e cara de violência, tudo pra pegar o bandido. Procurava o gatuno que nem cão farejador. Mas bandido mesmo que é bom, neneca! Depois do pandemônio, no caminho de volta pro circo, a gargalhada dos dois era tanta que mais um bocadinho de nada e Jeca me saía um belo de um borraceiro.
Mas taí uma palavrinha danada que a gente cá de baixo se habituou chamar destino, só que lá em cima o nome é outro: Providência. E foi bem isso que pegou Parangolé de jeito.
Naquela agitada noite de espetáculo, já tudo estava armado pro matreiro Parangolé entrar bem. Lua mais cheia que mar de peixe. Céu todo de brilhantura. Cheirinho de pipoca doce no ar. Burburinho de criançada feliz ao longe. E o circo inteiro cravejado de lampadinhas coloridas, piscantes. Que perigo, tanta pólvora de coração junta! Uma faísca – uma faisquinha apenas – e pronto! O pobre Parangolé estaria apaixonado, abestado por demais.
E eis que chega a dita faísca. Bem no número de Parangolé, enquanto o boneco Xiquito recitava um poema. Linda, de vestido branco rendado e olhos negros de flecha venenosa. Xiquito terminou a recitação, mas cadê que Parangolé continuava? Só ficava olhando pra moça, atracado na bobagem de amor. Com fins de ajudar o amigo, entra Jeca, já semi-fantasiado, tropeçando em Deus e o mundo e caindo de quatro no meio do picadeiro. Recomposto, cochichou no ouvido de Parangolé:
- A fala! Você tem que falar “Xiquito, deixe de manias de poetar sobre amor. Amar é coisa de gente desocupada!”... Vai, homem de Deus! Fala!
Parangolé, pintado todo de vermelho, fazia o coisa-ruim, cético, vilipendiando o amar. Xiquito era o poeta apaixonado, tentando convencer o diabo do contrário. Mas Parangolé, com olhar fixo na donzela, saiu pior que a encomenda. Disse tudo ao invés:
- Virgem Santa! Como é que pode tanta boniteza pra um alguém só? Amar, Xiquito! Eis aí a única certeza da alma! Amar sem rumo! Amar sem prumo! Simplesmente, amar!
Xiquito, fulo da vida, retrucou:
- Ei! Devagar com o andor, seu moço! O poeta aqui sou eu!
Enquanto o mundo à sua volta gargalhava, a mocinha recatada sorria um sorrisinho meigo de meia-boca, disfarçando, olhando pra baixo, coradinha nas bochechas. Findo o espetáculo, lá foram Xiquito e Parangolé, este tão todo rubor que sabe lá se era de avergonhado ou resto de tinta. De pernas trêmulas, afoitíssimo, Parangolé abordou a moça:
- Sabe que aquela trapalhada lá dentro foi culpa da senhorita? Digo, da belezura da senhorita...
Ao que Xiquito imediatamente interrompeu e disse com veemência:
- Vê lá, Parangolé, se isso é jeito de tratar uma donzela tão da formosa? Deixa isso comigo.
Xiquito tinha razão. Parangolé era homem galhofeiro, dado a patuscadas. Não conhecia os sutis melindres e labirintos da alma feminina. Mas Xiquito... Aquele, se não fosse boneco, já tinha botado de joelhos metade das donzelas da cidade.
- A senhorita me desculpe pela descompostura desse meu amigo tosco. Sou Xiquito. Não pude deixar de notar quão lindos são teus olhos. Ó donzela, trouxeste conforto e alívio a este coração de boneco, que, solitário e calado, sofre sem par neste mundo.
Estranha a reação da moça. Parecia que ia falar qualquer coisa. Mas o lindo rosto foi se enchendo de aflição. Olhou pra um, olhou pra outro. Virou as costas e foi sumindo junto com o apagar das luzes. Nem xingar xingou. De pé, fincado no chão que nem galho morto sem folha e banhado de luar, Parangolé olhava pro nada, com Xiquito na mão. Os dois queimando de febre da alma.
Dormiram sono ruim dos diachos, desejando não houvesse amanhã. Mas havia. Muitos amanhãs. Um pior que outro. A moça aparecia no circo cada vez mais encantadora. Só olhava. Parangolé e Xiquito chegavam de manso, puxando assunto. Nada. Ela tripudiava, quieta de tudo. Nunca dizia se gostava ou desgostava. Castigava forte com olhares de ternura. No dia de sofredura máxima, Parangolé agarrou-a pelo braço e descarregou o palavrório:
- Não faz mais isso, Dona! Fala qualquer coisa. Que não quer a gente. Ou até que odeia! Estou a ponto de fazer besteira da brava. Vem aqui no circo jantar amanhã, às oito? Vem? Só eu, você e Xiquito?
