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6 de maio de 2005

Perguntações

- Mamãe, gato sabe nadar?
Será que a menina não percebia que incomodava os adultos com suas perguntações? E a mãe, que não se dava nem ao trabalho de respondê-las? Não é que a pirralhinha conseguia mesmo dar nó nos miolos da gente? Por esses dias, o que foi mesmo que ela me perguntou?
- Papai, vaga-lume não pica, né?
- Por quê?
- Você compra um vaga-lume pra mim?
- Pra quê você quer um vaga-lume?
- Pra quê? Ah, eu não podia dormir com ele pro quarto ficar mais claro, só um pouquinho?
Já pensou? Onde eu ia guardar o bichinho? Numa caixinha de acrílico? O que vaga-lume come? Folhas? Alface?
- Será que come carne, papai? E se eu desse um pedacinho do meu bife pra ele, todo dia?
E xixi e cocô? Como será o cocozinho de vaga-lume? Imagina o tamaninho do cocoziquinho?
- Papai, a gente não pode comprar uma privadinha pra ele?
E se o insetinho se metesse a morrer? Será que aquele coraçãozinho de cristal suportaria tamanha perda? No fim das contas, não me danei pelo meio do matagal pra caçar o tal do vaga-lumezinho? E a trabalheira pra arrancar aquele monte de carrapicho da calça?
- Filha?
- Que que é?
- Sabe o que tem na minha mão?
- Bom-bom? Pão de queijo?
O que te parece? Pular e rodopiar no ar com olhinho molhado de alegria é sinal de felicidade?
- Que nome você vai dar pra ele?
- Vagaluizinho?
Mas sabe que no fundo cá dentro do peito eu tinha uma certeza esquisita que o andor estava muito bom pra ser de verdade?
- Papai, põe o Vagaluizinho na caixinha agora, pra eu dormir com ele?
Cadê que o bichinho acendia?
- Será que ele não está queimado, papai? Posso chacoalhar um pouquinho pra ver se faz barulhinho, igual lâmpada queimada?
- Filha, lembra uma vez que a gente viu na televisão que vaga-lume só acende quando voa?
E a carinha que a coitadinha fazia, fingindo que não entendia só pra não soltar o Luizinho? Sabe aqueles momentos da vida que amor e raiva, alegria e tristeza, são que nem tinta verde? Você já tentou separar amarelo e azul da tinta verde? Conseguiu? Misturada danada, né? Pois quando ela abriu a caixinha e o Luizinho saiu voando e alumiou o quartinho e partiu janela afora, não é que parecia que um olhinho dela chorava lágrima de alegria e outro de tristeza? Tudo bem que Luizinho partira, mas também não acendera?
- Papai, ele tá indo tão lonjão que será que ele vai virar estrelinha?
Passadas algumas semanas de cabecinha matutando e matutando mais ainda, o que vem ela, toda sacizinha, me perguntar?
- Papai, cachorro não voa, né?
- Que é que tu tá querendo, menina?