A moça se libertou com um safanão e correu atordoada. Naquela noite os amigos de Parangolé, liderados por Jeca, se juntaram e prometeram ajudar no jantar. Estavam preocupadíssimos. Por aqueles dias Parangolé era só casca. Mesma cara, mesmo corpo. Mas por dentro, a alegria fora minguando, minguando, até sumir de tudo. E Xiquito? Não se ouvia mais a poesia linda do boneco.
E todo mundo dormiu. Sumiu a lua, veio o sol, todo mundo acordou de novo. Horas imóveis aquelas, mais pra correnteza de riacho congelado. Parangolé olhava o relógio de minuto em minuto. À tardinha começou a arrumação do circo. Sete horas. Parangolé, já de banho tomado, cheiroso que só cheirando, penteava Xiquito. Separou pro boneco a roupa mais elegante de todas: um terninho cheio de finesses.
- E se ela não vier, Parango?
- Daí, Xiquito, a coisa vai desandar. A gente vai subir até a tábua dos trapezistas e se jogar. Dar cabo dessa vida ingrata.
- Pode parar! Você suba lá sozinho e me deixe cá embaixo. Posso até fazer torcida, mas pular junto? De jeito maneira!
- Vamos ver só se você não vem comigo...
O riacho do tempo descongelando preguiçoso. Goteira lenta de minutos. No relógio, oito horas. No picadeiro, Parangolé e Xiquito de um lado pro outro. Oito e dez. Oito e vinte. Oito e meia, e Parangolé começou a escalada da escadinha dos trapezistas. Degrau por degrau, indo ao encontro da indesejada das gentes. O chão amiudando. Xiquito, coitado, gritava:
- Me põe no chão, filho de uma égua manca! Tenho vertigem!
Pobre Parangolé. Mal imaginava quem vinha chegando do lado de fora. A moça era o deslumbre em pessoa. Um malabarista, vestido de listas azuis e fazendo diabruras com bolinhas, abriu o portão. De vestido florido discretamente decotado e perfume de primavera, ela caminhava em direção à tenda. Diversos homens de pernas-de-pau e tochas na mão dispostos em corredor. Cuspidores de fogo. Conforme ela passava, um mágico túnel de luz ia se formando sobre sua cabeça.
Do lado de dentro, Parangolé respirava fundo o resto de coragem necessária. Xiquito só tapava os olhos. Quando a donzela chegou à porta da tenda, Jeca, caracterizado de palhaço e vestido com estirpe, recebeu-a cheio de cavalheirismos e outros ismos. A moça tirou um bilhete da bolsa e entregou a Jeca. Este, muito surpreso e quase sem palavras, abriu a porta. Mas surpresa ainda maior foi ver Parangolé na pontinha, de joelhos flexionados, dando impulso ao pulo mortal. Jeca berrou:
- Não faz isso! A danadinha é muda! Por isso não falava com você! Está aqui o bilhete que não me deixa mentir. E a graça dela é Maria.
Muito tarde. Parecia que o joelho de Parangolé tinha mais pensamento que a cabeça. Os dois foram despencando numa velocidade sedenta de chão. Naquela altura, quem perguntasse a Jeca se o coração agüentava mais uma, ele diria que não. Mas tinha outra. Das boas. Um trapezista, escondidinho na escuridão da tábua de pulo oposta e muito do ciente das caraminholas que andavam pela cabeça de Parangolé, pulou ao mesmo tempo no trapézio. Capturou Parangolé pelo pé, a um tiquinho do chão. O homem voava e ria bobo, fitando Maria florida lá embaixo.
Passado o susto e já pousado no chão, Parangolé ajeitou a gola do paletó, caminhou até Maria e disse:
- Vamos jantar?
Conduziu-a até seu lugar na mesinha. Quando sentou, olhou bem aqueles olhos negros e falou:
- Então a senhorita é muda? Por que não disse antes?
Xiquito logo repreendeu o amigo:
- Larga a mão de burrice, homem! Como é que ela ia dizer alguma coisa?
Maria sorria, apaixonada que estava pelos dois.
Depois chegou Pierre, o mágico de tratos afrancesados, montado num elefante. Vestia fraque e gravatinha borboleta. Apeou, aprochegou-se e, num passe, puxou das mangas três cardápios.
- Monsieurs, Mademoiselle, le menu.
Ao fundo, trapezistas imersos na luz azul dos holofotes, cheios de estripulias, brincavam de arranhar o céu.
Meses depois, no matrimônio, o padre questionou Maria se queria esposar Parangolé. Este deu uma cutucada na moça. Ela abriu a boca, mas quem falou foi o noivo, ventriloquando:
- Sim.

3 de maio de 2005

Joaninha fazedora de jarros

A vizinhada do bairro Olaria conhecia a senhora grisalha por Dona Joaninha. Até aí, nada demais: sua graça era Joana mesmo. O que mais encasquetava era a semelhança dela com o insetinho coleóptero: muito dócil, terna. Caminhava curvadinha e ostentava uma ampla coleção de casacos de bolinha.
Um tanto monossilábica, é verdade. Não era lá muito afeita às palavras. Joaninha acreditava em suas mãos, apenas. Por isso era das mais respeitadas oleiras das redondezas: seus jarros e moringas encantavam legiões de turistas que vinham de longe, não apenas pelas formas suaves e abauladas de encher os olhos, mas também pelos desenhos de valor artístico inestimável. Quando os filhos questionavam-na porque era tão calada, ela respondia:
- Boca mente o tempo todo. Mão não. Quando acarinha, é que ama; se bate tá com raiva.
Jamais dizia "eu te amo". Só chegava com a mão gordinha de dedos grossos, que se embrenhava pela cabeleira desalinhada das cinco crianças, e começava um feitiço de cafuné. Tão feitiçoso que logo a meninada toda se punha a dormir.
Bem de manhãzinha, quando o céu era só clarão mas o sol ainda se encorujava pra baixo da terra, Joaninha, já de pé, passava o café. Mais preto que noite. Fortíssimo. Pra agüentar o mais um dia de trabalho no torno. Sobre a mesa de toalha desbotada de muitos quadradinhos, Joaninha colocava, além das cinco xícaras das crianças, uma outra, que lá ficava até o anoitecer.
- Pro pai?
Perguntava a terceira menina, que já amocinhava e se metia a entender das coisas, empinando os peitinhos mal nascidos.
Era pra Jeremias, marido ido. Já havia quase quatro anos. O homem, logo depois de emprenhar Joaninha pela quinta vez, fugira com Analice, a filha da vizinha. Um espanto de moça, de tanta boniteza. Tez alva, olhos muito negros, um pouco desviados. Discretamente estrábica. Nunca se sabia ao certo pra onde a mocinha estava olhando.
No dia da fuga, depois de girar o torno o dia inteiro, Joaninha chegara em casa exausta. Procurava Jeremias para lhe mostrar o dinheiro do dia, com a venda dos jarros. Chamava. Chamava. Nada do homem. Quando pegara o pote da economia de dez anos de trabalho, o susto! Susto brusco de boi preto que enfia a cara brava pra dentro da janela. O pote vazio que era só ar. Na manhã seguinte chegara a notícia: Jeremias havia comprado um jegue na cidade, colocara Licinha no lombo e saíra galopando pela estradica de terra que cruzava horizontes, sem destino.
Passados quatro anos, estava Joaninha fincada firme na cozinha. Café feitinho. Dia diferente dos outros: decidiu deixar as crianças dormindo mais um bocadinho, antes de despertá-las pra labuta. De repente, uma pontada violenta no peito. Como das outras vezes, pensou “hoje não”. Mas dessa vez a dor vinha metida a besta. Teimosa. Fisgou de novo, ainda mais forte, no coraçãozinho cansado. E ela, insistente:
- Já disse! Hoje não!
Apressou-se. Tinha de entregar uma encomenda de quinze jarros para uns turistas alemães. Era dinheiro que chegava pro pão da prole por uns dias. Saiu de casa com a bacia e começou a descer o barranco que dava no ribeirão. Precisaria de muito barro. Novas fisgadas e Joaninha caiu de joelhos, prostrada no lamaçal. Enfiou os dedos gordinhos na lama. Ah! Era deliciosa a sensação do barro fresquinho e cheiroso penetrando atrás das unhas.
As vistas embaçavam. Na outra margem do ribeirão, avistou um homem esguio. Por um instante, uma certeza esfumaçada invadiu Joaninha. Jeremias! Tinha de ser Jeremias! Logo, a miragem já sorria o sorriso protetor de Jeremias. Ah, Jeremias! E sumiu, feito corisco! Outra pontada. E outra. Joaninha subia o barranco com a bacia cheinha de barro, resfolegando. Resistia, repetindo com heróica insistência - "hoje não", "hoje não".
Já no terreiro dos tornos, sentou o corpo cansado no primeiro torno. Um punhado de barro começava a girar. Aos poucos a massa amorfa ganhava personalidade, mais e mais imponente. As mãozinhas hábeis forjavam o mais belo de todos os jarros. Uma última fisgada. Fulminante. O torno parando, parando. O vaso se entortando lento, molenga. O pescoço já não suportava o peso. A cara redondinha de lua despencando no barro. O barro invadindo a boca entreaberta. Ainda procurou força pra cuspir. Inútil.
Joaninha virou ligeiramente a cabeça. O mais novinho, garnisezinho, miudinho de dar dó, encarava com olhos secos, agrestes. Peladinho, ranhento, barrigão d’água. Deformado pelo calor que subia da terra, era mais fantasma que gente. E, assim, Joaninha fechou os olhos.

20 de abril de 2005

Bodas de pérola

Naquela inesquecível noite, eu estava sentada em minha cabine. Dois comprimidos na mão: Dramin e Prozac. O primeiro, para o mal passageiro e momentâneo causado pelo incessante vai-e-vem do navio. O segundo, uma anestesia de curto efeito para um câncer que, havia trinta anos, começara a necrosar minha alma.
Recuperada do enjôo, saí para tomar um ar fresco. Edson, meu marido, estava sentado na beira da proa, solitário. Pensei em repreendê-lo pela exposição a tal risco. Porém, alguma idéia sinistra e desconhecida me impediu. Ensimesmado, Edson observava o calmo movimento das águas. A lua-cheia era apenas uma faísca ante a tão profunda e triste escuridão do mar.
Aproximei-me na ponta dos pés, para não ser notada. Fiquei olhando o redemoinho dos seus cabelos. Lembrei-me de nossas primeiras noites, quando eu acariciava aquele tufãozinho com movimentos circulares. Ele se relaxava todo e dormia no meu colo. Como o amara! Agora, eu olhava para o céu, pedindo a Deus um motivo, apenas um motivo.
Cheguei mais perto, vagarosamente. Quantas vezes Edson poderia ter vindo sedento, me agarrado à força, me amado violentamente? Mas não o fizera. Foram apenas orgasmos insossos, previsíveis. Lembrei-me dos olhos acovardados de Edson que, durante trinta anos, tentavam se desculpar pela esterilidade, pela completa incompetência em dar-me filhos e, assim, justificar alguma razão para minha vida.
Conforme eu me aproximava, minha mente conturbada fabricava inúmeros outros motivos. Crescia em meu coração um senso de dever, aliado a um desespero por não mais reconhecer a mim mesma nem meus limites.
Mais alguns passos. Ninguém observava. Ali, apenas eu e aquele homem. Minhas mãos suspensas e espalmadas viajavam pelo abismo negro que me separava de Edson. Dois fantasmas pálidos regozijando-se com uma atitude vil. Quando estava prestes a praticar o ato mais libertário de toda minha vida, Edson virou-se. Olhou para mim com seus olhos desculposos.
- Olá, meu amor. Você me assustou! Achei que estivesse na cabine, descansando.
- Já estou melhor.
Pela voz trêmula, notei que estava alcoolizado.
- Andou bebendo de novo? Deixa eu fazer uma massagem.
Minhas mãos avançaram sobre seus ombros, apertando-o brutalmente.
- Muito forte! Aperte um pouco menos!
Enquanto massageava-o com uma das mãos, com a outra apanhei um crucifixo no bolso e lancei-o ao mar. Edson olhou-me, interrogativamente.
- Só queria ouvir o barulho que ele faria ao cair na água.
Passado um instante de aterrador silêncio, questionei:
- Você não tem medo de ficar assim, sentado na beirada?
Sorriu ingenuamente e disse:
- Não. Porque teria?
- Sei lá. Alguém poderia chegar atrás de você e te empurrar. Além disso, você não sabe nadar.
Antes que ele pudesse retrucar, dei-lhe um safanão com violência. O homem e os trintas anos perdidos foram tragados pelas impiedosas águas negras. Enquanto seus braços se debatiam, o mar refletia o luar, indiferente ao seu sofrimento.
Caminhei até o lado oposto do convés e entrei no bar. Um elegante pianista executava Clair de Lune. Magistralmente.

18 de abril de 2005

Desentranhado

Depois de enfrentar a multidão que se acotovelava dentro do metrô, Carlos finalmente chegou à ruela de sobradinhos tortos onde morava. Apertou o passo. Não queria perder o Big Brother.
Maquinalmente, abriu o portãozinho enferrujado, que cortou o silêncio com um grunhido agudíssimo, lamuriante, dolorido. Pensou o mesmo pensamento de dias, semanas, meses, anos antes:
- Preciso arrumar o portão.
Entrou. Cruzou a saleta de paredes encardidas e emboloradas e chegou à cozinha. Abriu a geladeira. Vazia. Pegou um pacote de miojo, pôs água no fogo e encostou-se no armário, aguardando a fervura. Sobre a pia, um pedaço de papel alumínio abandonado, que usara em sua última marmita. Recolheu-o.
O papel levemente amassado refletia sua cara, distorcendo-a. Olhos desnivelados, nariz todo picotado, boca talhada ao meio. Olheiras ainda mais escuras e sombrias. Restos de macarrão seco com molho de tomate e carne moída misturavam-se à imagem bizarra. Jogou seu reflexo no lixo e terminou de preparar o macarrão. Embora estivesse muito acostumado ao sabor fabricado, dissimulou certa surpresa:
- Delicioso!
Devorou o jantar e esparramou-se no sofá. Ao ligar a TV, comoveu-se, possuído por uma felicidade abrupta:
- Que bom! Ainda não começou.
Olhou para seus pés descalços. Uma pequena ferida furunculosa no calcanhar prendeu sua atenção. Espremeu-a. Escorreu-lhe pela pele uma água espessa e amareliça.
- Estranho! Não doeu!
Espremeu um pouco mais. Surpreendeu-se ao notar que da ferida pendia um fiapo úmido. Puxou-o. Mais um. Outro. Novos fios foram se aglomerando e formando o que se assemelhava a um volumoso chumaço de algodão. A sensação era estranhíssima. À medida que Carlos desentranhava o chumaço, sentia de onde saía, como uma cócega por dentro. Começara pelo pé, depois perna, escalando o ventre, o tórax. Puxava com violência e fúria a matéria estranha que saía do seu âmago e que, agora, cobria os tacos do chão da sala como um tapete.
Quando a cócega terminou de percorrer o pescoço, Carlos sentiu uma forte fisgada na cabeça. Era o fim do chumaço. Havia algo na ponta, algo que não era de algodão. Qualquer coisa dura, rígida. O que antes era uma suave cócega tornou-se dor lancinante. A ponta dura foi descendo, qual lâmina afiada rasgando suas vísceras, e causando uivos de desespero. Quando chegou ao peito, Carlos parou. Pensou em desistir. Porém, àquela altura, sua curiosidade superaria até a força titânica dos gigantes. Continuou, contorcendo-se todo.
Respirou profundamente. Encheu o peito de coragem e, com força descomunal, puxou o corpúsculo num movimento brusco e preciso, evitando assim prolongar por muito mais tempo tamanho sofrimento. O objeto chegou ao calcanhar, porém não passava pelo estreito orifício da ferida. Teve de rasgar a pele. Estava suado, exausto. Sentia-se como uma mãe no pós-parto. Quando finalmente apanhou o objeto, não pôde conter um terrível grito, misto de espanto e alívio:
- Uma chapinha!
A chapinha metálica trazia impressos o número 84.689.563, um código de barras e três palavras que Carlos esforçava-se para ler, sem sucesso.
- Será inglês?
Pronunciava as sílabas como em português, com dificuldade:
- Ma... de... in... bra... zil...
Irritado com tudo aquilo, juntou suas entranhas e amontoou-as no lixo junto com o papel alumínio. Sentou-se no sofá e pensou:
- Agora deixa eu ver meu Big Brother.

12 de março de 2005

Sessão de cinema

Houve um dia em que o Diabo ouviu rumores de que Deus havia deixado o Céu por alguns instantes. Resolveu subir para conferir com seus próprios olhos.
- É hoje! Se ele realmente estiver fora, vou aproveitar para tomar conta da sala de controle e governar o universo – pensou.
Quando ele abriu a porta, encontrou Deus sentado, aos prantos.
- O que foi, seu Deus? Posso fazer alguma coisa?
- Infelizmente não. O pior já aconteceu. Essas criaturas daninhas que criei não se corrigem! Devia ter deixado o planeta só para os bichos!
O Diabo, como pai de toda a maldade existente, retrucou:
- Não seja tão duro. Eles não são tão ruins assim. Tenho certeza de que em alguns milênios os homens estarão melhores.
Para convencer o Diabo, Deus começou a narrar todas a maldades cometidas pelos homens. Quando terminou, o Diabo disse:
- Ainda acho que o senhor está exagerando um pouco.
- Então você não acredita? Vou te mostrar uma coisa...
Levou o Diabo para a sala de projeção, onde estavam arquivados os acontecimentos do planeta Terra. Começou o filme.
Mostrou as guerras púnicas, de secessão, das Malvinas, do Paraguai, do Oriente Médio, dos sete anos, dos treze anos, dos trinta anos, dos cem anos.
Mostrou a história de Átila. Drácula. As fogueiras da Idade Média. Os romanos soltando as feras sobre os homens. Napoleão. Hitler. A bomba atômica.
Quando terminou o filme, o Diabo, horrorizado, voltou para o inferno. Hoje em dia, antes de adormecer, o Diabo sempre junta suas enormes mãos vermelhas e reza:
- Por favor, Deus. Proteja-me de todas as maldades dos homens.